Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > CASO MADELEINE McCANN

Pais criticam interferência da mídia na investigação

13/05/2014 na edição 798
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Roy Greenslade [“Madeleine McCann: is it time for the press regulator to step in?”, The Guardian, 9/5/14]

Os pais da menina britânica Madeleine McCann, Gerry e Kate, divulgaram uma declaração via Facebook registrando sua preocupação com a “interferência” dos jornalistas na nova investigação sobre o desaparecimento de sua filha.

Nas palavras de Gerry McCann:

“Estamos consternados com a forma como a imprensa tem se comportado ao longo dos últimos dois dias em relação ao caso de nossa filha.

Já existe uma investigação em curso suficientemente desafiadora e a interferência da imprensa não só torna o trabalho da polícia mais difícil, como pode danificar e destruir completamente a investigação – bem como as chances de encontrarmos Madeleine e descobrirmos o que aconteceu com ela.

Na posição de pais de Madeleine, isso só agrava nossa aflição. Pedimos à imprensa para deixar a polícia continuar seu trabalho e, por favor, demonstrar um pouco de respeito e consideração para com Madeleine e toda a nossa família.”

Vetos da polícia portuguesa

A declaração foi divulgada um dia depois que Mark Rowley, comissário da polícia britânica, enviou uma carta a editores de veículos do país pedindo moderação na cobertura devido à possibilidade de interrupção das investigações por parte da polícia portuguesa.

Rowley explicou que a polícia britânica está operando sob a lei portuguesa, que, diferentemente da britânica, não tem o hábito de informar os passos de suas investigações à imprensa.

Ele disse que o chefe de polícia de Portugal foi claro: “Se houver a publicação de qualquer informação sobre o trabalho que estamos realizando em nosso nome, ou se os repórteres causarem qualquer interrupção, as atividades cessarão”.

Com isso, os detetives da Scotland Yard seriam probibidos de investigar no entorno do resort da Praia da Luz onde Madeleine, à época com três anos de idade, desapareceu em maio de 2007.

Limites da imprensa

O professor de jornalismo Roy Greenslade, que tem um blog no Guardian, questionou os limites da imprensa no caso e analisou o papel da mídia. “O que aconteceria se os repórteres descobrissem fatos alheios aos briefings da polícia? É errado que os jornais britânicos reproduzam reportagens da imprensa portuguesa?”, perguntou.

Com tais perguntas em mente, ele analisou a reação da imprensa britânica ao pedido por moderação:

O Daily Mirror manteve-se na vanguarda, publicando um “relato mundial exclusivo” no início da semana passada: “Policiais do caso Madeleine começam a escavar na região de resort“. A reportagem parecia, segundo Greenslade, bem embasada.

Dois dias depois, o The Mirror também veio com sua “versão exclusiva”, intitulada “Policiais do caso Madeleine realizam escavações a poucos metros de apartamento“. Reportagem semelhante foi publicada no Daily Star, “Caso Madeleine: polícia escava em três locais”, e no Daily Express, “Polícia faz escavações em busca de Madeleine”.

Caso as reportagens sejam factualmente precisas, como parece ser o caso, a polícia britânica agora tem problemas, pois se coloca sob a suspeita de ter passado informações em off para jornalistas.

Na noite de quarta-feira [7/5], o canal de notícias Sky News informava que “divergências sobre vazamentos para a imprensa poderiam atrasar a polícia britânica em seus esforços para vasculhar regiões às quais teriam acesso originalmente”. Tal fato só aumenta um conflito já existente, visto que a Scotland Yard não obteve autorização da polícia portuguesa para fazer buscas na casa de três homens acusados de invadir propriedades na Praia da Luz à época do sumiço de Madeleine.

Os editores de jornais britânicos estão um tanto conscientes da sensibilidade em torno da história de Madeleine McCann. Sete anos atrás, os pais da menina já haviam fornecido depoimentos emocionados citando o tratamento infeliz dado ao caso por determinados jornais e chegaram a receber indenizações devido à publicação de calúnias e de reportagens imprecisas e difamatórias logo após o desaparecimento.

Embora seja óbvio que os editores não estão dispostos a repetir os pecados do passado, eles se mantêm fascinados pela pauta e permanecem fiéis, como sempre, à possibilidade de publicar furos que, por sua vez, podem levá-los a ultrapassar os limites.

Greenslade diz compreender ser difícil suprimir informações e aceitar os ditames das autoridades portuguesas, mas também sabe que os editores certamente desejam evitar minar as operações policiais.

E finaliza: “Será que a Comissão de Queixas da Imprensa (PCC) deve intervir antes que a coisa saia dos rumos de novo? Ou vai aguardar pelas consequências?”

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