Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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MONITOR DA IMPRENSA >

Jornalista espanhol culpa governo por demissão

04/02/2014 na edição 784

A crise financeira que atinge a indústria jornalística da Espanha parece ter vitimado um dos mais proeminentes jornalistas do país. Pedro J. Ramírez foi demitido, na semana passada, do El Mundo, jornal que fundou há 25 anos. Ramírez foi demitido depois de uma reunião do conselho da empresa Unidad Editorial, dona do jornal. A Unidad Editorial foi comprada pelo grupo de mídia italiano RSC.

Em vez de culpar a economia, no entanto, Ramírez acusou o governo de retaliação pela cobertura do El Mundo sobre uma série de casos de corrupção, um deles envolvendo o primeiro-ministro Mariano Rajoy. “Trata-se de uma demonstração de força por um governo que quer mandar uma mensagem, não só para o El Mundo, mas para toda a mídia, que quem agir de uma forma considerada inconveniente vai pagar o preço”, afirmou o jornalista ao New York Times. “O que está acontecendo sob [o comando de] Rajoy é particularmente sério porque trata-se de usar um momento de clara fraqueza econômica para forçar a mídia a ser dócil, servil e a praticar a autocensura”.

O jornal apoiou Rajoy em três campanhas. A última eleição, em 2011, levou o político e seu Partido Popular ao poder com maioria no Parlamento. Ramírez diz que tinha uma boa relação com Rajoy “até ele chegar ao poder”.

O primeiro-ministro não comentou a saída de Ramírez do El Mundo, mas o Ministro da Economia, Luis de Guindos, afirmou a uma estação de rádio que o governo tem mais o que fazer do que influenciar as decisões da administração de um jornal.

Em um discurso no Parlamento em agosto passado, Rajoy acusou o El Mundo de manipular informações. O premiê criticou o que chamou de “círculo de calúnia” contra o Partido Popular por conta de acusações de corrupção feitas pelo ex-tesoureiro do partido Luis Bárcenas, que aguarda julgamento na prisão acusado de evasão fiscal e de idealizar um caixa dois que teria Rajoy e outros políticos do alto escalão como beneficiários.

Indústria enfraquecida

Assim como outros jornais espanhóis e no resto do mundo, o El Mundo vem lutando para conseguir encontrar um modelo de pagamento online lucrativo. A publicidade em jornais caiu bastante no país nos últimos anos. Em 2013, anunciantes gastaram cerca de 600 milhões de euros em jornais, o que representa menos de um terço do total de 2007, logo antes de estourar a crise financeira mundial. Em novembro passado, o grupo italiano RCS injetou quase 400 milhões de euros no Unidad Editorial para manter a empresa funcionando.

O consultor de mídia Juan Antonio Giner, presidente da firma de consultoria Innovation, em Londres, avalia que a saída de Ramírez possa ser um prelúdio para um rompimento entre o RCS e seus bens na Espanha. Segundo ele, a eliminação de um editor fundador tão forte quanto Pedro Ramírez pode sugerir que este seja um pré-requisito para que potenciais parceiros no cenário midiático espanhol considerem comprar ou investir no jornal.

Reconstrução da democracia

Ramírez começou sua carreira jornalística na década de 70, quando a Espanha voltava à democracia e investia na reconstrução de uma imprensa livre após a ditadura do general Francisco Franco. Em 1980, aos 28 anos, o jornalista assumiu uma pequena publicação, Diário 16, mas acabou saindo por conta de uma disputa editorial. Ele fundou o El Mundo em 1989, solidificando rapidamente a reputação do jornal por conta de reportagens investigativas sobre os Grupos Antiterroristas de Libertação, forças paramilitares financiadas pelo governo socialista para ajudar no combate ao movimento separatista basco ETA.

Em 1997, o jornalista tornou-se alvo de um escândalo como protagonista de um vídeo de sexo. O caso acabou parando no tribunal, e chegou-se à conclusão que o vídeo havia sido vazado especificamente para prejudicar o El Mundo. Entre os condenados estava o assistente pessoal de Felipe González, que foi primeiro-ministro de 1982 a 1996.

“Sob o governo de Felipe Gonzáles, todos os limites foram violados e métodos terroristas foram usados contra mim, mas isso aconteceu quando a Espanha ainda estava voltando a uma cultura democrática”, pondera Ramírez. “Eu não quero me apresentar como mártir ou vítima, mas acho que o que está acontecendo no El Mundo é um sintoma de como a qualidade da democracia está decaindo sob Rajoy”.

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