Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > TÃO PERTO, E TÃO LONGE

A rotina nada glamourosa de uma repórter da Casa Branca

Por Paul Farhi em 06/05/2014 na edição 797
Tradução: Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução de artigo de Paul Farhi [“For White House reporter Lesley Clark, so close and yet so far”, The Washington Post, 30/4/14]

Certa vez, numa reunião de cúpula internacional, a repórter Lesley Clark chegou suficientemente perto do presidente Obama para perceber que ele estava mascando chiclete. “Acho que era aquela coisa de nicotina”, lembra ela.

Tudo bem, não foi exatamente um furo. Mas o importante, para os repórteres da Casa Branca, como Lesley Clark, é que esses relances de perto do presidente são raros. Com exceção das entrevistas coletivas, bissextas, e das cerimônias oficiais, os correspondentes não veem muito o presidente – e quase nunca de modos que não tenham sido ensaiados, coreografados e preparados para serem filmados.

Os amigos e a família de Lesley Clark, e provavelmente alguns de seus leitores, acham que ela goza da intimidade de Obama e de seus assessores o tempo todo. Veem o trabalho sendo feito nos noticiários de TV e assistem a programas de ficção sobre a Casa Branca e acham que sabem o que ela faz. Mas não sabem.

Para a maior parte dos jornalistas, boa parte da vida acontece a portas fechadas. Na maioria dos dias, as únicas pessoas que irão falar com uma repórter como Lesley Clark, pelo menos em termos públicos, são aquelas que são pagas para fazê-lo – a falange de assessores de “comunicações” e adidos de imprensa que dão a versão oficial dos acontecimentos.

Testemunha da história

Isso não significa que repórteres como Lesley Clark sejam meras “taquígrafas” – o cansativo rótulo depreciativo de quem não gosta dos correspondentes da Casa Branca. Mas a rotina do cargo também não é o apogeu do jornalismo político sugerido pelos chamativos e autocomemorativos jantares anuais da Associação dos Correspondentes da Casa Branca. O que é irônico sobre esses jantares é que ali os repórteres passam mais tempo na presença de Obama do que praticamente em qualquer dia de trabalho.

Lesley Clark, que trabalha para a rede de jornais McClatchy, está no cargo, na Casa Branca, há três anos e durante esse tempo conseguiu fazer ao presidente uma pergunta direta por uma única vez. Foi em julho de 2011 e Obama atravessava um raro período de envolvimento com a mídia, aparecendo quase semanalmente para pressionar o Congresso a elevar o teto da dívida federal. Ela perguntou-lhe se o governo estava recrutando líderes empresariais para fazerem lobby junto aos Republicanos. Ela até conseguiu uma segunda pergunta, na sequência, sobre “planos de contingência” caso um acordo não fosse possível.

Desde então, essa oportunidade não ocorreu novamente.

Apesar de passar seus dias de trabalho a algumas dezenas de metros da Ala Oeste e da residência da família do presidente, Lesley Clark entrou no Salão Oval somente por três vezes – e sempre como parte do grupo de jornais que aguarda notícias. Ela nunca subiu ao primeiro andar do prédio principal e não tem certeza de que Obama saiba o seu nome.

Pergunte a Lesley Clark o que ela acha de seu trabalho e ela lhe dará uma resposta surpreendente: um pouco conflitante. Conflitante? Os jornalistas passam anos trabalhando, à espera de conseguir o cargo de correspondente na Casa Branca (ela conseguiu); seguem o presidente pelo mundo todo (ela acaba de voltar da Ásia, onde foi cobrir a viagem de Obama) e mostram suas fotos a bordo do avião presidencial nas redes sociais (Lesley Clark reconhece que o faz). Eles cobrem os assuntos mais importantes do dia que envolvem o homem mais famoso e poderoso do planeta.

Sim, diz Lesley Clark, “dá um pouco de medo desempenhar um cargo que afeta pessoas do mundo inteiro, e dos Estados Unidos, e ser testemunha da história sendo escrita”. Sim, acrescenta rapidamente, “há uma desconexão entre cobrir alguma coisa e, raramente – quase nunca, ultimamente –, ter a oportunidade de fazer perguntas à pessoa que você está cobrindo”.

Repórteres levantam o braço

Lesley Clark tem 49 anos e o cargo que ocupa na Casa Branca é de importância média. Embora ela trabalhe para uma importante rede de jornais – a rede McClatchy alcança milhões de leitores através de seus 30 diários –, a Casa Branca tende a canalizar entrevistas importantes para uns poucos veículos de influência, como as redes de TV e jornais regionais estrategicamente importantes. Os vazamentos e as opiniões das “autoridades do primeiro escalão do governo” tendem a acabar no Washington Post e no New York Times. Muitas vezes, as autoridades simplesmente ignoram os repórteres e divulgam notícias da Casa Branca em primeira mão nas contas do Twitter, Facebook e Instagram.

Lesley Clark tenta eliminar a lacuna por meio de seu próprio tempo e esforço. Quando Obama condenou a diferença de salários entre homens e mulheres, por exemplo, ela fez um levantamento dos salários dos funcionários da Casa Branca e encontrou diferença semelhante. Utilizando os critérios usados por Obama em sua comparação, escreveu ela, fica demonstrado que “o pagamento médio às mulheres na Avenida Pensilvânia 1.600 [Casa Branca] é inferior à metade do preço pago em média aos homens”.

A posição média de Lesley Clark na hierarquia dos jornalistas é quase fisicamente verdadeira. Durante o ritual diário dos despachos de imprensa – a partir dos quais se constroem as reportagens da Casa Branca –, ela ocupa a cadeira destinada à rede de jornais McClatchy, no meio da terceira fila das sete filas da sala de imprensa.

Isso a coloca em terra de ninguém. As primeiras duas filas da sala são ocupadas pelos filhos e filhas preferidos da mídia da Casa Branca – os repórteres das agências, os correspondentes das TVs e os representantes do Washington Post, New York Times e Wall Street Journal. Durante qualquer sessão de informação, o secretário de imprensa Jay Carney irá passar a maior parte de seu tempo respondendo a perguntas dos repórteres dessas duas filas, deixando repórteres como Lesley Clark levantar continuamente o braço sem sucesso.

A predominância das duas primeiras filas ficou tão feia que recentemente a Associação dos Correspondentes da Casa Branca saiu em defesa do pessoal das cadeiras de trás, pedindo a Carney e seus assessores que dessem mais espaço ao restante da sala. Lesley Clark disse que Jay Carney costumava gastar cerca de 90% de seu tempo com a primeira fila, mas desde que a associação levantou a questão, a coisa melhorou: “Agora talvez ele tenha baixado para 70%.”

Jornalistas privilegiados

Carney diz que tentou espalhar mais as coisas, mas que muitas vezes é impedido pelo pessoal da frente. “O problema que não consigo resolver é que, a partir do momento em que lhes é dada atenção, as pessoas das primeiras filas tendem a fazer uma porção de perguntas, tomando, assim, boa parte da sessão”, diz ele. “Os que mais fazem isso são os repórteres de TV. Sei que os outros repórteres se sentem frustrados por isso.”

Mas o briefing é apenas o começo do gelo que recebem repórteres como Lesley Clark. Quando começam as sessões diárias, às vezes ela vê quando repórteres escolhidos são levados para sessões privadas com as proverbiais autoridades anônimas. Essas fontes serão posteriormente citadas em como o governo Obama “pensa” a respeito desta ou daquela questão.

Lesley Clark e seu chefe, Steve Thomma, um repórter veterano que preside a associação dos correspondentes, já se queixaram sobre ficar de fora, mas não dá para saber se isso fez alguma diferença. “É desmoralizador”, diz ela. “Agora, melhorou um pouco [em termos de inclusão], mas ainda é desesperador. Você está cobrindo os mesmos assuntos. E você também está ali e quer saber do que estão falando.”

Algumas manhãs, quando ela começa o dia lendo as notícias, se sente deprimida. Ela constata tudo o que deixou de dar – todos os petiscos e possibilidades de furo passados por essas autoridades do primeiro escalão aos outros repórteres, os privilegiados. “Às vezes sinto vontade de voltar para a cama e me cobrir com o cobertor”, diz.

Controle das informações

Lesley Clark batalhou para conseguir o posto na Casa Branca através de uma série de trabalhos de reportagem, começando pela universidade, em sua Massachusetts nativa, com escalas em Connecticut e Flórida. Cobriu todo um espectro jornalístico – escolas, polícia, meio ambiente, política local e estadual. Cobriu legislatura estadual em Tallahassee para o Orlando Sentinel e o Miami Herald. Também cobriu a delegação da Flórida ao Congresso para o Herald, do grupo McClatchy.

Comparada àqueles trabalhos, às vezes Lesley Clark acha que a cobertura da Casa Branca é um pouco como uma experiência que teve em Orlando: os parques temáticos da Walt Disney. “Era uma coisa bloqueada, eram tão opacos”, diz ela.

Os repórteres da Casa Branca em geral escrevem suas matérias num labirinto apertado de mesas atrás da sala de briefing. O espaço para trabalhar lembra um pouco um submarino, com um teto baixo e sem janelas. Mesmo quando poucas pessoas ocupam os dois andares daquele espaço, têm que se virar de lado para passar umas pelas outras. Na época das chuvas fortes, o tapete do porão pode tornar-se uma massa encharcada.

A própria sala de briefing – o local que é visto pelos espectadores do canal C-SPAN – é mais agradável, mas também pequena. É aproximadamente do tamanho de uma sala de aula, com 49 cadeiras com braço que se pode baixar, tornando-se prancheta, cada uma delas designada pela Associação dos Correspondentes da Casa Branca e baseado na frequência e história do cargo. A parte de trás da sala está entupida de câmeras e outros equipamentos de transmissão.

Atrás de uma espécie de púlpito e de um pequeno palco, lugar em que Jay Carney se encontra diariamente com os representantes da mídia, ficam os escritórios mais espaçosos em que se instala a equipe de comunicações da Casa Branca, inclusive Carney. É permitido aos repórteres entrar nessa seção (conhecida como imprensa “de baixo” e imprensa “de cima” devido à divisão dos dois níveis) para falar com o pessoal da equipe. Também podem vigiar a parte de fora da Ala Oeste, de onde surgem autoridades após visitarem o presidente, embora isso seja uma questão de sorte – muitas dessas autoridades simplesmente saem por uma porta de trás para evitar a imprensa.

E, fundamentalmente, isso resume o acesso que Lesley Clark tem, sozinha, ao complexo da Casa Branca. Ela e dúzias de outros portadores do crachá de imprensa têm a liberdade de se locomover nesta área apertada que se estende por umas centenas de metros quadrados.

Lesley Clark sabe que lá para trás as coisas eram diferentes – e talvez mais fáceis. John F. Kennedy normalmente recebia seus repórteres preferidos no Salão Oval; Harry S. Truman jogava pôquer com os jornalistas que faziam sua cobertura; e Franklin Roosevelt dava duas entrevistas coletivas semanais à imprensa (sem o objetivo de se tornarem públicas).

Até Richard Nixon, diz Steve Thomma, os repórteres podiam entrar no antigo edifício do Executivo e no saguão da Ala Oeste para fazer entrevistas. Mas Nixon encurralou os repórteres ao cobrir a piscina da Casa Branca e criar a sala de briefing.

Desde então, todos os presidentes “procuraram maneiras de controlar as informações e limitar… o acesso”, diz George Condon Jr., do National Journal, que cobre a Casa Branca desde o governo Reagan. “Eu não diria que ficou mais difícil cobrir a Casa Branca. Digamos que os desafios são diferentes.”

Lesley Clark pode garantir que sim. Seus amigos e familiares fazem frequentemente perguntas sobre seu trabalho: como é que o Obama realmente é? Após três anos no cargo, ela diz que a resposta honesta é que ela não sabe.

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Paul Farhi é crítico de mídia do Washington Post

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