Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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MONITOR DA IMPRENSA >

Alteração de imagens desclassifica 8% dos finalistas

18/02/2014 na edição 786

A maior ganhadora do prestigiado prêmio de fotojornalismo World Press Photo de 2014 não é uma fotografia do chamado “hard news”, o relato jornalístico objetivo, a notícia de última hora. Pelo contrário, a imagem que levou o título de Foto do Ano mostra migrantes no pequeno país africano Djibouti levantando seus celulares próximos à costa em busca de sinal na vizinha Somália. O Djibouti é uma parada comum de africanos deixando países como Etiópia e Eritreia à procura de uma vida melhor na Europa e no Oriente Médio.

 

 

A imagem do americano John Stanmeyer para a National Geographic, registrada à noite e sob a luz da lua (e dos telefones), chega a ser poética. Em entrevista ao Lens, blog de fotografia do New York Times, Stanmeyer, fundador da agência de fotografia VII, diz que a foto aborda temas universais como a migração, a tecnologia e a globalização. “Nós migramos em busca de uma vida melhor, mas sempre precisamos nos conectar ao nosso lar. Eu poderia ser qualquer uma daquelas pessoas tentando me comunicar com a minha família. Eu estou na estrada 250 dias por ano”, lembra.

O fotógrafo da Associated Press David Guttenfelder, um dos jurados do prêmio, disse que o júri sabia que a escolha poderia ser controversa por não se tratar do que se espera de uma imagem puramente jornalística. Mas Guttenfelder ressaltou que a foto foi considerada por tocar em questões importantes que estão sempre no noticiário, além de apresentar uma estética diferente. “Ela pode provocar debate, mas irá sinalizar aos fotógrafos que eles podem cobrir eventos com uma linguagem visual diferente e serão levados a sério”, completa ele.

Manipulação digital

A vitória de Stanmeyer, no entanto, foi ofuscada por uma revelação preocupante: segundo a organização do World Press Photo, 10 das imagens finalistas foram desqualificadas por terem sido modificadas digitalmente. Um especialista independente examinou os arquivos das fotografias e encontrou evidências indicando que informações haviam sido removidas ou tons alterados.

“Como fotógrafo, eu reagi com verdadeiro horror e considerável dor porque algumas das alterações eram insignificantes materialmente, mas significativas do ponto de vista ético”, afirmou o presidente do júri, Gary Knight. “Em cada um dos casos houve uma mudança inexpressiva e sem sentido. Nenhum destes fotógrafos melhorou o seu trabalho e, se não tivessem feito isso, poderiam ter sido levados em consideração [para o prêmio]”.

“Depois de revisar o relatório do especialista e debater as questões, o júri decidiu que 10 [fotos] inscritas não eram qualificadas para continuar na rodada semifinal. Naquele estágio da competição, isso correspondia a 8% das inscrições. É importante ressaltar que o júri, ao indicar as regras do concurso, afirmou que o conteúdo de uma imagem não deve ser alterado”, completou Michiel Munneke, diretor do World Press Photo.

Depois de uma controvérsia envolvendo a foto vencedora do ano passado, o World Press Photo havia anunciado que os arquivos raw – aqueles originais, que contêm todas as informações da fotografia como ela foi tirada – passariam a ser revisados.

Menos profissionais, grandes veículos

Em entrevista ao British Journal of Photography, Gary Knight também ressaltou o número reduzido de fotógrafos, em constraste com a competição dos anos anteriores. “A maioria destas histórias importantes foi fotografada por poucos fotógrafos. Você não tem profundidade em cada tema e em cada evento”, afirma. O presidente do júri acredita que este fenômeno está ligado à falta de recursos das empresas jornalísticas. “Se você olhar as organizações que ganharam prêmios – National Geographic, New York Times, AP, AFP e Reuters – fica evidente que há muito poucas instituições que ainda podem fornecer recursos para os fotógrafos”.

Os premiados da 57ª edição do World Press Photo foram anunciados pelos membros do júri em uma coletiva de imprensa em Amsterdã no fim da semana passada (14/2). Este ano, foram inscritas mais de 98 mil imagens de 5.754 profissionais de 132 países. Foram premiados 53 fotógrafos de 25 países, entre eles Argentina, Irã, México, China e Áustria. Todas as imagens premiadas podem ser vistas aqui.

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