Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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MONITOR DA IMPRENSA >

Quando as críticas se reduzem a ofensas machistas

Por Amy Wallace em 28/01/2014 na edição 783

Em 2009, escrevi um artigo de capa para a revista Wired sobre o movimento antivacina e um perfil de Paul Offit, um dos principais defensores da vacinação infantil. Offit é homem. Eu sou mulher. Isso foi motivo suficiente para que as coisas ficassem feias.

Nos comentários do site e por e-mail, fui chamada de prostituta e também daquela outra palavrinha que começa com “P”. J.B. Handley, um crítico da vacinação infantil e fundador do grupo sobre autismo Generation Rescue, juntamente à atriz Jenny McCarthy, enviou-me um artigo intitulado “Paul Offit estupra (intelectualmente) Amy Wallace e a revista Wired” (em tradução livre). Nele, Handley sugeria que meu entrevistado havia me dado um “Boa noite, Cinderela”. [Posteriormente, o artigo foi modificado por J.B. Handley. Em um comentário de seu blog, ele explica os motivos da edição e da mudança no título.] Mais tarde, um site antivacinação fez uma montagem no Photoshop colando minha cabeça no corpo de uma mulher com um vestido tomara-que-caia ao lado do Dr. Offit em uma mesa de jantar festivo. O prato principal? Um bebê.

Pensei nisso no início deste mês, quando vi mais um trabalho no Photoshop. Um grupo chamado Food Democracy Now (FDN) ficou insatisfeito com um artigo publicado no New York Times sobre as audiências públicas a respeito de uma proposta de proibição de organismos geneticamente modificados (OGM) no Havaí; o artigo apontou que muitos dos argumentos antiOGM ignoravam a ciência. Em resposta, o FDN cortou a cabeça da autora do artigo, Amy Harmon, e a colou na imagem de uma mulher usando maiô com estampa de leopardo.

Intimidação

A imagem, postada no perfil da FDN no Facebook, mostrava uma sorridente Amy na praia, de mãos dadas com o presidente-executivo da empresa de biotecnologia e sementes Monsanto. “Amy Harmon, do New York Times, viaja para o Havaí… e se apaixona por OGMs”, dizia a legenda.

Pouco tempo depois, um internauta escreveu: “Vagabunda miserável”. Outro zombou: “Ei Amy… Filha da fruta”, evocando mais uma vez a alusão à palavrinha com “P”. Quando alguns comentaristas se queixaram de que a imagem de Amy estava em desacordo com os valores de um grupo que defendia um ativismo progressista, o FDN se defendeu usando argumentos como “sátira, não sexismo”.

Então algumas jornalistas foram rechaçadas, você deve estar pensando. Por que devemos nos importar? Eis o por quê: esse tipo de causticidade não é feito para manter os jornalistas responsáveis ??pela imparcialidade e precisão de seu trabalho. Em vez disso, procura intimidar e, em última instância, silenciar mulheres jornalistas que escrevem sobre temas controversos. Na maioria das vezes, mesmo já tendo ganhado dois Pulitzer, caso de Amy, estas mulheres veem seus corpos – e não seus intelectos – sob ataque.

“Quando vi [a imagem] pela primeira vez, fiquei vermelha de vergonha, mesmo sabendo que não era meu corpo de verdade, ou meu traje de banho”, declarou Amy. Ela disse que colegas de ambos os sexos se compadeceram. Muitos já haviam experimentado as mensagens de ódio em outras ocasiões: ameaças de morte, por exemplo, ou missivas antissemitas. No entanto, para os homens, pelo menos, seus corpos não eram parte do contexto. O ataque do FDN, disse Amy, foi “uma espécie de taquigrafia visual que de fato não pode ser usada da mesma forma para repudiar ou rebaixar um repórter do sexo masculino”.

“A intenção é ‘Cale a boca!’, e tem um efeito negativo”, diz Joanna Pearlstein, editora-chefe adjunta da Wired. Em março passado, Joanna publicou um infográfico sobre munição cuja manchete dizia parcialmente: “Se você quiser parar a violência armada, comece com balas”. Quando foi publicado na internet, ela foi rotulada de “prostituta fedida” e acusada de agir como “uma virgem de 40 anos dando conselhos de sexo”. E havia coisas piores, que não podem ser reproduzidas aqui.

A blogosfera é dos homens

Emily Graslie, do Museu Field de História Natural, em Chicago, apresenta um canal de vídeo no YouTube chamado “The Brain Scoop”. Em um episódio em novembro passado, verificando seus e-mails, ela encontrou inúmeras referências ao seu corpo, seu rosto e sua beleza (“Eu definitivamente transaria com ela!”, escreveu um espectador). Ela se perguntou se esse tipo de retorno sexualizado poderia explicar por que não havia mais mulheres fazendo o que ela faz: relatórios científicos sobre os chamados STEM: ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

“Enquanto há pelo menos 13 canais STEM hospedados por homens, com mais de 400 mil assinantes, existem apenas quatro hospedados por mulheres, cujos assinantes são mais de 160 mil”, disse ela no episódio intitulado “Where My Ladies At?“ (“Onde estão as mulheres?”, em tradução livre). Emily tem uma teoria sobre o motivo: “Temos medo de nosso público estar mais focado em nossa aparência do que na qualidade do nosso conteúdo”.

Nas últimas semanas – na sequência do excelente artigo de Amanda Hess na revista Pacific Standard intitulado “Por que as mulheres não são bem-vindas na Internet” –, tem havido muita discussão sobre a misoginia, online e offline. Depois de cobrir as férias de uma colunista e ter acesso aos e-mails dela, Conor Friedersdorf, da revista The Atlantic, escreveu que está “convencido de que a maldade e assédio de gênero é um dos fatores responsáveis ??pelo surgimento de uma blogosfera tão desproporcionalmente habitada por homens”.

Compartilho dessa preocupação, porém apresento mais uma. Muito do que Amanda Hess escreveu é consequência da ação de trolls anônimos na Internet, o que já é perturbador por si só. O que me alarmou principalmente no ocorrido com Amy Harmon e comigo é que as montagens foram divulgadas por pessoas e organizações de conhecimento público: um sinal de que esse tipo de ataque é amplamente visto como aceitável, ou mesmo engraçado.

Mas se ele é realmente apenas uma sátira, e não sexismo, deve ser aplicado a homens e mulheres de forma igualitária, certo? Entrei em contato com dois jornalistas homens cujo trabalho, tal como o de Amy, tem provocado fúria na comunidade antiOGM: Michael Specter, da New Yorker, e Nathanael Johnson, do site Grist. Ambos me disseram que também sofreram montagens no Photoshop (o sr. Johnson me enviou um exemplo, feito por um grupo chamado GM Watch, que ele descreveu como “eu rodeado por nuvens negras do mal”; enquanto Specter relatou que em várias imagens “minha cabeça foi cortada e colada em um aiatolá e, tenho certeza, em uma hiena”).

Mas nenhum homem jamais foi retratado usando sunga e de mãos dadas com um executivo da Monsanto. Isso, aparentemente, é função das mulheres.

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Amy Wallace é editora da revista Los Angeles e correspondente da GQ

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