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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MONITOR DA IMPRENSA > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

O ‘equilíbrio’ da censura na China

Por Yo Hua em 18/02/2014 na edição 786
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução de artigo de Yo Hua [“The Censorship Pendulum”, The New York Times, 4/2/14]

Se você quer compreender a atual situação da liberdade de expressão na China, a melhor indicação deve ser a frase: “Desculpe, o texto foi removido.”

O ano passado começou como um período relativamente permissivo para a liberdade de expressão. Após o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista, em novembro de 2012, as autoridades, tanto em Pequim quanto nas províncias, reconheceram a necessidade de levar em consideração as críticas vindas do povo.

Tais críticas não se encontravam na mídia, evidentemente, e por isso tinha que se procurar por elas no mundo do microblog Weibo. Muitas vezes, no entanto, você também não encontrava críticas lá, pois o Weibo estava farto da mensagem “Desculpe, o texto foi removido.”

O contraste entre a aceitação oficial das críticas e a resistência em aceitá-las é simultaneamente contraditório e absolutamente normal. Para muitas autoridades do partido, quanto mais ferinas forem as críticas, mais desconfortável fica a exposição de sua falta de perspicácia administrativa. Portanto, elas apoiam as críticas (se é que o fazem) apenas quando elas são feitas em particular.

As mensagens enviadas para o Weibo são apagadas desde que o serviço começou, em 2009, mas, à medida que ele crescia – atualmente, reivindica ter mais de 500 milhões de usuários –, mais generalizada se tornou a prática de apagá-las. Em parte, a censura tem início com o governo, mas os administradores do Weibo e de outras redes sociais apagam boa parte das mensagens.

Por quê? Tem tudo a ver com lucros. As empresas de internet da China, contrariamente a outros setores, são principalmente privadas. Não ousam ofender o governo – se o governo as reprimir, o dinheiro que elas colheram tão rapidamente irá por água abaixo de maneira igualmente rápida. Portanto, elas saem na frente para apagar críticas sinceras, o que já lhes valeu o rótulo pouco favorecedor de “eunucos responsáveis por sua própria castração”.

Restrições a “boatos” na internet

Mas essas empresas privadas também permitem, silenciosamente, vozes críticas no Weibo. Mesmo quando mensagens são apagadas e contas são canceladas, aparecem outras novas. Meu próprio microblog muitas vezes recebe dicas como esta: a conta de Fulano de Tal teve um fim trágico, mas agora ressurgiu, portanto dê uma olhada nesta versão reformulada.

As pessoas gostam de ouvir vozes críticas ao governo e por isso as empresas não podem silenciá-las completamente. Em vez disso, optam pelo módulo da crítica aceitável. Sabem que as autoridades governamentais irão procurar acertá-las, mas cuidam para que as críticas fiquem nos limites tolerados pelas autoridades. É um pouco como se um lobo dissesse ao rebanho de ovelhas: “Vou deixar vocês balir, mas na condição de que não o façam muito alto e atraiam a atenção.”

Mas como as vozes críticas ao governo se tornam cada vez mais numerosas e estridentes, nossas autoridades irritam-se. Uma vez, alguém me perguntou: “Quando haverá na China uma verdadeira liberdade de expressão?” Minha resposta foi otimista: “Quando a frase ‘Desculpe, o texto foi removido’ desaparecer do mundo do Weibo.”

Mas eu estava enganado. Os acontecimentos caminham na direção precisamente oposta. Em agosto do ano passado, o governo deu início a uma série de restrições a “boatos” na internet. Mais de 100 mil contas do Weibo foram permanentemente fechadas. Muitas dessas contas podem, realmente, ter divulgado boatos, mas muitas também haviam servido como plataformas para críticas amplamente divulgadas ao governo.

Atitude superficial

Por volta de outubro, achei que a frase “Desculpe, o texto foi removido” quase tinha desaparecido do Weibo. Nessa época, já não havia vozes verdadeiramente críticas para se fazerem ouvir – se havia, eram críticas anódinas demais para exigir que fossem apagadas.

Por mais de três anos, fiquei com raiva daquela frase. Mas quando finalmente desapareceu, não foi porque a liberdade de expressão tivesse chegado, mas porque medidas de controle mais duras haviam sido impostas. Depois, em dezembro, de repente a frase “Desculpe, o texto foi removido” reapareceu no Weibo. Vinha isolada, aqui e ali, mas veio como um alívio. Senti que podia pôr a cabeça acima da água e respirar de novo. Cheguei a esperar que a mensagem voltasse a inundar o Weibo.

Nos trinta e poucos anos desde que a China embarcou nas reformas, a alternância política vem sendo entre repressão e moderação. Estou bastante acostumado a essas oscilações do pêndulo. Como parte da última campanha contra a corrupção, provavelmente as autoridades voltarão a declarar: “O partido e o governo devem aceitar a supervisão e as críticas do povo”, como já o fizeram tantas vezes desde que a República Popular foi fundada, em 1949. Mas tenho a impressão de que, quanto mais o disserem, mais a frase “Desculpe, o texto foi removido” irá aparecer na internet.

Isso me lembra uma história de muito tempo atrás. Um homem estava atravessando um rio, de barco, quando acidentalmente sua espada caiu na água. Ele fez uma marca no lado do barco com a indicação: “Foi aqui que minha espada caiu.” Quando o barco chegou à outra margem, o homem mergulhou no lugar do rio em que tinha feito a marca. A espada, evidentemente, não estava ali. A atitude superficial de nossas autoridades de dar as boas-vindas às críticas é como gravar uma marca no barco onde a espada caiu no rio e depois deixar o barco prosseguir até a margem oposta, onde a espada jamais será encontrada: num lugar com a frase “Desculpe, o texto foi removido”.

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Yo Hua é escritor

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