Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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MONITOR DA IMPRENSA > A TV DE OBAMA

Artigo no ‘NYT’ revela o que passa na telinha do presidente

Por Michael D. Shear em 07/01/2014 na edição 780
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução de artigo de Michael D. Shear [“Obama’s TV Picks: Anything Edgy, With Hints of Reality”, The New York Times, 30/12/13]

Guerra, terrorismo, luta econômica, assassinatos em massa – essa é a vida no Salão Oval para o presidente Obama. No entanto, em seus poucos momentos de tranquilidade, o presidente procura não se refugiar nas deliciosas traições de Real Housewives ou na frivolidade de adolescentes que cantam em Glee. Segundo ele próprio, Obama deixa-se levar em seu tempo livre para atrações como Game of Thrones e Boardwalk Empire, do canal HBO, o tipo de televisão pesada e tenebrosa que ecoa a tristeza e os esforços que preenchem boa parte de seu dia-a-dia de trabalho.

Nestes dias, quando Obama volta à residência da Casa Branca após um longo dia do outro lado do prédio, ele tenta encarar a caixa de DVDs do premiado Breaking Bad, do canal AMC, sobre um professor de ensino médio que faz tráfico de drogas. A série terminou recentemente, após cinco temporadas, mas o presidente está bastante defasado e sempre lembra a quem está por perto que não lhe revele o que ainda não viu. Amigos também dizem que Obama aguarda com impaciência a nova temporada de House of Cards, do Netflix, que descreve cruamente uma Washington que não funciona satisfatoriamente – tema que lhe deve parecer bastante familiar. Na semana passada, durante uma reunião com executivos de tecnologia, Obama queixou-se, ironicamente, de sua incapacidade de manobrar os corredores do Congresso do mesmo jeito que o faz o personagem de Kevin Spacey, Frank Underwood. “Eu preferiria que as coisas fossem impiedosamente eficientes”, foi o comentário que se ouviu ele dizer a Reed Hastings, diretor-presidente do Netflix, que o convidou para fazer uma ponta no seriado. Obama fez graça com o sórdido Underwood, assassino de congressistas: “Esse cara está conseguindo que muitas coisas sejam feitas.”

Pode ser uma missão inútil psicanalisar alguém – ainda mais sendo um presidente em exercício – tomando por base os livros que ele lê, a música que ouve ou os programas de TV a que assiste. Desde que deixou a presidência, Bill Clinton disse que gostava do seriado 24 Horas, o suspense sobre terrorismo da FOX, e – você adivinhou – Scandal, um thriller político da ABC que se passa em Washington. Ronald Reagan, ex-ator, ofereceu-se, uma vez, para aparecer em seu programa preferido, a comédia Family Ties. (A oferta foi recusada.) Dizem que Franklin Roosevelt gostava dos desenhos de Mickey Mouse numa época em que o cabo ainda não fazia programas de TV inquietantes. Consta que George W. Bush não era particularmente fanático por TV, mas abria exceções para o programa Biography, no canal A&E, e alguns programas de esportes.

Uma classe abandonada

Mas quanto a Obama, Breaking Bad e House of Cards dificilmente podem ser considerados exceções daquilo que se tornou um padrão óbvio. Obama também gosta do programa Homeland, do canal Showtime, que oferece um reflexo inquietante às próprias aventuras do presidente em política externa: terrorismo, negociações nucleares com o Irã, ataques com aviões não tripulados e uma agência de serviço secreto lutando por legitimidade junto ao Congresso e ao povo norte-americano.

E a lista dos “pesados” continua. Obama já disse que é fanático por Game of Thrones, uma série imaginária de guerras na Europa medieval. Vibrou com Boardwalk Empire e com Downtown Abbey, da BBC, dois dramas de época que documentam a angústia e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas daqueles períodos. E se envolveu com os DVDs do ardente seriado Mad Men, do AMC, dizendo aos amigos que a personagem de Peggy Olson lhe deu a percepção do que teria sido para uma avó de caráter viver num mundo dominado pelos homens.

Depois temos o seriado policial The Wire, do canal HBO, que Obama lembra constantemente como “um dos maiores programas já criados”. A série descrevia os projetos para indigentes em Baltimore e documentava a guerra das drogas entre policiais exaustos e os moradores afro-americanos da cidade. (Omar Little, a personagem preferida do presidente, é um assaltante à mão armada que rouba os traficantes.) David Simon, criador do programa, disse numa entrevista que ficava pensando se Obama se sentia tão atraído pelo seriado por ele tratar de forma tão direta de questões da luta social e econômica. “The Wire é um dos poucos programas sobre a outra América”, disse Simon. “Ele se desenvolve na parte interna da cidade. As personagens são de uma classe que foi econômica e politicamente abandonada.”

Mais pessimista que a família

Isso, destaca Simon, parece-se muito com a América que Obama procura superar. Num discurso, no início de dezembro, ele se comprometeu a investir o restante de seu mandato presidencial na luta contra os tipos de pobreza persistente que são descritos no programa The Wire. “A ideia de que uma criança jamais conseguirá sair da pobreza por falta de educação, ou de cuidado com a saúde, ou de uma comunidade que veja o seu futuro como o da própria comunidade”, disse Obama, “deveria ofender-nos a todos e deveria nos obrigar a agir. Nós somos um país melhor do que isso.”

David Simon diz que criou o programa “a partir das mesmas perspectivas” que o presidente expressou em seu discurso. Mas concordou que era “apenas especulação, pois não é inteiramente justo” adivinhar o que o presidente está pensando. “O que é distração para uma pessoa, para outra é uma tarefa”, disse Simon a respeito dos hábitos de TV de Obama.

É verdade que Obama tem suas próprias distrações de TV que não envolvem assuntos sérios. Ele é um torcedor fanático por esportes e amigos e colegas dizem que gosta do SportsCenter, da ESPN. Também disse uma vez à revista TV Guide que ele e a família assistiam aos programas Modern Family, da ABC, e Parks and Recreation, da NBC – dois programas de humor que não podem ser acusados de ser profundos, tenebrosos ou inquietantes. Uma vez, no entanto, Obama reconheceu, em entrevista à revista People, que ele é um pouco mais pessimista em seu hábitos de TV do que o resto de sua família.

A surpresa de um “primeiro fã”

Talvez o programa Homeland seja o que oferece uma percepção mais interessante para as preferências de Obama em seu tempo livre. Assim como foi antes com 24 Horas, da Fox, Homeland revela os perigos escondidos em um mundo complicado. Mas Homeland é mais sutil, apresentando opções que raramente são fáceis e nunca são gratuitas.

Mandy Patinkin, que faz o papel de Saul Berenson, o chefe da CIA em Homeland, disse numa entrevista recente que considera “emocionante” o fato de Obama acompanhar o programa. “Em minha opinião, nosso trabalho não consiste em refletir a verdadeira CIA ou Washington”, disse Patinkin. “Nosso trabalho é o de ser uma resposta poética, uma reflexão poética.”

Talvez seja isso o que a televisão é para Obama: uma reflexão poética. Ou talvez, apesar de seu trabalho diário, o presidente simplesmente goste da tensão e do suspense dos melhores programas. Depois de um encontro com o presidente na Casa Branca, em 2012, Claire Danes, que faz o papel da oficial Carrie Mathison, em Homeland, mostrou-se surpresa por ter um “primeiro fã”. “Todos ficamos aturdidos – e um pouco aterrorizados com a ideia”, disse ela. “O presidente realmente sabe o que fazemos?”

******

Michael D. Shear é o correspondente do New York Times na Casa Branca

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MONITOR DA IMPRENSA > A TV DE OBAMA

Artigo no ‘NYT’ revela o que passa na telinha do presidente

Por Michael D. Shear em 07/01/2014 na edição 780
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução de artigo de Michael D. Shear [“Obama’s TV Picks: Anything Edgy, With Hints of Reality”, The New York Times, 30/12/13]

Guerra, terrorismo, luta econômica, assassinatos em massa – essa é a vida no Salão Oval para o presidente Obama. No entanto, em seus poucos momentos de tranquilidade, o presidente procura não se refugiar nas deliciosas traições de Real Housewives ou na frivolidade de adolescentes que cantam em Glee. Segundo ele próprio, Obama deixa-se levar em seu tempo livre para atrações como Game of Thrones e Boardwalk Empire, do canal HBO, o tipo de televisão pesada e tenebrosa que ecoa a tristeza e os esforços que preenchem boa parte de seu dia-a-dia de trabalho.

Nestes dias, quando Obama volta à residência da Casa Branca após um longo dia do outro lado do prédio, ele tenta encarar a caixa de DVDs do premiado Breaking Bad, do canal AMC, sobre um professor de ensino médio que faz tráfico de drogas. A série terminou recentemente, após cinco temporadas, mas o presidente está bastante defasado e sempre lembra a quem está por perto que não lhe revele o que ainda não viu. Amigos também dizem que Obama aguarda com impaciência a nova temporada de House of Cards, do Netflix, que descreve cruamente uma Washington que não funciona satisfatoriamente – tema que lhe deve parecer bastante familiar. Na semana passada, durante uma reunião com executivos de tecnologia, Obama queixou-se, ironicamente, de sua incapacidade de manobrar os corredores do Congresso do mesmo jeito que o faz o personagem de Kevin Spacey, Frank Underwood. “Eu preferiria que as coisas fossem impiedosamente eficientes”, foi o comentário que se ouviu ele dizer a Reed Hastings, diretor-presidente do Netflix, que o convidou para fazer uma ponta no seriado. Obama fez graça com o sórdido Underwood, assassino de congressistas: “Esse cara está conseguindo que muitas coisas sejam feitas.”

Pode ser uma missão inútil psicanalisar alguém – ainda mais sendo um presidente em exercício – tomando por base os livros que ele lê, a música que ouve ou os programas de TV a que assiste. Desde que deixou a presidência, Bill Clinton disse que gostava do seriado 24 Horas, o suspense sobre terrorismo da FOX, e – você adivinhou – Scandal, um thriller político da ABC que se passa em Washington. Ronald Reagan, ex-ator, ofereceu-se, uma vez, para aparecer em seu programa preferido, a comédia Family Ties. (A oferta foi recusada.) Dizem que Franklin Roosevelt gostava dos desenhos de Mickey Mouse numa época em que o cabo ainda não fazia programas de TV inquietantes. Consta que George W. Bush não era particularmente fanático por TV, mas abria exceções para o programa Biography, no canal A&E, e alguns programas de esportes.

Uma classe abandonada

Mas quanto a Obama, Breaking Bad e House of Cards dificilmente podem ser considerados exceções daquilo que se tornou um padrão óbvio. Obama também gosta do programa Homeland, do canal Showtime, que oferece um reflexo inquietante às próprias aventuras do presidente em política externa: terrorismo, negociações nucleares com o Irã, ataques com aviões não tripulados e uma agência de serviço secreto lutando por legitimidade junto ao Congresso e ao povo norte-americano.

E a lista dos “pesados” continua. Obama já disse que é fanático por Game of Thrones, uma série imaginária de guerras na Europa medieval. Vibrou com Boardwalk Empire e com Downtown Abbey, da BBC, dois dramas de época que documentam a angústia e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas daqueles períodos. E se envolveu com os DVDs do ardente seriado Mad Men, do AMC, dizendo aos amigos que a personagem de Peggy Olson lhe deu a percepção do que teria sido para uma avó de caráter viver num mundo dominado pelos homens.

Depois temos o seriado policial The Wire, do canal HBO, que Obama lembra constantemente como “um dos maiores programas já criados”. A série descrevia os projetos para indigentes em Baltimore e documentava a guerra das drogas entre policiais exaustos e os moradores afro-americanos da cidade. (Omar Little, a personagem preferida do presidente, é um assaltante à mão armada que rouba os traficantes.) David Simon, criador do programa, disse numa entrevista que ficava pensando se Obama se sentia tão atraído pelo seriado por ele tratar de forma tão direta de questões da luta social e econômica. “The Wire é um dos poucos programas sobre a outra América”, disse Simon. “Ele se desenvolve na parte interna da cidade. As personagens são de uma classe que foi econômica e politicamente abandonada.”

Mais pessimista que a família

Isso, destaca Simon, parece-se muito com a América que Obama procura superar. Num discurso, no início de dezembro, ele se comprometeu a investir o restante de seu mandato presidencial na luta contra os tipos de pobreza persistente que são descritos no programa The Wire. “A ideia de que uma criança jamais conseguirá sair da pobreza por falta de educação, ou de cuidado com a saúde, ou de uma comunidade que veja o seu futuro como o da própria comunidade”, disse Obama, “deveria ofender-nos a todos e deveria nos obrigar a agir. Nós somos um país melhor do que isso.”

David Simon diz que criou o programa “a partir das mesmas perspectivas” que o presidente expressou em seu discurso. Mas concordou que era “apenas especulação, pois não é inteiramente justo” adivinhar o que o presidente está pensando. “O que é distração para uma pessoa, para outra é uma tarefa”, disse Simon a respeito dos hábitos de TV de Obama.

É verdade que Obama tem suas próprias distrações de TV que não envolvem assuntos sérios. Ele é um torcedor fanático por esportes e amigos e colegas dizem que gosta do SportsCenter, da ESPN. Também disse uma vez à revista TV Guide que ele e a família assistiam aos programas Modern Family, da ABC, e Parks and Recreation, da NBC – dois programas de humor que não podem ser acusados de ser profundos, tenebrosos ou inquietantes. Uma vez, no entanto, Obama reconheceu, em entrevista à revista People, que ele é um pouco mais pessimista em seu hábitos de TV do que o resto de sua família.

A surpresa de um “primeiro fã”

Talvez o programa Homeland seja o que oferece uma percepção mais interessante para as preferências de Obama em seu tempo livre. Assim como foi antes com 24 Horas, da Fox, Homeland revela os perigos escondidos em um mundo complicado. Mas Homeland é mais sutil, apresentando opções que raramente são fáceis e nunca são gratuitas.

Mandy Patinkin, que faz o papel de Saul Berenson, o chefe da CIA em Homeland, disse numa entrevista recente que considera “emocionante” o fato de Obama acompanhar o programa. “Em minha opinião, nosso trabalho não consiste em refletir a verdadeira CIA ou Washington”, disse Patinkin. “Nosso trabalho é o de ser uma resposta poética, uma reflexão poética.”

Talvez seja isso o que a televisão é para Obama: uma reflexão poética. Ou talvez, apesar de seu trabalho diário, o presidente simplesmente goste da tensão e do suspense dos melhores programas. Depois de um encontro com o presidente na Casa Branca, em 2012, Claire Danes, que faz o papel da oficial Carrie Mathison, em Homeland, mostrou-se surpresa por ter um “primeiro fã”. “Todos ficamos aturdidos – e um pouco aterrorizados com a ideia”, disse ela. “O presidente realmente sabe o que fazemos?”

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