Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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MONITOR DA IMPRENSA > WATERGATE, 40 ANOS

Ex-correspondente relembra os dias antes da renúncia de Nixon

26/08/2014 na edição 813
Tradução: Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de Tom DeFrank [“Five Days in August: What It Was Like to Report Watergate”, The Atlantic, 11/8/14]

Tom DeFrank era correspondente da revista Newsweek na Casa Branca quando estourou o escândalo que derrubou o então presidente americano Richard Nixon, no início da década de 1970.

Em 18 de junho de 1972, o jornal The Washington Post noticiava na primeira página a invasão do dia anterior à sede do Comitê Nacional Democrata, no Complexo Watergate, em Washington. Durante a campanha eleitoral, cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata. O fato, que ficou conhecido como caso Watergate e sobre o qual De Frank escreve no artigo que se segue, desembocou na maior crise constitucional desde a guerra civil norte-americana – a renúncia do presidente Richard Nixon.

DeFrank é editor colaborador da revista National Journal e foi redator-chefe do New York Daily News de 1996 a 2012, em Washington. Ele atuou como correspondente da Newsweek na Casa Branca por 25 anos, fazendo a cobertura de oito presidentes e 12 campanhas presidenciais.

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A seguir, seu relato:

É difícil transmitir a dimensão dessa época terrível para gerações que vivenciaram os atentados do 11 de setembro, duas guerras que dividiram opiniões, uma presidência decidida pela justiça, o primeiro presidente afro-americano e uma Grande Recessão. E, no entanto, em sua época, o caso Watergate foi igualmente avassalador.

Embora, em última instância, a justiça tenha prevalecido e nossos processos democráticos tenham sobrevivido, as sequelas corrosivas do caso Watergate continuam conosco. Desde então, as lideranças políticas são vistas com mais suspeitas e cinismo. Os presidentes já não são considerados tão confiáveis. A crescente polarização entre o Congresso e a Casa Branca mutilou o sistema bipartidário de governo. Atualmente, repórteres e presidentes têm pouca necessidade uns dos outros. E tudo isso tem origem em Watergate.

O que se segue é uma recordação pessoal – não apenas de história, mas da história que modificou os Estados Unidos para sempre. Tive a sorte de ser um espectador de primeira mão, especialmente da fatídica última semana, como correspondente da Newsweek.

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Ao meio-dia e 20 do dia 8 de agosto de 1974, o secretário de Imprensa de Richard Nixon entrou na sala de imprensa. Sabíamos que devia ser sério – Ron Ziegler verificara seu maço de cigarros Marlboro Lights, pegara uma xícara de café e mostrara sua tradicional arrogância à porta. As informações de Ziegler foram de poucas dezenas de palavras e ele teve dificuldade para terminar. “Hoje, às nove horas da noite, horário da Costa Leste”, anunciou, tentando manter a compostura, “o presidente dos Estados Unidos fará um pronunciamento à nação, por rádio e televisão, a partir do Salão Oval.”

Quando Ziegler se afastou do microfone, um correspondente do Wall Street Journal tornou a fazer a pergunta que fazia em todos os briefings com a imprensa há várias semanas: “Ron, o presidente vai renunciar?” Um pouco mais cedo, Ziegler denunciara a invasão como “um roubo de terceira classe”. Mesmo já tendo passado um ano desde que o escândalo estourara, Nixon garantia sua ignorância e inocência. “Não sou um ladrão”, insistiu na famosa declaração que deu em Orlando, na Flórida, em novembro de 1973.

Nesta época, entretanto, os esforços de Nixon para controlar os estragos eram inócuos. Guiados por um agente do FBI conhecido por Garganta Profunda, os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post, tinham produzido uma série firme de furos fantásticos, documentando que os invasores de Watergate tinham sido treinados por agentes de inteligência aposentados muito próximos à equipe que comandava a reeleição de Nixon em 1972 e por gente de dentro da Casa Branca.

Uma comissão especial do Senado estava tentando determinar, na frase imortal do falecido senador Howard Baker, “o que o presidente sabia e quando o soube”. O promotor especial Leon Jaworski, famoso advogado de defesa do Texas, arrastava cúmplices do presidente para depor perante o grande júri. O chefe de gabinete e o assessor para política interna de Nixon foram forçados a renunciar depois que Woodward e Bernstein divulgaram sua cumplicidade em abafar o caso.

Quando o assessor da Casa Branca Alexander Butterfield declarou à comissão de Watergate que Nixon vinha gravando secretamente suas conversas no Salão Oval, Jaworski pediu as fitas como provas. Nixon recusou-se, argumentando que era um privilégio do Executivo. O promotor especial processou o presidente, desencadeando um confronto constitucional entre o Executivo e o Judiciário. No dia 24 de julho de 1974, a Suprema Corte decidiu, por unanimidade, que Nixon devia entregar as fitas.

Segunda-feira, 5 de agosto de 1974

Após 26 meses, o jogo final chegou a um clímax impressionante em apenas cinco dias, a começar pela tarde de segunda-feira, 5 de agosto, quando a Casa Branca divulgou transcrições de três fitas. Pouco antes de serem tornadas públicas, o chefe do Estado-Maior de Nixon, Alexander Haig, convocou cerca de 100 assessores da Casa Branca do primeiro escalão para uma reunião no antigo prédio do Executivo. Avisou que “um material que nos é prejudicial” estava em vias de ser divulgado e exortou-os a permanecerem em seus postos pelo bem da nação.

Ainda mais revelador, Haig já avisara o vice-presidente Gerald Ford que as fitas representavam uma virada de jogo e que Ford deveria começar a pensar em se preparar para tornar-se presidente.

“Depois daquela reunião, as hipóteses eram esmagadoras de que eu seria presidente”, disse-me Ford 17 anos mais tarde. “É claro que isso, mesmo com Haig dizendo ‘Num minuto, ele vai renunciar, no minuto seguinte vai lutar até o fim’.”

As três conversas de 1972 entre Nixon e o chefe de gabinete H.R. Haldeman demoliram o argumento do presidente de que ele era uma mera vítima inocente de subordinados excessivamente diligentes. Demonstravam, de forma convicta, que Nixon estava profundamente envolvido. Na realidade, uma delas revelava que ele estava conspirando para abafar a invasão seis dias depois que ela acontecera – nove meses antes do que ele dissera que tomara conhecimento do incidente.

As transcrições incriminadoras não só selaram o destino de Nixon como cunharam uma nova frase no léxico político norte-americano: a “prova irrefutável” [smoking gun].

Telefonei a meu chefe, o lendário redator-chefe da Newsweek Mel Elfin, e li para ele os parágrafos mais importantes de cada uma das fitas. Mel tinha instintos políticos impecáveis, mas neste caso tratava-se de algo óbvio. “Acabou”, disse ele. “Você vai fazer a cobertura da maior matéria de sua vida.”

Terça-feira, 6 de agosto de 1974

Depois de cortar o cabelo por 10 minutos na barbearia do subsolo, Nixon subiu a escada para uma reunião de emergência do gabinete. Durante 88 minutos, ele conduziu a conversa como se os problemas do governo fossem o fundamental. Começou dizendo que queria falar sobre o problema mais importante que o país enfrentava – a inflação.

A certa altura, discutiu a crise de Watergate, dissecando a confusão por cerca de 25 minutos. Sim, reconhecia que cometera alguns erros; estes eram difíceis para ele e sua família, mas pretendia persistir firme e deixar prosseguir “o processor constitucional”.

A faceta delirante da reunião foi sacudida de volta à realidade quando George H.W. Bush, presidente do Comitê Nacional Republicano, sugeriu, delicadamente, que estava na hora de Nixon renunciar. Vários participantes disseram mais tarde que Nixon continuou a falar, ignorando a recomendação de Bush, como se jamais tivesse sido pronunciada.

Convencido que Nixon não compreendera o que dissera, Bush enviou-lhe uma mensagem escrita, pessoal:

“É minha opinião respeitosa que o senhor deveria renunciar. Imagino que, em sua solitária posição assediada, isto pareça um ato de deslealdade de alguém que sempre gozou de seu apoio de várias maneiras. Minha opinião é de que serviria equivocadamente a um presidente cujas inúmeras realizações respeito e por cuja família tenho apreço se não lhe desse minha opinião neste momento. Até agora, a renúncia não fora resposta alguma, mas considerando o impacto dos últimos acontecimentos, e este será duradouro, acredito firmemente que a renúncia é o melhor para o país, o melhor para o presidente. Acredito que essa seja a opinião da maioria dos líderes republicanos deste país. Esta carta é muito mais difícil devido à gratidão que sempre terei pelo senhor. Se, realmente, o senhor renunciar, a história irá registrar adequadamente suas realizações com duradouro respeito.”

Ao final do dia, as defesas de Nixon desmoronavam. Os 10 republicanos da Comissão do Judiciário que haviam votado contra o impeachment agora concordavam que o presidente deveria deixar o cargo.

Quarta-feira, 7 de agosto de 1974

No final da tarde de quarta-feira, à medida que se evaporava o pouco apoio político com que ainda contava, Nixon encontrou-se com três de seus maiores amigos do Congresso: o líder da minoria no Senado, Hugh Scott, o líder da minoria na Câmara dos Representantes, John Rhodes, e o senador Barry Goldwater, um dos heróis conservadores do presidente. A reunião durou apenas 23 minutos porque os líderes levavam uma mensagem simples e inegociável: se Nixon não renunciasse, o Congresso apoiaria o impeachment; em seguida, ele seria julgado pelo Senado, condenado e expulso do cargo. Se tivesse sorte, acreditavam, 15 dos 100 senadores continuariam a apoiá-lo.

Coube a Goldwater dar o golpe de misericórdia: se chegasse a tanto, disse a seu velho amigo, ele estaria entre a maioria dos senadores a votar pela condenação. Agora, a renúncia era uma conclusão inevitável.

Quinta-feira, 8 de agosto de 1974

Com o anúncio dado por Ziegler do discurso presidencial em horário nobre, a agonia de Nixon envolveu a Casa Branca, a cidade e a nação. Ainda que trêmulos, os assessores de Nixon valorosamente continuaram em frente, lutando para enfrentar a realidade de que Nixon já caíra.

Um assessor de imprensa referiu-se ao jantar da família Nixon na véspera como “a última ceia”. Numa voz que era quase um sussurro, uma secretária disse: “É como a morte. Você sabe que ela está vindo, mas só se dá conta depois que acontece.”

Um dos mais decididos defensores de Nixon, que o acompanhara desde a desafortunada campanha presidencial de 1960 contra John F. Kennedy, pronunciou a despedida para a tragédia de Richard Nixon. “Quando se pensa”, disse ele dando um murro na mesa, “no que poderíamos ter feito com o (segundo) mandato que ele conseguiu em 1972, você realmente passa mal.”

O último dia de Nixon como presidente começou com uma noite não dormida. Entre 3:58 e 5:15 da madrugada, ele falou duas vezes com Ziegler e quatro vezes com Ray Price, que escrevia seus discursos.

Às 11 horas, encontrou-se com Jerry Ford, um velho amigo desde os tempos na Câmara dos Representantes, no final da década de 1940. Conversaram durante 70 minutos e citaram recordações. Nixon pediu enfaticamente a Ford que mantivesse Henry Kissinger como secretário de Estado; ansiosamente, Ford concordou.

Nixon deu a volta em torno de sua mesa, botou seu braço esquerdo em torno do próximo presidente e desejou-lhe boa sorte. “Surpreendeu-me como ele estava calmo e sereno”, disse-me Ford, já aposentado. “Foi um encontro caloroso… e obviamente emocional. Sua serenidade foi marcante.”

Às 9:01 da noite, a partir do Salão Oval, Nixon pronunciou um discurso de 15 minutos de despedida à nação, reconhecendo que a erosão de sua base política não lhe permitia ser eficaz. “Nunca fui homem de desistir”, disse ele. “Deixar o cargo antes que meu mandato seja completado é abominável para todos os meus instintos. Mas como presidente, devo colocar os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar. O país precisa de um presidente em tempo integral e de um Congresso em tempo integral, especialmente nesta época em que enfrentamos problemas internos e no exterior. Portanto, renunciarei à presidência de forma efetiva ao meio-dia de amanhã.”

Na Praça Lafayette, do outro lado da Avenida Pensilvânia, milhares de pessoas que odiavam Nixon, manifestantes contra a guerra do Vietnã e espectadores de todo o tipo se haviam reunido, na umidade enervante, esperando pelo inevitável e querendo testemunhar um ponto-chave da história. Exatamente no instante em que Nixon anunciou sua renúncia, um grito de júbilo irrompeu da multidão, um urro tão forte e gutural que ecoou pela avenida e pelas janelas trancadas da sala de imprensa. Eu assistia à cena por um aparelho de televisão preto e branco no subsolo, mas o barulho não permitiu ouvir a frase seguinte de Nixon: “O vice-presidente Ford tomará posse como presidente a essa hora, neste lugar.”

Os pelos dos meus braços se arrepiaram. Quarenta anos depois, isso acontece de novo cada vez que repito esta história.

Aquilo que ele chamava “a questão Watergate” foi mencionado de passagem. “Eu diria apenas que, se algumas de minhas decisões foram erradas, e algumas foram erradas, elas foram tomadas no que eu acreditava, à época, ser o melhor interesse da nação”, uma afirmação há muito tempo rejeitada pela maioria dos norte-americanos.

Foi um desempenho eminentemente presidencial, comedido, com jeito de estadista, talvez seu melhor discurso em quase 30 anos como deputado, senador, vice-presidente e presidente.

Sexta-feira, 9 de agosto de 1974

Sua despedida oficial fora pronunciada numa voz firme, sem malícia e sem emoção. Isso não ocorreu na manhã seguinte, quando Nixon reuniu várias centenas de amigos e membros das equipes no Salão Leste para um discurso tão doloroso de assistir que mesmo alguns de seus arqui-inimigos reconheceram uma pena aflitiva por um ser humano lutando para não se deixar envencilhar.

Enquanto muitos, na audiência, choravam abertamente e ele próprio quase se descompunha mais de uma vez, Nixon foi confuso, desarticulado, torturado, desajeitado, piegas – e, à sua maneira, poderoso.

De maneira comovente, homenageou seus pais; primeiro, seu pai, um plantador de limoeiro fracassado, mas um “grande homem” por ter feito seu trabalho apesar das muitas dificuldades. Depois, quase se descompondo, lembrou: “Minha mãe era uma santa.”

Como Nixon conseguiu terminar é algo que nunca saberei. Mas conseguiu, atingindo, às vezes, uma eloquência que nunca conseguira em toda a sua carreira.

Quase no final, ele disse uma frase memorável: “Lembrem-se sempre que os outros os podem odiar, mas os que o odeiam não vencem a menos que você os odeie – e depois se destrua a si próprio.” Palavras nobres, sem dúvida. E no entanto esse era o mesmo cara, pensei naquele momento, que guardava uma “lista de inimigos” de opositores políticos, protestava, em particular, contra negros e judeus e prometia soltar o Imposto de Renda em cima daqueles que estava convencido que o queriam destruir.

Apesar de tudo, foi indiscutivelmente o momento mais memorável da vida pública de Nixon.

Do lado de fora do prédio, Manolo Sánchez, o fiel assistente pessoal de Nixon nascido em Cuba, preparava-se para acompanhar seu chefe rumo ao exílio com sua mulher Fina, assistente de Pat Nixon. “Decidi que é meu dever ir com esse homem porque ele está um pouco triste”, disse-me um Sánchez desnorteado. “Não acredito que isto esteja acontecendo.”

Três minutos depois de sua despedida no Salão Leste, Nixon e sua família encontraram-se com Jerry e Betty Ford. Caminharam por um longo tapete vermelho entre uma guarda de honra militar. As mulheres abraçaram-se e seus maridos deram um aperto de mão. “Dick, lamento isto, você fez um bom trabalho”, disse Ford. “Boa sorte, Jerry”, respondeu o 37º presidente.

Bruscamente, ele subiu a rampa para o avião presidencial, voltando-se para uma saudação formal ao aplauso estrondoso. Depois, quase como num adendo, abriu os braços naquele gesto desafiador que seus adversários liberais mais odiavam: o duplo V da saudação da vitória.

De sua cabine, Nixon viu o tapete vermelho sendo enrolado, outra metáfora do declínio. O helicóptero levantou voo devagar, pendeu para estibordo na direção do Memorial Jefferson, e depois à esquerda para a curta escala até a Base Aérea de Andrews e para o exílio em seu retiro na Casa Pacifica, em San Clemente, Califórnia.

Andando de volta para a sala de imprensa para escrever um texto, passei por uma imagem fascinante: o chefe da segurança de Nixon olhando para o helicóptero que desaparecia, com lágrimas nas bochechas. “Não consegui evitar”, disse-me Dick Keiser anos mais tarde, durante o almoço. “Somos todos treinados para reagir sem emoção, para levar a bala destinada a um cara – independentemente do que pensemos pessoalmente dele. Mas depois de tudo o que passamos, você não podia deixar de se sentir mal por ele.” Atualmente, Keiser está com 80 anos, há muito tempo aposentado do serviço secreto, mas as lembranças daquele momento permanecem. “Você está disposto a passar literalmente sua vida protegendo alguém”, lembrou na semana passada, “e de repente você os vê passar pelo maior sofrimento de suas vidas e não pode fazer nada por eles – eu fiquei impotente. Foi muito emocional para mim”.

Três minutos depois de meio-dia, Jerry Ford foi empossado como o 38º presidente – na mesma plataforma do Salão Leste onde Nixon fizera suas despedidas duas horas antes. Tecnicamente, já era presidente; a carta de renúncia de uma única frase que Nixon enviara ao secretário de Estado Henry Kissinger foi recebida às 11:35.

Gentilmente, Ford tinha separado lugares importantes à mesa para muitos dos principais assessores de Nixon. Ainda me lembro de Al Haig tocando no braço de uma entristecida Rosemary Woods, tentando garantir à mais dedicada e leal assistente de Nixon que o tempo iria curar sua dor. Ela não aceitava; olhava, sem palavras, para o estrado onde seu amado chefe ainda fora o líder do mundo livre naquela manhã.

“Meus caros americanos, nosso longo pesadelo nacional terminou”, tranquilizou Ford. “Nossa Constituição funciona; nossa grande República é um governo de leis, e não de homens. Aqui, é o povo que governa.”

Quando pediu ao país que rezasse por Nixon, a voz de Ford tremeu e seus olhos ficaram lacrimejantes: “Que o nosso ex-presidente, que trouxe a paz a milhões de pessoas, a encontre para si próprio.”

Foram 24 horas extraordinárias, em termos de triunfo e tragédia – triunfo para a resistência da democracia e a força da lei e tragédia para um homem e um presidente.

Ao sair da Casa Branca algumas horas mais tarde daquela sexta-feira monumental, deparei, inesperadamente, com um último drama, um presságio promissor que a saída de Nixon teria finalmente começado um processo regenerador pelo qual o país ansiava tão desesperadamente.

Durante várias semanas, um grupo de manifestantes determinados agitava cartazes no lado norte da Avenida Pensilvânia, exortando os motoristas a “buzinar se acharem que ele é culpado”. Minhas lembranças daquele verão são de entrar e sair da Casa Branca sob uma serenata cacofônica de buzinas. O buzinaço durava horas, dia após dia pela noite adentro.

Agora, com um presidente subitamente desaparecido e seu sucessor prometendo “sanar as feridas internas de Watergate, mais dolorosas e mais venenosas do que qualquer guerra no exterior”, as buzinas haviam finalmente silenciado.

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