Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > FOX NEWS

Direita culpa Hillary Clinton por sequestro na Nigéria

13/05/2014 na edição 798
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Amanda Marcotte [“Conservatives are using the kidnapped Nigerian girls story to attack Hillary Clinton.”, Slate, 9/5/14]

Para a maioria das pessoas que assistem ao desdobramento da história das garotas nigerianas sequestradas pelo grupo islâmico radical Boko Haram, os sentimentos dominantes são de desespero, desamparo e temor de que as estudantes nunca sejam devolvidas a suas famílias.

Parte da imprensa de direita dos EUA, no entanto, parece estar concentrada numa emoção diferente: ódio à ex-secretária de Estado – e provável futura candidata presidencial – Hillary Clinton. O canal de TV Fox News e outros veículos têm se ocupado em tentar encontrar um jeito de explorar a história para atrapalhar a possível candidatura de Hillary para 2016.

Acusações explícitas

Comentaristas conservadores têm argumentado que Hillary falhou por não ter “cobrado do Departamento de Estado a classificação do Boko Haram como uma organização terrorista estrangeira”. Em declaração à apresentadora Megyn Kelly, da Fox News, a advogada especializada em direitos humanos Brooke Goldstein argumentou que não conferir tal rótulo ao Boko Haram foi como “um sinal verde para que [o grupo] prosseguisse com as atividades terroristas impunemente”.

Elisabeth Hasselbeck e Steve Doocy, ambos apresentadores da Fox, praticamente culparam Hillary pelo sequestro. Elisabeth disse que o Departamento de Estado deveria ter proibido qualquer tipo de garantia ao Boko Haram, bem como ter aumentado a ajuda às forças de segurança nigerianas. “Talvez isso pudesse ter salvado estas meninas”, declarou ela. Doocy alegou que o grupo de sequestradores só “não pôde ser perseguido ainda porque Hillary não deu a ordem”.

Andrew McCarthy, da revista conservadora National Review, acusou a ex-secretária de Estado de proteger o Boko Haram, e o site de notícias Daily Caller insinuou que Hillary sabia da intenção do Boko Haram de raptar as meninas.

Laura Ingraham, da Fox News, ainda tentou espremer a palavra “Bengazi” em sua cobertura, a fim de maximizar a histeria infundada em torno de Hillary. Laura fez referência a um ataque ao Consulado dos EUA em Bengazi, segunda maior cidade da Líbia, ocorrido em 2012, o qual resultou na morte do embaixador americano J. Christopher Stevens. Ela disse abertamente que as meninas foram sequestradas porque “o episódio de Bengazi fez os EUA parecerem fracos”.

Fatos

O Departamento de Estado alega que, ao contrário das acusações, chegou a classificar, sim, vários líderes do Boko Haram como terroristas globais. No entanto, em 2011, as coisas pareciam um pouco diferentes. Conforme reportagem publicada no New York Times, o grupo era considerado principalmente de alcance local e ficava vagamente classificado entre “culto religioso” e “organização terrorista”, embora obviamente derivasse mais para o segundo. Aparentemente, naquela época o Departamento de Estado estava preocupado em não empurrar o grupo ainda mais na direção de “organização terrorista”.

Conforme observação do blog político liberal ThinkProgress, em 2012 um grupo de 20 pesquisadores de estudos africanos implorou cautela antes de inserir o Boko Haram na lista de terroristas, temendo que isso pudesse “internacionalizar o Boko Haram, legitimar abusos por parte dos serviços de segurança da Nigéria, limitar o escopo do Departamento de Estado na formação de uma estratégia de longo prazo e minar a capacidade do governo americano de acolher uma análise independente e eficaz da região”.

Ao passo que este é, obviamente, um assunto complexo, vai aí um longo caminho para se poder dizer que Hillary Clinton tinha noção das intenções do grupo islâmico ou que a classificação da organização como terrorista teria impedido o sequestro. A única justificativa para que se continue as acusações contra Hillary é o partidarismo cínico, sob o risco de não encarar a situação da Nigéria com a seriedade que ela exige.

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