Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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MONITOR DA IMPRENSA >

Jornalistas da Al Jazeera são condenados no Cairo

23/06/2014 na edição 804

Três jornalistas da Al Jazeera English foram condenados na segunda-feira [23/6], por um tribunal egípcio, sob acusação de ajudar a Irmandade Muçulmana, disseminar notícias falsas e pôr em risco a segurança nacional. Peter Greste, Mohamed Fahmy e Baher Mohamed foram presos em dezembro de 2013 no Cairo, por supostamente conspirar com a Irmandade Muçulmana, grupo político e religioso ligado ao presidente deposto Mohamed Morsi.

O correspondente australiano Peter Greste e o chefe da sucursal do Cairo, Mohamed Fahmy, foram sentenciados a sete anos de prisão, enquanto o produtor egípcio Baher Mohamed foi condenado a 10 anos encarcerado. Os jornalistas britânicos Dominic Kane e Sue Turton, e a holandesa Rena Netjes, julgados in absentia, receberam sentença de 10 anos. Quatro estudantes e ativistas sem ligação com a Al Jazeera, também indiciados no caso, foram condenados a sete anos.

Em uma entrevista exibida na TV, Mostefa Souag, diretor geral em exercício da rede do Catar, classificou o veredicto de “chocante”. “Eu não acho que tenha alguma coisa a ver com justiça”, afirmou ele, ressaltando que a condenação dos jornalistas é um novo passo em uma campanha egípcia para “aterrorizar as pessoas e aterrorizar a mídia”.

Já o diretor da Al Jazeera English, Al Anstey, afirmou em declaração que a sentença “desafia a lógica, o bom senso e qualquer semelhança com a justiça”. “Há apenas uma saída sensata agora: que o veredicto seja derrubado e a justiça seja reconhecida pelo Egito. Nós temos que manter nossa voz alta para pedir pelo fim da detenção deles”, completou.

Sistema corrupto

A sessão final do julgamento foi acompanhada por jornalistas, diplomatas e parentes dos réus. Ninguém parecia acreditar na condenação. “Com base nas evidências que vimos, não conseguimos entender o veredicto”, afirmou o embaixador australiano no Cairo, Larry King. “Nós vamos deixar nossa posição clara ao governo egípcio e vamos continuar a fornecer toda a assistência possível”. Já o irmão de Fahmy, Adel, reagiu com fúria: “Isso não é um sistema. Isso não é um país. Eles arruinaram nossas vidas. Isso mostra tudo o que está errado com o sistema: é corrupto. Este país é completamente corrupto”.

Greste, Mohamed e Fahmy foram presos em 29/12, em um hotel que usavam de escritório no Cairo – a redação da Al Jazeera no país havia sido fechada em julho, quando ocorreu o golpe militar que derrubou o presidente. No julgamento, a acusação baseou-se na ideia de que canais como a Al Jazeera ajudaram a derrubar o governo do Iraque e planejavam fazer o mesmo com o Egito.

Julgamento político

Segundo a Anistia Internacional, os jornalistas seriam bodes expiatórios em uma disputa geopolítica entre o Egito e o Catar, pequenino país do Oriente Médio onde foi criada e que financia a Al Jazeera. O Catar é visto pelo Egito como simpatizante à Irmandade Muçulmana – grupo que, depois da derrubada de Morsi, foi banido do país e classificado de organização terrorista.

Durante o julgamento, a promotoria foi criticada por apresentar evidências forjadas ou irrelevantes para o caso, como vídeos de reportagens antigas de Greste feitas em outros países e clipes de notícias produzidos por outras emissoras sobre temas diversos, como um hospital para animais e a vida de cristãos no Egito. O jornalista australiano chegou a perder a paciência em uma das audiências quando os promotores apresentaram um celular com dados em árabe como sendo dele. “Eu não falo árabe!”, gritou Greste da cela onde os réus acompanhavam as sessões. O correspondente da CNN Ian Lee, que cobriu o julgamento para a Al Jazeera (já que a emissora foi proibida de atuar no país), afirmou que, se for pedida a apelação, é possível que um juiz reduza a sentença ou até absolva os jornalistas.

Segundo Mohamed Lofty, diretor-executivo da Comissão Egípcia para Direitos e Liberdades, que assistiu a todas as audiências do julgamento para a Anistia Internacional, o veredicto representa uma mensagem assustadora para a oposição no Egito. “É um alerta para todos os jornalistas de que podem, um dia, enfrentar julgamento e condenação semelhantes simplesmente por cumprir suas tarefas”, afirmou. Para o observador, o veredicto se encaixa no cenário de um judiciário político e no uso de julgamentos para derrubar as vozes de oposição.

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