Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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MONITOR DA IMPRENSA > ARÁBIA SAUDITA

Imprensa próspera e redes sociais em alta

11/02/2014 na edição 785

Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações do The Economist [“Saudi Arabia: The kingdom’s press and its social media are livelier than ever”, 8/2/14]

Para um país com reputação de árido e maçante, a Arábia Saudita é surpreendentemente repleta de novidades. O bom e velho jornal impresso, que parece estar morrendo em outros lugares, ainda prospera ali. O reino tem mais de uma dúzia de diários nacionais, concorrentes ferozes. O mais recente deles – chamado Mecca, em homenagem à cidade sagrada onde é publicado –, foi lançado este mês.

Não muito tempo atrás, era raro encontrar a primeira página de um jornal saudita sem o retrato de Sua Majestade o Rei Abdullah, “Guardião das Duas Mesquitas Sagradas”, ou pelo menos de algum príncipe menor com título igualmente curioso. Agora, no ano de 1435 pelo calendário muçulmano, o registro em crônica de atos principescos, embora ainda de praxe, tende a ser relegado para as páginas internas, logo acima dos anúncios que oferecem produtos com ofertas camaradas, trabalhadores asiáticos confiáveis ??ou desempenho erétil comprovado cientificamente.

Notícias “de verdade”

O que domina as primeiras páginas atualmente são notícias de verdade – principalmente os grandes dramas que se desenrolam em lugares como Síria e Iraque. Mas, cada vez mais, são as histórias locais de interesse humano que garantem as manchetes. Recentemente, houve comoção com a história de seis meninas cujo piquenique perto da capital, Riad, transformou-se em tragédia quando uma delas caiu acidentalmente em uma piscina sazonal criada por uma tempestade de inverno. Uma a uma, as outras pularam na água para salvá-la e, uma a uma, foram pegas pela areia movediça e se afogaram.

Mas também há histórias felizes, como uma sobre um bondoso cidadão saudita, na cidade de Buraida. Em contraste às histórias comumente ouvidas de violência doméstica e crueldade para com empregados, este sujeito mostrou-se um modelo de bondade. Quando o motorista indonésio que trabalhava para ele há dez anos se casou, seu mestre não só pagou por uma festa suntuosa, para a qual convidou os notáveis ??de Buraida, como adiantou um ano de salário ao funcionário e lhe entregou as chaves do próprio carro como presente de casamento.

Às vezes são os acontecimentos transitórios que dizem mais sobre a vida no reino. O fato de a polícia de Riad ter registrado mais de 2,5 milhões de infrações no trânsito em 2013, 14% a mais do que no ano anterior, aponta para um excesso ou de má condução ou de zelo por parte da polícia, ou ambos. O Arab News, um dos dois jornais de língua inglesa, observou que a região de Riad registrou 166.800 acidentes de trânsito em 2012.

O Al-Watan, jornal publicado em Abha, no Sudoeste do país, divulgou mais uma estatística reveladora: apenas recentemente as mulheres adultas solteiras começaram a pleitear aos juízes para serem liberadas da tutela legal de seus pais. No passado, tal ato teria sido visto como inconcebivelmente vergonhoso para a reputação de uma família. Mas, de acordo com o jornal, há o registro de um pedido de emancipação por dia.

Normalmente, diz o al-Watan, eles são requeridos quando um pai divorciado, apesar da ex-esposa, tenta reter sua aprovação legalmente exigida para escolher o futuro marido da filha, ou quando o pai exige um presente de seu futuro genro, ou até mesmo uma parte de seu salário. Nestes casos, os tribunais da sharia (lei islâmica) podem favorecer a filha e declarar o pai incapaz para agir como tutor. O juiz pode ordenar a consumação do casamento para que a noiva seja legalmente protegida sob um novo guardião masculino, seu marido. Aparentemente, agora esse tipo de sentença é mais comum: e assim, o reino progride.

Mídias sociais para fugir da censura

Mas em um lugar tão politicamente restrito como a Arábia Saudita, não é surpreendente que as pessoas busquem as notícias mais quentes além do alcance dos censores do governo. Uma riqueza relativa, somada ao enorme excedente de tempo livre que acompanha o desemprego dos jovens – com níveis acima de 40% –, transformou os sauditas em usuários intensivos de mídias sociais. Um caso recente de abuso infantil foi trazido à luz pelo site de compartilhamento de vídeos YouTube. Um cidadão indignado fez o upload de imagens de uma câmera de segurança que mostravam um homem acariciando uma menina no saguão de um bloco de apartamentos. Após protestos, os jornais relataram a prisão do molestador.

Em processo semelhante, é no Twitter, e não nos jornais impressos, que se divulga a captura eventual, o julgamento ou prisão de dissidentes, sejam eles religiosos extremistas, supostos apóstatas ou liberais exigindo uma monarquia constitucional.

Os jornais sauditas ainda têm evitado, por exemplo, relatar o retorno de Ahmed al-Shayea aos preceitos da jihad (conceito essencial da religião islâmica); al-Shayea foi um homem-bomba no Iraque que sobreviveu à sua missão com queimaduras graves. Em seu retorno à Arábia Saudita, em 2007, ele se arrependeu publicamente, advertindo seus compatriotas contra a al-Qaeda e suas promessas de nobre martírio. Em situação constrangedora para as autoridades sauditas, que o colocaram em um programa de reabilitação caro, em novembro ele começou a tuitar da Síria, onde juntou-se a uma nova ramificação da al-Qaeda.

É também o Twitter que expõe as brigas ferozes no debate persistente entre conservadores e reformistas. Quando um conhecido ativista pelos direitos das mulheres – com mais de 100 mil seguidores no microblog – questionou se os homens muçulmanos deviam ser abster de raspar a barba em emulação ao Profeta Maomé, um xeque proeminente reagiu com uma repreensão severa. “Que suas mãos sejam paralisadas”, amaldiçoou. E quando outro reformista lançou uma hashtag no Twitter pedindo a abolição da polícia religiosa da Arábia Saudita, sua timeline foi rapidamente inundada com tuítesque rotulavam liberais de porcos e degenerados.

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