Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > O FUTURO DO JORNALISMO

Jornalista critica ‘Relatório de Inovação’ do ‘NYT’

27/05/2014 na edição 800
Tradução e edição: Leticia Nunes. Informações de David Warsh [“The New York Times’ ‘Innovation Report’ Is a Disaster, Politico Magazine, 23/5/14]

“O ‘Relatório de Inovação’ do New York Times é um desastre”. A frase é o título de artigo assinado na Politico Magazine pelo jornalista e escritor David Warsh, proprietário do site Economic Principals, atualizado semanalmente com ensaios sobre temas econômicos. Warsh se refere a um relatório interno vazado há algumas semanas que fazia uma avaliação da transição do Times para o meio digital. Tendo como um de seus autores o editor Arthur Gregg Sulzberger, filho do publisher Arthur Ochs Sulzberger Jr, o documento faz uma crítica do processo de adequação do jornal aos novos tempos, apontando caminhos para esta transição. [Veja aqui: Relatório do ‘NYT’ expõe falhas na transição para o digital]

Warsh nota que, “naturalmente”, a comunidade digital adorou o relatório, classificado pelo Nieman Journalism Lab, de Harvard, como “um dos documentos-chave desta era midiática”. Ele reconhece que, também “naturalmente”, o documento – divulgado inicialmente pelo site BuzzFeed – é bem escrito e está cheio de reflexões informativas sobre a construção da reputação em tempos de mídia social. Mas, para o jornalista econômico, o relatório é prova de que o Times chegou a uma zona de perigo e que, se seguir os conselhos de seu filho, Arthur Ochs Sulzberger Jr. será um tolo.

O relatório defende que se deixe de lado a tradição dos 163 anos do Times para que se compita com sites como BuzzFeed, Vox, Business Insider, First Look Media e Huffington Post. “E que receita para o desastre seria: abandonar os grandes jornalismo e reflexão que estão no coração da marca Times para correr atrás de audiência em um jogo que [o jornal] não pode esperar vencer”, critica Warsh, notando que “competidores digitais muito mais ameaçadores”, como a Bloomberg News e a Reuters, que têm senso de inovação e recursos de apuração bem maiores do que aqueles do Times, são pouco mencionados. “Em cada página, o ‘Relatório de Inovação’ denuncia o fracasso de seus autores em entender qual é o negócio fundamental do Times.”

Enquanto borrifa fatos “alarmantes”, como o público do Huffington Post ultrapassando o do site do Times e a contratação da âncora de TV Katie Couric como “âncora global” pelo Yahoo! News, o relatório não menciona que sites como estes enfrentaram uma pesada luta para definir um modelo de negócios efetivo.

“O foco está errado”

O documento é dividido em duas partes: a primeira sobre maneiras de aumentar a audiência daquilo que o Times produz, e a segunda sobre convencer a equipe de que o aumento de audiência é a coisa mais importante em uma organização jornalística atualmente.

Warsh resume: trata-se, na visão do relatório, de uma questão de marketing e “engajamento da audiência”. O que, até certo ponto, faz sentido, diz ele: “O mundo da mídia social mudou drasticamente o modo como as notícias se disseminam”. Mas, no geral, o relatório não é convincente, acredita. “O foco está errado”.

“Não há reflexão nele sobre o que está sendo tratado: sobre o que é ‘notícia’, por que é algo valioso, de onde vem, de onde vem a autoridade de quem a produz. Não há nenhum dos argumentos históricos padrão sobre como a indústria jornalística evoluiu por mais de 150 anos, nenhuma observação sobre as repetidas ameaças aos jornais impressos pelas revistas, pelo rádio, pela televisão, pela TV a cabo e agora pela web. E, por fim, não há nada sobre a edição impressa que torna os jornais diferentes dos sites, especialmente da Bloomberg e da Reuters. Esta é a arena onde a verdadeira competição vai acontecer”, avalia.

Warsh não acredita que o Times venha a ter um crescimento rápido nos próximos anos que o torne capaz de se impor sobre os “gigantes de mídia cuja receita está ancorada na informação financeira”, como Bloomberg, Reuters, e Dow Jones/Wall Street Journal. Para ele, o Times pode seguir o caminho do Financial Times, que também se converteu à estratégia de priorizar o meio digital, e se tornar um “jornal boutique”, atraente para quem reconhece Nova York como a “capital nacional do estilo”. “Mas trocar seus dólares impressos por centavos digitais é uma estratégia fracassada”.

O jornalista diz acreditar que o “Relatório de Inovação” seja apenas um meio de distrair os olhares de onde as verdadeiras mudanças estão ocorrendo – como a troca de liderança com a demissão surpresa de Jill Abramson. “Suponho que não seja realista esperar que o Times seja franco sobre suas reais vulnerabilidades”, afirma, para concluir: “A verdadeira questão é se o Times pode gerar lucro suficiente para manter unidos 13 primos, seus respectivos pares e filhos crescidos de uma quarta e quinta gerações do clã Sulzberger-Ochs que juntaram seus recursos para manter o controle. Se o ‘Relatório de Inovação’ realmente representa o tipo de pensamento que está guiando a New York Times Company em direção à era digital, então o jornal tem mais problemas do que sabemos”.

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