Jornais britânicos na caça ao lucro digital | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MONITOR DA IMPRENSA > MERCADO EM TRANSIÇÃO

Jornais britânicos na caça ao lucro digital

11/02/2014 na edição 785
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Henry Mance [“Fleet Street steps up hunt for digital profits”, Financial Times, 29/1/14] e Dominic Ponsford [“Tony Gallagher is out after four years as Daily Telegraph editor as post is axed”, Press Gazette, 21/1/14].

Rentáveis ou deficitários, os jornais da Grã-Bretanha andam às voltas com duas perguntas: em primeiro lugar, que tipo de conteúdo devem oferecer aos leitores, e, em segundo, como devem tentar ganhar dinheiro com isso, especialmente online? Segundo Tim Luckhurst, professor de jornalismo na Universidade de Kent, estes questionamentos “têm a ver com a capacidade de ajustar os produtos para os mercados modernos”.

A dispensa abrupta do editor Tony Gallagher, que há quatro anos comandava o Daily Telegraph, é o sinal mais recente de que os jornais britânicos, bem como seus homólogos nos EUA e no resto da Europa, estão acelerando a resposta à revolução online. O lucro operacional do Telegraph excedeu 60 milhões de libras (cerca de 235 milhões de reais) – número que levaria muitos editores a ganhar, no mínimo, um aumento. Gallagher, no entanto, foi demitido.

Murdoch MacLennan, executivo-chefe do Telegraph Media Group, elogiou o editor, afirmando que ele fez um trabalho excelente e ajudou o jornal a manter sua posição líder em qualidade na imprensa britânica. “Ao contrário de nossos rivais, o Telegraph continua lucrativo, mas sofremos crescente pressão sobre as receitas de venda e publicidade. Para proteger o futuro da companhia, nós temos que nos adaptar rapidamente ao novo mundo digital onde vivem os nossos consumidores”, completou.

Jornalisticamente falando, o Telegraph foi até rápido na reação às mudanças, ao cobrir notícias políticas e acompanhar histórias em publicações rivais, mas havia a sensação de que estava investindo muito pouco em uma contribuição online capaz de atrair leitores vindos de sites de conteúdo viral como BuzzFeed e Upworthy. “Os jornais não são nossa única concorrência”, diz Jason Seiken, ex-executivo de TV dos EUA que foi nomeado editor-chefe do Telegraph Media Group em setembro passado.

O problema é que, enquanto a indústria luta para garantir seu futuro diante da queda de receita dos impressos, descobre que um conteúdo online forte não é necessariamente sinônimo de rentabilidade.

O Guardian, jornal na vanguarda das revelações sobre escutas telefônicas, divulgações do WikiLeaks e vigilância online, teve queda de um quarto em sua receita desde 2008. E, embora crescente, sua receita digital ainda representa menos de um terço de suas vendas totais. Até mesmo o popular MailOnline teve, no ano passado, um aumento de vendas de assinaturas digitais inferior ao declínio nas vendas de seus equivalentes impressos, Daily Mail e Mail on Sunday.

Em busca de aumento nos lucros, o Guardian e o MailOnline estão tentando se expandir globalmente, a fim de construir receita com base em publicidade. Ambos lançaram edições digitais nos EUA e na Austrália; e, de acordo com Jonathan Harmsworth, o Visconde Rothermere, presidente da Daily Mail and General Trust (DMGT), o MailOnline também cogita entrar no mercado de língua hispânica nos EUA.

Já o tabloideThe Sun, jornal mais vendido da Grã-Bretanha, conta com mais de 100 mil assinantes online, em um serviço que inclui a transmissão dos melhores momentos de partidas de futebol profissional. Após quatro meses, sua receita estimada em termos anuais foi de cerca de 10 milhões de libras (40 milhões de reais) por ano – para efeito de comparação, o Sun impresso tem lucro anual de cerca de 250 milhões de libras (aproximadamente 980 milhões de reais).

Contudo, a existência de assinaturas digitais, juntamente a um mercado publicitário mais forte, significa que o estado de espírito em relação aos jornais “não é tão pessimista como antes”, diz Douglas McCabe, analista da Enders Analysis, empresa de pesquisa em mídia e telecomunicações.

Os editores também estão buscando alternar fontes de receita, incluindo eventos ao vivo e outros negócios digitais, como os cupons de descontos online fornecidos pelo DMGT, que tiveram receita de 14 milhões de libras (cerca de 55 milhões de reais) no ano passado. “Esta abordagem está começando a surgir, e é sensata”, afirma McCabe. “Mas o maior medo é o de não repetir a escala do negócio tradicional de notícias”.

Sobrevivendo de fundo fiduciário

Alguns jornais deficitários estão se apoiando nos bolsos de empresas mantenedoras para conduzi-los através da transição digital. É o caso do Guardian, filhote do Guardian Media Group, que possui cerca de 850 milhões de libras em seus fundos de investimento, adquiridos após a venda de uma participação de 50,1% no Trader Media Group para o grupo de fundos privados Apax.

Fontes próximas à empresa sugeriram que, com um retorno anual de 5%, tais recursos seriam capazes de subsidiar as perdas financeiras do jornal impresso em uma base contínua, embora Andrew Miller, presidente-executivo do Guardian Media Group, esteja convencido de que, “caso não seja rentável, o jornal impresso terá ao menos de chegar perto de lucrar”.

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