Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > LEITORES SEM LIMITES

Sites adotam medidas enérgicas contra comentários abusivos

Por Paul Farhi em 27/05/2014 na edição 800
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução de artigo de Paul Farhi [“Some news sites cracking down on over-the-top comments”, The Washington Post, 8/5/14]

Atenção, leitores que enviam comentários irritantes: os sites de notícias estão jogando duro com suas mensagens cruéis, grosseiras e, às vezes, obscenas. Tendo que lidar com o inconsciente ilimitado de leitores anônimos que não resistem a enviar comentários desagradáveis sobre artigos online, alguns sites de notícias estão adotando medidas para controlar a irritação verbal. E alguns deles, cansados das confusões que ocorrem quando a liberdade de expressão fica um pouco livre demais, estão simplesmente acabando com os comentários.

Comentários abusivos, que passam dos limites que separam do velho discurso de ódio, são uma praga que existe nos sites jornalísticos há quase tanto tempo quanto os próprios sites. Ao final de um artigo, digamos, sobre questões raciais, frequentemente você depara com uma torrente de comentários racistas de pessoas que se escondem por trás de nomes falsos. Algumas personalidades, como a primeira-dama Michelle Obama ou o ex-vice-presidente Richard Cheney, parecem atrair um número desproporcional de abusos por parte dos leitores.

As organizações jornalísticas gostam dos comentários pois eles promovem lealdade e interação, assim como fazem os leitores permanecer no site por mais tempo, uma medida conhecida como “envolvimento” que ajuda a orientar as decisões sobre aquisição de anúncios.

Mas os comentários dos leitores ficaram tão fora de controle, especialmente em artigos sobre crimes, que o jornal Chicago Sun-Times suspendeu, temporariamente, sua seção de comentários no mês passado. Os piores comentários vieram de pessoas que viram um artigo do Sun-Times sobre um crime a partir de um link no site conservador Drudge Report e inundaram o site do jornal para oferecer suas opiniões, disse o chefe de redação, Craig Newman. “Os comentários afugentavam [leitores]”, disse ele. “As pessoas não queriam ler os artigos ou mergulhar nos comentários porque eram muito desagradáveis.”

Times limita comentários a 18 artigos por dia

A revista Popular Science acabou com sua seção de comentários em setembro último, depois que promotores de produtos e trolls [pessoas que enviam comentários deliberadamente provocadores, com a finalidade de irritar] “tornaram impossível uma discussão construtiva”, segundo o Digiday, um site jornalístico que divulgou a decisão da revista.

Alguns dos preferidos da mídia da nova era nunca permitiram comentários dos leitores. O Vox.com, por exemplo, um site que “explica” as notícias, começou a funcionar no mês passado sem uma área de comentários do leitor. “Nós observamos sites que abriram seus comentários e aquilo que deveria ser uma comunidade transforma-se numa série interminável de guerras de mensagens”, escreveu Melissa Bell, cofundadora do Vox, numa mensagem explicando a inexistência do espaço para manifestações. Numa série de e-mails trocados, ela não quis explicar por que “guerras de mensagens” poderiam ser problemáticas nem o que o Vox pretende adotar como alternativa.

Para conter a feiura da coisa, organizações jornalísticas passaram a experimentar várias táticas. O Washington Post permite aos leitores que acionem um botão contra trolls denominado “Divulgar como abusivo”, o qual direciona comentários suspeitos para uma equipe de monitoração para possível remoção, disse Bethonie Butler, produtora digital do jornal para desenvolvimento de audiência. O site do Post também tem um botão “Ignore”, que permite ao leitor não ver comentários de um usuário específico.

Quando as coisas ficam turbulentas, o jornal simplesmente suspende os comentários, como fez com artigos sobre Michelle Obama e sobre Chelsea Manning [que ficou conhecido por vazar documentos confidenciais do Exército], assim como com matérias envolvendo mortes e ferimentos graves, como as dos tiroteios no pátio da Marinha, em Washington, no mês de setembro.

Poucas organizações jornalísticas se comparam, em termos de recursos para “curar” comentários, com o New York Times, que conta com 14 pessoas, sete delas em período integral, para verificar os comentários nos artigos. Os moderadores leem cada comentário enviado e aprovam ou recusam, baseados em critérios desenvolvidos ao longo dos últimos sete anos, disse Sasha Koren, subeditora de notícias interativas. Ao contrário de muitos sites jornalísticos, que abrem comentários sobre dúzias de artigos diariamente, o Times limita os comentários a uma média de 18 artigos por dia. A ideia, segundo Sasha, é “minimizar a falta de civilidade e destacar comentários que incluam observações pessoais de alguma substância… Temos a sorte de contar com um bom número de leitores que compartilham regularmente suas opiniões, suas especialidades e suas experiências com este jornal e com outros”.

Conversas civilizadas

Os 30 jornais diários de propriedade da empresa McClatchy Co. abordaram o problema de um ângulo distinto. No ano passado, 29 dos jornais – que incluem o Miami Herald, o Kansas City Star e o Charlotte Observer – começaram a solicitar aos autores dos comentários que se registrassem através de suas contas no Facebook. (Um dos principais jornais da empresa, o Sacramento Bee está experimentando um sistema diferente.) Agora, de maneira bastante semelhante às tradicionais cartas ao editor, os comentários vêm com nomes, cidades em que residem e até rostos e vínculos profissionais anexados. “O comentário anônimo, totalmente aberto, era uma enorme fonte de reclamações em todos os nossos jornais”, disse Anders Gyllenhaal, editor de Washington da McClatchy. Mas desde que começou o registro no Facebook, “os piores delinquentes, aqueles que passam de um site para outro enviando uma porção de mensagens descabidas, em grande parte foram para outros sites… Isso não só melhorou o nível da conversa como deu um tom mais pessoal ao comentário”.

Um sistema semelhante criado em dezembro pelo Huffington Post foi polêmico: um artigo anunciando a mudança de mensagens anônimas para mensagens verificadas pelo Facebook teve quase seis mil comentários – muitos deles em termos desagradáveis. “Algumas pessoas acharam que estávamos restringindo seus direitos à liberdade de expressão”, disse Tim McDonald, diretor de comunidade do HuffPost. A compensação, segundo ele, foi “uma significativa diminuição” de trolls e spam e um aumento em mais “conversas civilizadas”.

A grande preocupação, para os diretores, é que reprimindo a vox populi por meio desse tipo de medidas, reduz-se o tráfego do site e, portanto, a receita publicitária. Mas tanto Gyllenhaal, da McClatchy, quanto McDonald, do HuffPost, dizem que isso não ocorreu desde que suas publicações começaram a usar o registro do Facebook.

Na realidade, o HuffPost talvez seja um dos sites com maior número de comentários. Desde o mês de dezembro, ele atraiu cerca de seis milhões de novos comentários, disse McDonald, o que equivale a cerca de 2% do total de comentários que recebeu desde que foi fundado, em 2005.

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Paul Farhi é crítico de mídia do Washington Post

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