Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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MONITOR DA IMPRENSA >

Jornal chinês pede libertação de repórter – que confessa ter mentido

29/10/2013 na edição 770

Em uma atitude considerada corajosa para um país onde a repressão à imprensa é rotineira, um jornal chinês publicou, na semana passada, um editorial de capa pedindo a libertação de um repórter detido após acusar uma conhecida empresa de fraude, falsificação de números de vendas e uso de relações públicas para difamar seus rivais. A história, no entanto, não acabou por aí: dias depois, o repórter em questão confessou – na TV estatal, com direito a cabeça raspada e algemas – que havia sido pago para escrever matérias falsas sobre a empresa.

O New Express publicou a manchete “Por favor, libertem-no” depois que a polícia da cidade de Changsha publicou no Weibo, espécie de Twitter chinês, que Chen Yongzhou estava sendo investigado por “prejudicar reputação comercial”. A Zoomlion – segunda maior empresa de equipamentos de construção do país e, em parte, propriedade do governo da província de Hunan – negou as acusações e queixou-se à polícia sobre o jornalista. As denúncias provocaram uma queda de mais de 5% no preço das ações.“Fizemos isso para proteger os direitos legítimos da empresa”, disse o vice-presidente, Sun Changjun.

O jornal disse ter obtido as informações sobre a companhia por meio de um pen drive entregue de maneira anônima. Gao Hui, funcionário da Zoomlion, especulou que as matérias foram plantadas pela rival Sany Group, que negou a acusação.

Atitude atípica

A decisão do jornal de denunciar a detenção de Yongzhou, que havia escrito 15 matérias investigativas sobre a Zoomlion, gerou elogios e apelos por mais independência e liberdade para o jornalismo do país. “Este é um pedido da mídia chinesa. A voz raramente é ouvida tão alta”, declarou Zhan Jiang, professor de jornalismo da Universidade de Estudos Exteriores de Pequim.

O governo chinês parece cada vez mais rígido com a mídia e com o que descreve como “pessoas espalhando rumores” nas redes sociais. O controle sobre o fluxo de informações cresceu ainda mais depois que o presidente Xi Jinping lançou uma campanha de combate à corrupção. Chen Yongzhou é o segundo jornalista do New Express a ser detido nos últimos meses. Em agosto, Liu Hu foi preso após pedir que um funcionário da Administração Estatal da Indústria e Comércio fosse investigado. Na semana passada, um cartunista foi detido por criticar, no Weibo, a administração pública da cidade de Yuyao. “Quando o governo corta a liberdade de expressão e prende jornalistas, parece trazer sérias dúvidas sobre o quão sério é o movimento anticorrupção”, afirmou Maya Wang, da organização Human Rights Watch.

Crise de confiança

Diante de todo este movimento, a confissão de Yongzhou foi um golpe terrível para um novo tipo de mídia no país, que tenta ser independente e ousa denunciar erros e crimes. No fim de semana, o New Express publicou uma envergonhada retratação, afirmando que não checou apropriadamente as matérias de seu repórter e que o incidente havia “prejudicado gravemente a credibilidade da mídia”.

Em um artigo intitulado “A confissão de Chen: em quem confiar na China agora?”, o jornal Financial Times avalia que o pedido de desculpas do jornal pode diminuir a fé do público no crescimento do jornalismo investigativo no país. O caso também chama a atenção para um aspecto nada bonito do jornalismo chinês: os subornos – para evitar a publicação de matérias ou encorajar cobertura crítica sobre rivais pessoais ou comerciais – são regulares.

O FT ressalta que ainda não se sabe o fim da história de Yongzhou. Estaria ele falando a verdade? Ou teria sido coagido a uma falsa confissão? “A principal conclusão a que irá chegar o público chinês é que não se pode acreditar em nada e confiar em ninguém”, diz o jornal. “Sociedades mais abertas e democráticas enfrentam uma crise de confiança pública nas instituições. Mas na China, a falta de confiança – seja na mídia ou nos dados apresentados por empresas, seja nos tribunais ou na segurança dos alimentos – atingiu proporções epidêmicas”.

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