Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

MONITOR DA IMPRENSA > INTERVENÇÃO NA SÍRIA

A mídia americana e as lições da guerra no Iraque

03/09/2013 na edição 762
Tradução de Larriza Thurler, edição de Leticia Nunes. Informações de Dylan Byers [“After Iraq, media skepticism on Syria”, Politico, 29/8/13]

Após a falta de provas de que o Iraque teria armas de destruição em massa, o que teria motivado a intervenção militar americana no país, a imprensa dos EUA adotou um pé atrás na cobertura das intenções do governo de Barack Obama para atacar a Síria. Na semana passada, o conselho editorial do New York Times, que inicialmente havia endossado um ataque limitado, afirmou que o governo “ainda tem que mostrar uma estratégia convincente ou uma justificativa legal para ação militar contra a Síria”. Já a página editorial do Washington Post pediu ao presidente que consultasse o Congresso antes de ordenar um ataque militar e alertou que, “a não ser que esteja ligado a uma estratégia mais ampla para enfraquecer o regime de Assad – e forçando-o a sair do poder ou em negociações reais –, o uso de força pode ser mais do que inútil”.

Os conselhos editoriais compartilham a opinião de uma série de colunistas e especialistas – os liberais anti-intervenção, libertários e isolacionistas, ex-defensores do uso da força militar cansados de guerra e até mesmo especialistas de mídia da direita. Todos têm salientado os riscos da intervenção dos EUA e, em alguns casos, mostram-se contrários a qualquer envolvimento militar na Síria.

Depois que o secretário de Estado, John Kerry, afirmou que o uso de armas químicas contra o seu próprio povo, como teria acontecido na Síria na semana passada, seria uma “obscenidade moral”, a mídia viu nas entrelinhas o início da justificativa para um ataque militar – e começou a especular como isso se daria.

Ao mesmo tempo, os falcões do Partido Democrata e os neoconservadores, que defendem a intervenção militar, parecem ter perdido o público simpático a sua causa. Ainda que influentes, estes grupos passaram a ver seus argumentos rebatidos pela defesa da cautela. “O Iraque é uma grande ferida aberta que continua a sangrar, a assombrar as pessoas e a fazê-las temerosas de cometer um erro ou estar do lado errado da história”, opinou na New Yorker o jornalista e escritor George Packer, que apoiou a guerra do Iraque, mas agora está preocupado com a estratégia dos EUA na Síria.

Sem consenso

Para Leon Wieseltier, editor literário da New Republic, que também apoiou a guerra do Iraque e apoia um ataque agressivo na Síria, há muito menos paciência para o intervencionismo. “O consenso da política internacional entre republicanos, que era muito claro e firme, chegou ao fim”, disse.

Os membros do Partido Libertário criticam a intervenção dos EUA alegando que o país não deve agir como “a polícia do mundo”. Em uma coluna intitulada “Oito razões para não ir à guerra com a Síria”, o editor da Reason Magazine, Peter Suderman, escreveu que o motivo “para atacar a Síria é frágil e há muitas razões para evitar se envolver em outro conflito com o Oriente Médio”.

Para o apresentador de rádio de direita Glenn Beck, um ataque na Síria poderia levar à Terceira Guerra Mundial. Outro apresentador de direita, Sean Hannity, foi ainda mais radical: “Detesto dizer isso, mas pode ser hora de os EUA sair de lá e deixar os dois grupos de pessoas ruins se matarem e dar a maior assistência humanitária possível”. Na opinião do jornalista Jeffrey Goldberg, da Atlantic, um “ataque na Síria pode deixar as coisas ainda piores”. Matthew Yglesias, da Slate, concorda e escreveu que o ataque é “arriscado, ilegal e não deve ajudar”.

Até Rush Limbaugh, talvez o mais influente comentarista político de direita,pediu cautela. “Qual o nosso interesse nacional estratégico em se envolver com qualquer um dos lados disso? Imagino o que Kerry ou Obama responderiam. É só que armas químicas estão sendo usadas e que a linha vermelha foi ultrapassada?”, indagou.

Com a imensa pressão sofrida internamente, o presidente anunciou que a decisão de intervir na Síria deverá ser aprovada no Congresso, que está de recesso e volta a trabalhar no dia 9/9.

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