Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

MONITOR DA IMPRENSA > COMPRA DO ‘WASHINGTON POST’

Motivos financeiros devem salvar cobertura local

Por Robert McCartney em 20/08/2013 na edição 760
Tradução de Rodrigo Neves, edição de Leticia Nunes. Informações de Robert McCartney [“Jeff Bezos has financial motive to sustain The Post’s local coverage”, The Washington Post, 8/8/2013]

Como você deve ter ouvido, nós do Post estamos animados com a perspectiva de que o novo proprietário de nosso jornal, Jeff Bezos, bilionário dono da Amazon, irá resgatar nosso negócio com toneladas de dinheiro e com sua experiência em tecnologia.

Mas a escolha da família Graham de vender o jornal criou preocupações de que isto iria enfraquecer o compromisso do Post com a cobertura local.

É um risco. Para alguém como Bezos, que construiu a Amazon em um império global, existe a tentação de focar em uma missão nacional e internacional para o Post.

Qualquer diminuição da intensidade de nossa cobertura local seria uma tremenda perda para a região. Para citar dois exemplos: o compromisso com reportagens investigativas em âmbito local levou à revelação de grandes escândalos envolvendo o prefeito do distrito federal e o governador da Virginia.

“O Post é um jornal nacional, claro, mas sua importância para a cobertura local e regional não deve ser subestimada por seu novo dono”, disse Chuck Bean, diretor executivo do Conselho de Governos da região metropolitana de Washington.

Felizmente, há várias razões para se acreditar que Bezos se aterá à estratégia de manter um forte foco nos assuntos locais. Basicamente, é onde está o dinheiro.

Influência menor

Bezos certamente está consciente de que o jornal continua a retirar a maior parte de sua receita do mercado local, especialmente pela edição impressa.

Parcialmente porque, como outros jornais, fazemos muito mais dinheiro através dos anúncios impressos do que dos digitais. E só as pessoas da região de Washington recebem a edição impressa.

Ainda mais, como Don Graham insistiu por anos, por que entrar em confronto com nossos rivais no mercado digital nacional se podemos lucrar com nossa posição dominante em um dos mercados locais mais ricos e influentes do mundo?

Mesmo no futuro, quando todos lerem notícias pela Internet, faz mais sentido preservar e melhorar nossa conexão com os residentes da região. O New York Times e o Huffington Post podem lhe dar cobertura nacional, mas nós também falaremos sobre o trânsito e as escolas locais.

Bezos falou quase nada sobre suas intenções, mas sua carta aos funcionários dos jornais pareceu enfatizar as preocupações locais.

“Nosso critério será nossos leitores, entender com o que se importam – governo, líderes locais, restaurantes, escoteiros, negócios, esportes – e trabalhar a partir daí”, escreveu.

Se a declaração for um guia, podemos esperar que Bezos aumente sua atenção à cobertura local.

Seria uma notícia positiva. Pressões orçamentárias forçaram o jornal a cortar investimentos na cobertura regional nos últimos anos.

Não importa o que faça, a chegada de Bezos significa uma mudança de estilo. Não se pode evitar o fato de que ele não possui os laços que a família Graham possuía com a região.

Don Graham entrou para a polícia só pela experiência. Era um pilar cívico no estilo clássico, discretamente apoiando projetos filantrópicos educacionais e outras instituições virtuosas.

A editora Katherine Weymouth, sobrinha de Don, cresceu em Manhattan, mas arranjou um jeito de programar almoços e entrar em contato com políticos locais e líderes regionais desde que assumiu a posição atual. Ela permanece como editora, mas sua influência deve diminuir quando a venda for completada.

Audiência local

Bezos já confirmou que continuará morando em Seattle para focar na Amazon. É difícil imaginar que ele mostre o mesmo nível de interesse que Don. O membro do conselho do Distrito Federal Jack Evans disse ao Washington Business Journal que se sentia triste por perder seu contato pessoal com os donos do Post. “É muito triste ver outra instituição local mudar de dono. Nessas instituições, você conhecia seus donos, encontrava-os nos restaurantes, nos jogos”, disse Evans.

Essa era está acabando, mas não devemos necessariamente temer o que irá substituí-la. Se Bezos pode fazer pela cobertura local o que fez para a venda de livros, então a conexão do Post com sua audiência local pode ser mais forte do que nunca.

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Robert McCartney é colunista do Washington Post

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