Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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MONITOR DA IMPRENSA >

Censura e propaganda na cobertura da Primeira Guerra

05/08/2014 na edição 810

O centésimo aniversário do início da Primeira Guerra Mundial é uma boa oportunidade para olhar para trás e avaliar a cobertura do conflito. A quantidade de erros jornalísticos é recorde: da ânsia em publicar propaganda como fato, passando por uma aparentemente dócil aceitação da censura, à omissão de questionar o poder. Os jornalistas eram impedidos de informar corretamente o público por três poderosas forças: o governo, os militares e os donos dos jornais.

Em artigo publicado na revista English Journalism Review, o professor de jornalismo e colunista do Guardian Roy Greenslade faz um balanço da cobertura de guerra de cem anos atrás: é inegável, diz ele, que os jornais começaram por demonizar o inimigo alemão. Publicaram falsas histórias da barbárie alemã que foram aceitas como fatos. Embora cidadãos belgas e franceses tenham sido executados, como represália, pelo Exército alemão nos primeiros meses da guerra, muitas histórias impossíveis de se verificar – posteriormente classificadas de “propaganda da atrocidade” – foram divulgadas pela imprensa europeia.

“Quando a guerra chega, a primeira vítima é a verdade”, disse, em 1918, o senador norte-americano Hiram Johnson, que se opunha à entrada dos Estados Unidos na I Grande Guerra. Sua preocupação com o destino da verdade era justificada.

Com a censura, a questão era outra. Foi imposta desde o início das hostilidades e, embora tenha sido gradualmente suavizada, continuou suficientemente rigorosa para impedir que os repórteres obtivessem informações e, caso conseguissem, que as publicassem. O rigoroso controle governamental era exercido em conjunto com a cumplicidade de um grupo de proprietários de jornais favoráveis à guerra.

Parlamento canadense aprovou a censura

Uma lei aprovada na Grã-Bretanha quatro dias após o início das hostilidades deu às autoridades poder para sufocar qualquer crítica ao esforço de guerra. Uma de suas cláusulas dizia: “Ninguém poderá, pela palavra oral ou escrita, disseminar informações que possam eventualmente causar falta de lealdade ou alarme entre as forças de Sua Majestade ou entre a população civil.” O objetivo era impedir a publicação de qualquer coisa que pudesse ser interpretada como um enfraquecimento do ânimo do povo britânico, mas não conseguiu sufocar todas as reportagens negativas. Se o tivesse conseguido, Lorde Northcliffe, fundador do Daily Mail e do Daily Mirror, não teria feito campanhas tão implacáveis contra o ministro da Guerra, Lorde Kitchener, por meio de seus jornais.

Nos Estados Unidos, havia um profundo sentimento contra o conflito antes que o país entrasse na guerra, em 1917. Ao norte dos EUA, entretanto, a situação era distinta. Desde que o Canadá entrou para o conflito ao lado da Grã-Bretanha, em agosto de 1914, a opinião pública apoiava esmagadoramente o esforço de guerra. Mas esse consenso tornou difícil apresentar uma versão da realidade que fosse contrária à aceitação dos fatos. Isso era particularmente verdadeiro quando se tratava da imprensa. Os diretores dos jornais não estavam preparados para enfrentar a raiva de seus leitores e do governo lendo matérias críticas à forma e ao motivo pelo qual a guerra era travada.

Em agosto de 1914, menos de três semanas depois do início da guerra, o Parlamento canadense aprovou uma Lei de Medidas de Guerra. Ela proporcionava a “censura, controle e proibição a publicações, textos, mapas, projetos, fotografias, comunicação e meios de comunicação”, sempre que o governo determinasse que “a segurança, a defesa, a paz, a ordem e o bem-estar do Canadá” estivessem ameaçados. Na maior parte do primeiro ano, as autoridades governamentais não fizeram grandes esforços para fazer valer a lei. Não havia uma autoridade centralizada para monitorar a imprensa e os jornais mais obviamente pró-alemães e anti-britânicos foram fechados.

Condecoração vista como suborno

Quando o conflito estourou, Lorde Kitchener, o ministro britânico da Guerra, proibiu que os repórteres fossem para o front. Mas dois correspondentes obstinados, Philip Gibbs, do Daily Chronicle, e Basil Clarke, do Daily Mail, desafiaram a proibição, agindo como “foras-da-lei jornalísticos” para fazer reportagens da linha do front. Gibbs foi preso e advertido de que se tornasse a ser preso seria fuzilado. Clarke fez uma reportagem sobre a destruição em Ypres, na Bélgica, depois de um bombardeio alemão e voltou para casa após receber uma advertência idêntica.

As notícias do front tornavam-se cada vez mais sinistras. Mais de 6.500 canadenses foram mortos ou feridos em Ypres e o governo canadense começou a preocupar-se com o impacto que essas notícias poderiam ter sobre o alistamento de soldados e o financiamento, passando a olhar com mais cuidado a forma pela qual a guerra era divulgada pela imprensa.

Três meses depois do início da guerra, o governo britânico cedeu, permitindo a cinco “repórteres credenciados” acesso ao front. Nos três anos seguintes, vários outros jornalistas receberam credenciais. Mas a censura garantia que vários tipos de fatos fossem omitidos dos leitores de jornais ingleses. Os erros britânicos não eram divulgados, nem as vitórias alemãs.

Mesmo a mais sangrenta derrota da história britânica, em Somme, em 1916 – na qual as baixas das tropas aliadas chegaram a 600 mil –, em grande parte não foi divulgada. A desastrosa batalha do primeiro dia foi noticiada como uma vitória. William Beach Thomas, do Daily Mail, reconheceu, posteriormente, que estava “profundamente envergonhado” do que havia escrito, acrescentando: “A vulgaridade das enormes manchetes e a enormidade do crédito não diminuíram a vergonha”.

Philip Gibbs, do Daily Chronicle, defendeu suas ações sob o argumento de que tentava “poupar os sentimentos de homens e mulheres que têm filhos e maridos lutando na França”. Ele teve a desfaçatez de afirmar que fora relatada a verdade sobre a batalha de Somme. Após a guerra, Thomas e Gibbs foram condecorados por serviços ao jornalismo. Outros – como Hamilton Fyfe, editor do Daily Mirror e, posteriormente, do Daily Herald – viram a condecoração como um suborno para ficarem calados sobre a ineficiência e corrupção que haviam testemunhado.

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