Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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MONITOR DA IMPRENSA >

Conglomerados de mídia ignoram protestos e sabotam a democracia

30/07/2013 na edição 757

Os protestos que agitaram Istambul e outras cidades turcas no mês passado deixaram exposto, entre outras coisas, o papel vergonhoso dos conglomerados de mídiaque subvertem a liberdade de imprensa.

No dia 31/5, quando os distúrbios sociais atingiram o seu auge e se espalharam por Istambul com choques entre oficiais de polícia armados de bombas de gás lacrimogêneo e manifestantes, moradores de bairros nas vizinhanças da Praça Taksim viam, ouviam e cheiravam a verdade das janelas de suas casas e rapidamente compreenderam que seus canais de TV mentiam por omissão – não houve uma mínima cobertura da situação.

À medida que o centro da cidade se tornava um campo de batalha, os canais de notícias optaram, no dia 24/7, por exibir documentários sobre pinguinsou continuar com seus talk shows. O canal Haberturk TV, que fica a apenas 100 metros do agora famoso Parque Gezi, tinha três médicos especialistas discutindo esquizofrenia – uma metáfora oportuna para o estado em que se encontra o jornalismo na Turquia.

Alianças sujas

Mas isso não tem nada de novo. Há muitos anos vem sendo politicamente conveniente, para os principais jornais, disfarçar a verdade e impor um apagão a todos os assuntos sérios, principalmente o conflito com os curdos. Depois do encontro, em outubro de 2011, entre o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e os proprietários de organizações de mídia – sobre como cobrir “notícias sobre terrorismo” –, os principais veículos de TV se sentiram fortemente intimidados e passaram a editar as matérias com excessiva cautela. Dois meses depois, quando 34 curdos, moradores de Uludere – um vilarejo próximo à fronteira com o Iraque – foram mortos por um atirador turco, esses veículos, eficientemente, bloquearam a cobertura da matéria.

Essa cobertura jornalística “higienizada” vai muito além da Turquia. Pelo mundo afora, e particularmente nas jovens democracias como Argentina, Venezuela, Brasil, Filipinas, África do Sul, Hungria e Albânia, a falta de independência jornalística vem fazendo estragos. Os executivos que intimidam ou censuram repórteres ao mesmo tempo em que saúdam humildemente os governos para proteger seus outros interesses empresariais vêm sabotando a liberdade e a independência da imprensa, o que é vital para estabelecer e consolidar uma cultura política democrática.

Alianças sujas entre governos e empresas jornalísticas, assim como seus acordos a portas fechadas, prejudicam o papel de fiscalização pública dos jornalistas e evitam que eles investiguem o clientelismo e os abusos de poder. Os que se beneficiam de práticas corruptas contínuas também procuram, sistematicamente, evitar um jornalismo investigativo sério.

Pequenos veículos independentes

O problema é simples: basta seguir o dinheiro. Os principais veículos da mídia na Turquia pertencem a magnatas que operam em outros importantes setores da economia, como telecomunicações, bancos e construção civil. Uma vez que só uns poucos canais de TV e jornais dão lucro, os donos tendem a mantê-los como iscas para o governo, que necessita de administradores desses veículos que sejam submissos à vontade dos políticos.

É um terreno fértil para políticas de recompensa e castigo. Quanto maior a vontade dos proprietários, maior o preço de sua ganância. Vários magnatas da mídia turca receberam generosos favores por meio de contratos para obras públicas em Istambul, inclusive para grandes projetos de construção urbana.

A prática de um jornalismo sério não é possível num sistema tão poluído. Esses conflitos de interesses transformaram as principais redações da Turquia em prisões: a cobertura da corrupção econômica é praticamente zero no país. Existem alguns pequenos, corajosos e independentes veículos, que divulgam histórias críticas ao governo, mas essas histórias raramente são retomadas pela grande mídia e, consequentemente, têm pouco impacto.

Primeiro-ministro condenou publicamente o jornal

A economia turca, que cresce rapidamente, causou tamanha ganância que os donos das empresas de mídia normalmente neutralizam a avaliação dos jornalistas profissionais que tentam fazer seu trabalho em nome do público. O conteúdo editorial é estritamente controlado pelos barões da mídia que têm outros interesses empresariais e são submissos ao governo. Com – ou quase sempre sem – uma intervenção direta do governo, eles impõem diariamente a autocensura e silenciam seus colegas que defendem uma ética jornalística básica. Com uma presença sindical praticamente inexistente nesses veículos, a segurança de emprego é mínima.

O diário Milliyet, que já foi um exemplo de bom jornalismo, foi comprado em 2012 pelo grupo Demiroren que, entre outros empreendimentos, está no negócio do gás líquido propano. Em fevereiro de 2013, Milliyet publicou com exclusividade o resumo das conversas mantidas entre políticos curdos e o rebelde curdo preso Abdullah Ocalan. Dois dias depois, um veterano colunista do Milliyet, Hasan Cemal, defendeu ousadamente a decisão do jornal de publicar a matérias, declarando: “Uma coisa é publicar um jornal. Outra é governar o país. As duas não se misturam. Cada um deve cuidar daquilo que lhe cabe.” O furo e a coluna enfureceram Recep Erdogan, que condenou publicamente o jornal e, por extensão, o jornalismo. Hasan Cemal recebeu duas semanas de suspensão obrigatória. Quando voltou, escreveu um novo artigo sobre a liberdade de imprensa e a independência que foi recusado pelo dono do jornal e Cemal demitiu-se.

“Guerras midiáticas” implacáveis

O canal de notícias NTV, que foi alvo dos protestos por sua cobertura ruim, tem uma revista mensal chamada NTV Tarih que tem como foco exclusivo a história. Em sua edição de julho, a matéria principal era sobre o passado do Parque Gezi. A diretoria da empresa pediu para ver o conteúdo um dia antes de ele ser impresso. A diretoria não só cancelou aquela edição como pôs fim à publicação. A circulação da NTV Tarihera de 35 mil exemplares, um dos periódicos mais bem-sucedidos comercialmente da Turquia. Ocorre que o grupo Dogus, proprietário do canal NTV, ganhou recentemente uma proposta para a construção de um grande Galataport – um contrato de mais de US$ 700 milhões que transformará o velho porto, no centro de Istambul, num moderno eixo para turismo, compras e investimentos imobiliários.

Um outro conglomerado, o Grupo Ciner, proprietário de veículos como a Haberturk TV, ganhou nos últimos anos vários contratos para distribuição de energia e eletricidade. Desde então, a política editorial pró-governamental dos veículos do Grupo Ciner tornou-se visível. Nada tem de surpreendente, portanto, que a sede da Haberturk TV, próxima ao Parque Gezi, se tenha tornado alvo da fúria dos manifestantes com a divulgação pelo canal de uma entrevista servilcom o primeiro-ministro Erdogan no auge da repressão policial.

A disfunção patológica da mídia turca é apenas um exemplo de um fenômeno muito mais amplo. Um grupo de jornalistas e especialistas em mídia independente da União Europeia realizou um amplo estudo que encontrou problemas semelhantes através dos países do sudeste europeu. “Muitos donos de organizações de mídia e importantes jornalistas investiram em interesses políticos e econômicos e usam sua posição para travar ‘guerras midiáticas’ implacáveis contra opositores políticos”, diz o relatório.

Mídia corrupta jamais poderá revelar a corrupção

A única maneira de evitar os estragos feitos à democracia por uma mídia flexível é se os governos empossados pelo voto reformarem as emissoras estatais e as tornarem serviços públicos autônomos e independentes e prepararem as bases legais para uma competição justa e diversidade com veículos de propriedade privada. No Reino Uniodo, na Alemanha, na Suíça, no Canadá e na Austrália essas emissoras são criadas por lei e garantem o direito público à informação sem interferência de interesses comerciais. Suas estruturas organizacionais representam vários segmentos de suas sociedades e são dirigidas por profissionais independentes, e não burocratas de partido. Uma emissora pública autônoma, que sirva de foco para o bom jornalismo, longe de preocupações comerciais e influência governamental, facilitaria o debate público na Turquia e em várias democracias jovens, como a África do Sul e as Filipinas.

Nas transições democráticas, o pluralismo e a diversidade não significam muito se forem apenas uma competição entre veículos de mídia de apoio ao governo e de oposição ultrapartidária. No setor da mídia, a propriedade privada deve ser estruturada de forma a permitir a existência de um Quarto Poder com credibilidade, independente, vibrante e de boa qualidade.

Essa é a lição essencial do espetacular fracasso dos veículos turcos na cobertura dos protestos do Parque Gezi e das agressivas explosões que se seguiram contra veículos da mídia internacional que optam por cobrir passeatas de turcos pelas ruas de Istambul ao invés de pinguins bamboleando-se pelo gelo da Antártica.

Quanto mais os magnatas da mídia se envolverem em negociatas escusas com governos, mais sua cobiça irá impedir o jornalismo decente e destruir a capacidade dos jornalistas de questionar os governos. Uma mídia corrupta jamais poderá revelar a corrupção com credibilidade.

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Yavuz Baydar é jornalista, ombudsman do jornal Sabah e colunista do Today’s Zaman,em língua inglesa

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