Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

MONITOR DA IMPRENSA > CASO JIMMY SAVILE

Autoridades admitem que fama ajudou apresentador a cometer abusos

01/07/2014 na edição 805
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Deborah Orr [“We must demand more of celebrities, not confer advantages on them like Jimmy Savile had”, The Guardian, 27/6/14] e de Caroline Davies [“Jimmy Savile’s victims were aged five to 75 at Leeds hospital, inquiry finds”, The Guardian, 26/6/14]

Una O’Brien, secretária do Departamento de Saúde britânico, pediu desculpas publicamente, em nome da instituição, pelos “procedimentos totalmente inadequados” que permitiram que o ex-apresentador da BBC Jimmy Savile, morto em outubro de 2011, mantivesse uma posição gerencial no hospital de alta segurança Broadmoor.

Savile, uma das maiores celebridades do Reino Unido nas décadas de 1970 e 1980, é apontado como um dos molestadores mais ativos do país. O escândalo envolvendo o apresentador veio à tona em 2012, quando a polícia revelou que ele havia abusado sexualmente de centenas de vítimas nas instalações da BBC e em hospitais onde trabalhara como voluntário.

Relatórios que abrangem 28 hospitais onde Savile atuou mostram que ele usou de sua fama para ter acesso não supervisionado a pacientes, estuprando e abusando sexualmente de indivíduos de ambos os sexos com idade entre cinco e 75 anos.

Acesso irrestrito, chaves e alojamento privativo

No hospital Broadmoor, por exemplo, uma instituição psiquiátrica de segurança máxima localizada em Berkshire, Savile trabalhara por três décadas, assumindo inclusive um papel de gestão a partir de 1988. Ali, onze pessoas abriram queixa contra o apresentador (sendo três delas menores de idade). Segundo os responsáveis pela investigação, à época as vítimas foram fortemente desencorajas a denunciá-lo.

Os relatórios dizem que também os funcionários do hospital temiam retaliações devido às relações de Savile com pessoas poderosas. “Concluímos que a cultura institucional em Broadmoor era inadequadamente tolerante com as relações sexuais entre equipe-paciente, e que poderia se revelar hostil a qualquer um que tentasse fazer denúncias”, dizia um dos documentos. “Houve falhas claras e repetidas de salvaguardar as normas vigentes”.

Savile possuía chaves para acessar o hospital, bem como alojamento privativo e acesso irrestrito devido à sua relação com o superintendente médico local, que esperava que a fama do apresentador pudesse melhorar a percepção pública a respeito da instituição. Coincidentemente, Savile cortou seu vínculo com o local exatamente quando um novo sistema de segurança foi instalado ali em 2004.

Na Enfermaria Geral de Leeds, onde Savile trabalhou entre as décadas de 60 e 70, 64 pessoas o denunciaram por abuso. As queixas descreviam comentários lascivos, contato inapropriado, agressão sexual e até mesmo três casos de estupro. De acordo com a equipe de investigação, não houve nenhuma evidência de ação por parte dos gestores à época. A maioria das vítimas estava no final da adolescência ou na faixa dos 20 e poucos anos. O caso mais antigo data de 1962, quando Savile tinha 36 anos, e o mais recente de 2009, quando ele tinha 82 anos. As investigações também descrevem violações dos cadáveres nos necrotérios dos hospitais.

Julian Hartley, diretor-executivo dos hospitais-escola de Leeds do sistema público de saúde classificou o relatório investigativo como chocante e disse que é a primeira vez que os hospitais do grupo têm uma ideia clara dos abusos cometidos por Savile. Ele ressaltou que, agora, os hospitais de Leeds são administrados de maneira muito diferente e com maior foco na segurança – nem mesmo celebridades podem ter acesso sem registro prévio.

Cultura das celebridades

Em artigo para o jornal The Guardian, a jornalista escocesa Deborah Orr cobrou uma postura menos condescendente para com as celebridades. Deborah alega que Savile não apenas explorou sua fama como artista – elaborando a imagem de caridoso incansável – para cometer seus abusos, como também se aproveitou dela para se desvencilhar de quaisquer acusações. “Mesmo as vítimas corajosas o suficiente para denunciá-lo às autoridades, à polícia ou aos meios de comunicação, foram rapidamente desiludidas sobre isso, pois, de certo modo, as instituições atingidas foram vítimas de Savile, também. Embora não fossem vítimas em termos de sofrimento pessoal, eram importantes porque tinham a capacidade de parar Savile, e no entanto deram-lhe o aval para continuar”, escreveu ela.

Deborah disse que, depois que os crimes de Savile foram revelados, tornou-se evidente que muitas pessoas conheciam algumas de suas inclinações, mas que optaram por afastá-las, “às vezes citando a ‘cultura groupie’ um tanto aceitável no passado”.

Em seu texto, ela convidou as pessoas a refletir sobre a posição de famosos em casos como o de Savile e disse que é necessário entregar às próprias celebridades a responsabilidade de não se colocar em posição que cause desconfiança: “Talvez, em vez de apreciar o espetáculo de uma celebridade sendo minada publicamente, nossa cultura deva deixar claro que cabe a ela tentar ser alguém melhor”.

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