‘Jornalismo não é terrorismo e eu não sou terrorista’ | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

MONITOR DA IMPRENSA > AL-JAZIRA NO EGITO

‘Jornalismo não é terrorismo e eu não sou terrorista’

Por Sue Turton em 11/02/2014 na edição 785
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Com informações de Roy Greenslade [“Al-Jazeera reporter - journalism is not terrorism and I’m not a terrorist”, The Guardian, 7/2/14]

Sue Turton é apresentadora e correspondente da al-Jaziraem língua inglesa. Foi indiciada à revelia pelas autoridades egípcias pela acusação de ajudar terroristas. Ela e seu colega Dominic Kane estavam entre as pessoas acusadasde disseminar notícias falsas, trazendo ao Egito má reputação e conspirando com terroristas.

Ao contrário de outros cinco membros da equipe da al-Jazira presos no Egito, ela está fora do país. Portanto, pode escrever sobre a situação interna e sobre as detençõesde três de seus colegas. Leia abaixo a sua história. (Roy Greenslade)

***

Na al-Jazira, sempre tomamos o cuidado de não rotular alguém como terrorista. Afinal, o que para uma pessoa é um terrorista, para outra é um lutador da liberdade. Mas o procurador geral egípcio vê as coisas de modo muito diferente. Para ele, o jornalismo pode ser terrorismo.

As acusações feitas contra mim e meus colegas são uma afronta a qualquer jornalista que tenha levantado informações precisas e independentes sobre o Egito ultimamente.

Nós não estávamos lá para promover qualquer dos lados. Não tínhamos uma pauta específica a seguir. Apenas relatávamos o que víamos. Como é que a rotina diária de matérias num canal de notícias de 24 horas pode se tornar tamanha ameaça a um governo que dispõe de tamanho poderio militar?

Em meus 25 anos como repórter de TV, fui fisicamente atacada, insultada, alvo de disparos e de bombas e detida. São ossos do ofício. Mas ser acusada de dar apoio a terroristas não é.

Cobri o Egito muitas vezes para a al-Jazira, mas, quando cheguei ao Cairo em setembro passado, minha matéria era sobre a Síria. Tinha ido cobrir uma reunião dos ministros de Relações Exteriores da Liga Árabe para discutir uma possível ação militar norte-americana contra o regime de Assad.

Havia se passado apenas dois meses desde que Mohamed Morsi, líder da Irmandade Muçulmana, fora deposto pelos militares, e já tínhamos uma equipe numa prisão egípcia.

Os ministros já se preparavam para sua assembleia-geral quando recebemos uma chamada do chefe de nossa sucursal. A polícia estava invadindo nossos escritórios e havia detido o contador.

Cairo e os boatos – acreditar em que?

Disseram-nos que a polícia se dirigia à Liga Árabe para prender toda a equipe da al-Jazira. O Cairo é uma fábrica de boatos, portanto em que devemos acreditar?

Não tínhamos certeza de quanto nossa presença era segura e poderíamos ter saído dali na hora. Talvez o devêssemos ter feito. Mas não é esse o objetivo da al-Jazira. Assim como não é o motivo pelo qual entrei para o canal como correspondente no Afeganistão depois de trabalhar 12 anos no telejornal do Canal 4 ao lado de Jon Snow.

Cobri a revolução na Líbia e o conflito na Síria e fiz algumas matérias avulsas sobre o Egito, Jerusalém, Ramallah e Moscou. É nos conflitos que você vê as pessoas de verdade e a vida é um ato de malabarismo permanente, empurrando os limites até onde for possível para fazer o trabalho sem ser preso ou ferido.

Quando você cobre um conflito, sempre há um lado que o quer prender ou matar. Quando você trabalha em países que não respeitam os direitos humanos de sua própria população, você irá fazer entrevistas que aqueles que estão no poder não querem que sejam transmitidas.

Eu sabia que estava trabalhando sem credenciais oficiais. Conseguir uma credencial tornara-se cada vez mais difícil para nós. E a falta de uma credencial justifica não fazer a reportagem? Decididamente, não é motivo para deter um repórter por um dia – para não dizer, por 40 dias.

Depois da invasão de nosso escritório no Cairo, pensamos que as coisas se acalmariam. O Egito não iria querer, com certeza, mais manchetes prejudiciais sobre jornalistas ocidentais sendo presos – ou algo pior.

O conselho era de nos alojarmos num grande hotel internacional e permanecermos visíveis. Portanto, fomos todos para o Marriott, em Zamalek, um hotel cheio de empresários e outros jornalistas estrangeiros.

Isso foi quando trabalhei com Baher Mohamed, nosso produtor (preso desde 29 de dezembro). Ele é egípcio e, portanto, não tem embaixada estrangeira fazendo pressão por sua libertação – apenas uma porção de guardas que não gostam muito da al-Jazira questionando seus métodos.

Baher é um egípcio orgulhoso e um pai orgulhoso. Perdi a conta do número de vezes que ele foi para as ruas dizendo que era muito perigoso para ocidentais saírem por aí. Seu entusiasmo é contagioso.

Um de nossos corajosos correspondentes

Nossos chefes agiram rapidamente para conseguir reforços e poucos dias depois Mohamed Fahmy (também preso desde 29 de dezembro) entrou no Marriott. Mais elegante que George Clooney, e com um jeito simpático e gentil, Mohamed controlou o barco.

Ele trabalhou para a CNN e para a BBC e conta com mais de 18 mil seguidores para seus comentários, considerados bem-informados, no Twitter. Ele persuadiu a maioria da equipe egípcia a continuar trabalhando para nós e tentou acalmar as pessoas mais nervosas.

Corriam boatos de que a polícia estava nos procurando, mas nós não estávamos escondidos. Escrevi matérias sobre poluição, violência no futebol, bombardeios no Sinai e o julgamento de Morsi – o mesmo tipo de cobertura que fazem as sucursais da al-Jazira pelo mundo todo.

Eu fui uma das correspondentes que passaram pela sucursal do Cairo. Peter Greste (preso desde 29 de dezembro) é um de nossos correspondentes mais corajosos e cobre a região da África Oriental. Estava no Egito há apenas três semanas quando foi preso. Tinha feito as mesmas matérias, com os mesmos produtores e cinegrafistas, o mesmo tipo de entrevistas, tentando extrair algum sentido do período pós-revolução e da mudança na liderança que ocorreu no verão passado. Lembro-me de uma transmissão ao vivo em que eu estava como âncora, no estúdio, no dia de Natal, pensando como suas respostas eram ponderadas.

Se os novos líderes querem ser vistos como governantes de uma sociedade civilizada, equilibrada e com respeito pelos direitos humanos, então devem aderir a uma imprensa livre, e não prender quem ousa pensar diferente.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem