Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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MONITOR DA IMPRENSA >

Como as redes sociais mudaram a cobertura de guerra

12/08/2014 na edição 811

Gaza, Ucrânia, Síria… Muitas das notícias recentes são oriundas de zonas de guerra (ou zonas de guerra iminente). Conflitos do gênero não são novidade; no entanto, a cobertura jornalística atual saiu dos limites dos jornais, emissoras de TV e revistas e chegou às redes sociais. O terreno das mídias sociais ainda é novo e, portanto, arriscado. Muitas vezes, os próprios jornalistas ativos nas redes acabam se colocando em situações delicadas.

Pode-se dizer que a participação dos jornalistas em redes sociais como Facebook e Twitter é altamente incentivada pelos veículos de notícias, que incitam seus profissionais a utilizá-las, mas dificilmente se mostram igualmente presentes quando o profissional em questão publica alguma bobagem. Mas será que há um limite para a cobertura sem o crivo dos grandes órgãos de imprensa?

Sem filtro

O jornalista David Carr, colunista de mídia do New York Times, refletiu sobre a natureza da influência de testemunho de guerra em tempo real em um artigo publicado no fim de julho. Ele diz que, se o Vietnã, com a TV, trouxe a guerra para a sala da nossa casa, agora a guerra tem sido colocada diretamente em nossas mãos. “Nos celulares, alertas de notícias repletos de contagens de corpos pululam em nossas caixas de entrada; a timeline do Facebook está povoada por apelos de ajuda ou ações em favor das vítimas de guerra; ao passo que o Twitter ferve com relatos de caos e desastres, segundo a segundo, alguns feitos por profissionais, outros por cidadãos comuns.”

Carr frisa a importância do testemunho, classificando-o como a ferramenta mais antiga e talvez a mais valiosa no arsenal do jornalista, mas afirma que o caráter de uma narração real pode ficar muito diferente quando é entregue no ato do momento crucial, sem pausa para reflexões. Um bom exemplo disso são as controvérsias nascidas das coberturas em redes sociais – muitas delas impensáveis há 15 ou 20 anos.

Um exemplo disso é o caso do jornalista David Frum, editor da revista americana The Atlantic, que publicou uma série de tuítes acusando o New York Times de divulgar fotos falsas da Faixa de Gaza; Frum acabou sendo minuciosamente refutado por Michael Shaw, do portal Bag News, e se viu obrigado a se desculpar pelas acusações.

Logo depois da polêmica, Erik Wemple, colunista de mídia do Washington Post, manteve o assunto vivo e criticou o pedido de desculpas de Frum, alegando que este agiu com ceticismo correto. Por sua vez, James Fallows – também da revista The Atlantic –, engrossou o coro e soltou um artigo reflexivo sobre denúncias de falsificações na rede, dizendo que, independentemente do que um indivíduo pensa dos meios de comunicação, é importante que este respeite os jornalistas em áreas de conflito devido a seus esforços para observar e explicar os acontecimentos.

Antes deste episódio, houve casos de correspondentes afastados de Gaza por causa de mensagens controversas em redes sociais. Ayman Mohyeldin, da NBC, foi transferido da cobertura (e logo depois reintegrado) após publicar posts relatando a morte de crianças palestinas por bombas israelenses. Brian Stelter, da CNN, também foi realocado após escrever sobre o incidente e repassar o roteiro para ser lido no ar por um colega.

Diana Magnay, também correspondente da CNN, deixou de cobrir o conflito após chamar israelenses que aplaudiam ataques com mísseis de “escória” no Twitter.

Já Colin Brazier, repórter da Sky News, foi repreendido no Twitter depois de remexer nos pertences das vítimas do voo MH117 – aeronave civil abatida na Ucrânia e que deixou um saldo de 298 mortos – durante uma participação ao vivo em um telejornal.

Todos os casos acima renderam grande interação por parte dos internautas e de outros jornalistas nas redes sociais. Mohyeldin, por exemplo, só foi reintegrado à cobertura por causa das manifestações online em seu favor. Diana, por sua vez, lidou com um lado menos amistoso da rede e foi veementemente xingada. E Brazier teve de se desculpar pela sua atitude.

Mais fontes, mesmo propósito

Mas nem todos concordam que as mídias sociais tenham alterado fundamentalmente a comunicação de guerra. Para Barbie Zelizer, professora da Escola de Comunicação Annenberg da Universidade da Pensilvânia, há uma diferença do grau de cobertura, mas não de tipo. “Existem mais fotos divulgadas por uma quantidade maior de pessoas, mas elas ainda servem ao mesmo propósito, que é nos fornecer um vislumbre, uma janela para o conflito”, conclui.

A grande questão é se este contato mais “íntimo” com a guerra nos torna mais solidários aos que sofrem nela ou se a onipresença de imagens e informações na verdade nos dessensibiliza a ponto de o sofrimento humano perder o sentido ao se misturar aos conteúdos irreverentes das redes sociais.

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