Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MONITOR DA IMPRENSA > JAPÃO

TV pública enfrenta crise após acusação de favorecer o governo

11/02/2014 na edição 785
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Martin Fackler [“Japan’s Public Broadcaster Faces Accusations of Shift to the Right”, The New York Times, 31/1/14]

A NHK, influente rede de TV pública no Japão, tem enfrentado um número crescente de acusações de que o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe – membro do Partido Liberal Democrata e de inclinação pró-nuclear de extrema-direita – está interferindo em sua cobertura jornalística.

O novo presidente da NHK, Katsuto Momii, pareceu confirmar tais temores em sua coletiva de imprensa inaugural, no fim de janeiro, quando declarou: “Nós não podemos dizer ‘esquerda’ quando o governo diz ‘direita’”.

Momii assumiu o cargo após seu antecessor, Masayuki Matsumoto, anunciar sua saída em dezembro, ao final de um mandato de três anos – a decisão surpreendeu, pois esperava-se que Matsumoto fosse se recandidatar ao posto. À época, grandes veículos de comunicação especularam que ele fora expulso pela junta administrativa de Shinzo Abe por ter permitido que a NHK se tornasse muito crítica em sua cobertura de casos relacionados à energia nuclear e às bases americanas em Okinawa.

Explicações ao governo e recuo nas declarações

Depois de sua primeira entrevista coletiva, Momii foi convocado por uma comissão parlamentar para explicar suas declarações, que pareceram ir de encontro à missão declarada da rede de “noticiar sem medo ou favorecimento”.

Ele então recuou em suas afirmações. “Lamento se causei qualquer mal-entendido”, respondeu em testemunho exibido por um dos próprios canais da NHK, que transmite as atividades das sessões parlamentares ao vivo. “É minha intenção proteger a liberdade de expressão e de informação imparcial”.

Emissora é financiada pelo telespectador

Embora a NHK seja nominalmente independente do governo, seu conselho administrativo, formado por 12 membros, é nomeado pelo Parlamento, que por sua vez também é responsável pela aprovação do orçamento da rede.

Nesse caso, a postura direitista não seria um problema, mas existe outra questão importante: a NHK é literalmente financiada pelos telespectadores, que pagam taxas mensais que variam entre 30 e 50 reais para mantê-la. Atualmente, um em cada quatro lares japoneses tem se recusado a contribuir, reflexo de diversos escândalos, incluindo um ocorrido em 2004, quando um produtor da NHK utilizou verba da rede para levar uma amante ao Havaí.

A NHK também enfrentou desconfiança pública generalizada durante a cobertura do acidente na usina nuclear de Fukushima, em 2011, e posteriormente foi criticada por obedecer docilmente aos esforços do governo para encobrir a extensão dos vazamentos de radiação – devido à pressão da poderosa indústria nuclear e de seus aliados políticos.

Lei de sigilo

As acusações de interferência política na NHK são mais uma dor de cabeça para o governo de Abe, que viu seus altos índices de aprovação cair após sancionar uma polêmica lei de sigiloem dezembro de 2013. A citada lei prevê punições mais duras para funcionários do governo que vazarem informações, assim como para jornalistas que buscarem fatos sobre atividades governamentais com estas fontes. Isto levou muitos liberais a acusarem Abe de tentar amordaçar a imprensa, ao mesmo tempo forçando a aceitação de uma pauta de direita que a maioria dos eleitores japoneses não apoia completamente.

“Isto é interferência política em seu estado bruto”, disse Yasushi Kawasaki, ex-repórter político da NHK que agora leciona jornalismo na Universidade Sugiyama Jogakuen, perto de Nagoya. “O governo de Abe tem abastecido o conselho da NHK com rostos familiares?? a fim de neutralizar sua cobertura”. Kawasaki ressaltou que o governo nomeou quatro novos membros para o conselho administrativo no ano passado, incluindo um proeminente romancista de direita.

Yoshihide Suga, representante do governo, negou que as nomeações tivessem motivação política, alegando que o primeiro-ministro simplesmente escolheu “pessoas que conhece e em quem confia”.

Censura e pedidos de demissão

Ainda no fim de janeiro, o professor de economia Toru Nakakita disse que rompeu os laços com um programa de rádio pertencente ao grupo NHK do qual participava há mais de vinte anos depois de ter recebido instruções para não criticar a energia nuclear – tudo para evitar abalar as eleições para governador de Tóquio. Um porta-voz da NHK disse que a exigência foi feita apenas “para garantir uma cobertura equilibrada durante as eleições”.

Jun Hori, popular apresentador de telejornais da NHK, pediu demissão no ano passado depois de ser interrogado por seus superiores durante mais de seis horas a respeito de um documentário no qual descrevia acidentes nucleares nos EUA. “A emissora tornou-se um lugar onde é difícil falar contra as autoridades. Isso não é saudável para a democracia”, disse Hori, que atualmente é jornalista freelancer.

“Fico preocupado com a possibilidade de a NHK se tornar uma mídia legalista, virar o departamento de relações públicas do governo”, conclui Kazuhiro Haraguchi, legislador da oposição.

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