Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MONITOR DA IMPRENSA > EDWARD SNOWDEN

O novo tipo de vazador da era digital

Por David Carr em 18/06/2013 na edição 751
Tradução: Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de David Carr [“A New Kind of Leaker for an Internet Age”, The New York Times, 11/6/13]

Com que se parece um vazador? Às vezes, as pessoas que revelam segredos ficam na sombra e deixam seus motivos, suas agendas e seus estados de espírito por conta do público.

Edward Snowden, o homem de 29 anos por trás das recentes revelações sobre vigilância de telefones e dados de computador pela Agência de Segurança Nacional, desmentiu essa história. Ele é um novo tipo de vazador da era digital: visível de imediato, tem voz e os meios de se dirigir diretamente ao público. Numa era da internet sem atritos, ele desprezou a sombra e subiu ao palco com um vídeo de uma longa entrevistaque concedeu ao jornal britânico The Guardian – que deu o furo com a matéria baseada nas informações dele. Abordou claramente seus motivos, dizendo: “O público tem que decidir se esses programas e políticas são certos ou errados.”

Ao se identificar como o vazador, Snowden ajuda a garantir que o debate se dê num contexto público e vá além de uma investigação governamental fechada, à qual talvez se seguisse um processo. O vídeo, que pode ser visto por todo mundo, significa que ele será julgado por todos, em tempo real.

O vídeo apresenta o perfil de um homem que não era um perdedor marginal escapando de agruras em sua vida pessoal: ele largou seu emprego, bem pago, e sua vida no Havaí com a namorada, e agora está escondido num hotel em Hong Kong. À primeira vista, parece razoável e cuidadoso, o que o tornaria um alvo difícil para aqueles que procuram marginalizá-lo ou sugerem que suas preocupações são exageradas.

Acesso ao autor do vazamento

É claro que, com a visibilidade, vem o exame minucioso. Por enquanto, o vídeo e a entrevista que deu ao Guardian são o que define Edward Snowden, mas nos próximos dias, semanas e meses aprenderemos muito mais sobre sua vida pessoal e profissional e talvez surja uma narrativa mais complicada sobre seus motivos. De momento, só sabemos que ele era a fonte dos vazamentos e conhecemos sua explicação sobre por que fez o que fez. Várias pessoas interessadas passarão a trabalhar tentando fazer dele um herói ou um vilão, conforme suas agendas. E, como Snowden sabe melhor do que ninguém, quaisquer segredos que ele tenha não ficarão assim por muito tempo.

É importante ressaltar que Snowden não se limitou a despejar um monte de documentos não editados na internet, voltando em seguida para seu trabalho. Aparentemente, ele pensou bastante sobre a origem das informações e entrou em contato com Barton Gellman, dono de uma respeitável carreira como repórter de segurança nacional no Washington Post. Segundo um artigo de Gellmanpublicado na segunda-feira no Post, Snowden pediu garantias sobre o que e quando o Post iria publicar. Depois que o Post disse que não tinha como dar garantias, segundo Gellman, Snowden procurou Glenn Greenwald, do Guardian, que já cobriu questões de segurança nacional e assuntos confidenciais de maneira crônica e feroz. (Greenwald questiona essa cronologia dizendo que vem tendo contato com Snowden desde fevereiro.)

Apesar de toda a gritaria em torno do WikiLeaks e a nova era de armazenamento eletrônico de informações, nunca houve falta de material para denúncias; o que faltou foram pessoas para fazê-las. Neste caso, a internet não é apenas um repositório para material que foi vazado, mas uma maneira de mudar a dinâmica do debate para uma questão de dois sentidos na qual o público tem acesso ao autor do vazamento. O governo, tanto em suas declarações públicas quanto em suas investigações sobre os vazamentos, tentou divulgar os autores dos vazamentos como marginais com motivos infames. Ao usar a internet e falar em seu próprio nome, Snowden não permite que seja o governo a fazer sua descrição.

Visibilidade imediata e onipresente

Como denunciante que vem em sua própria defesa, Edward Snowden envolveu o público como participante no debate. As redes sociais, especialmente o Twitter, estão fervendo de comentários sobre quem ele é e o que fez. Aquilo que normalmente é um vácuo – no qual o governo caracteriza o autor do vazamento e aqueles que o ajudaram –, agora é um diálogo. O debate sobre segredos tornou-se viral e, consequentemente, é muito menos sigiloso. No passado, foram poucos os autores de vazamento que conseguiram divulgar suas mensagens ao mundo antes que o governo e o público tivessem tempo de absorver as implicações daquilo que fizeram.

Edward Snowden não é o primeiro denunciante a chamar a atenção para si. Daniel Ellsberg, a figura central dos “papéis do Pentágono” e uma das figuras históricas que Snowden apontou como precedentes, nunca escondeu quem era. Ellsberg avaliou – corretamente, como se veria depois – que seria visto como uma pessoa que agiu nos interesses mais amplos do país, mesmo denunciando seus segredos mais preciosos.

Mas a visibilidade de Snowden na era da internet é mais imediata e mais onipresente. Agora ele é a cara da oposição à coleta de informação patrocinada pelo Estado. Mesmo estando em Hong Kong, ele está por toda parte.

A era do vazador chegou

Para aqueles que simpatizam com a opinião de Snowden, a informação que ele divulgou parece ainda mais preocupante porque ele fica calmo e contido. Ele é uma pessoa de verdade, não é uma sombra, e seus argumentos, embora muito abertos ao debate, baseiam-se numa retórica cuidadosa.

A liberdade, o direito à privacidade e o debate aberto são das poucas questões que superam a ideologia numa nação muito dividida. Depois que foi divulgado que a Agência de Segurança Nacional estava apreendendo registros telefônicos, Josh Earnest, subsecretário de Imprensa da Casa Branca, disse: “O presidente considera bem-vinda uma discussão do intercâmbio entre segurança e liberdades civis.”

O debate chegou graças a Edward Snowden e começará seriamente – talvez não nos termos ou na agenda que imagina o presidente. A era do vazador como figura pública habilitada pela internet chegou.

 

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David Carr é jornalista e escritor. Escreve uma coluna sobre mídia e cultura no New York Times

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