Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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MONITOR DA IMPRENSA >

A imprensa e a ‘síndrome da garota branca desaparecida’

02/09/2014 na edição 814

Se um homem negro e uma garota branca forem sequestrados nos EUA, qual deles receberá maior atenção da imprensa? Qual rosto estará na capa de todos os jornais? Existe um termo cunhado por cientistas sociais para classificar o fenômeno da “Síndrome da garota branca desaparecida” (“Missing white girl syndrome”), que serve para caracterizar toda a comoção em torno do desaparecimento de mulheres brancas em detrimento de outros indivíduos do sexo masculino ou de outra raça.

A expressão parece estar em voga novamente após o assassinato de Michael Brown, rapaz negro morto a tiros por um policial no dia 9 de agosto na cidade de Ferguson; o homicídio de Brown voltou a despertar discussões raciais nos EUA, bem como colocou a imprensa na mira dos debates.

Quando agências de notícias publicaram uma foto de Brown vestindo camisa vermelha e fazendo um sinal com os dedos – que alguns alegaram ser o gesto característico de uma gangue e amigos de Brown justificaram ser o sinal da paz – iniciou-se uma manifestação no Twitter com a hashtag #iftheygunnedmedown (“se eu fosse morto a tiros”) para mostrar como a mídia pode distorcer fatos ao escolher um ponto de vista mais agressivo. Mais de 200 mil usuários aderiram ao protesto virtual, fazendo a pergunta: “Se eu fosse morto a tiros, qual foto você utilizaria?”.

O New York Times foi bastante criticado após publicar um perfil de Brown ao lado de um perfil do policial que o matou; Brown foi descrito como alguém que “não era santo” e o policial, branco, ganhou um perfil bem mais amigável. A ombudsman do Times, Margaret Sullivan, desculpou-se pela expressão utilizada pelo jornal para descrever o jovem assassinado e disse que a decisão de colocar os perfis lado a lado, parecendo compará-los, foi inadequada.

Mais negros no crime… pelo menos para a mídia

Em uma pesquisa publicada na terça-feira [26/8] pela organização Media Matters for America, foi constatada uma discrepância entre dados da cobertura televisiva e os dados brutos oficiais da polícia sobre suspeitos negros realmente presos; no caso, os suspeitos de cor negra recebem cobertura desproporcional por seus supostos crimes.

Durante três meses, pesquisadores assistiram a noticiários em quatro canais de TV locais e contabilizaram a percentagem de suspeitos descritos como “afro-americanos” (fosse por exibição de foto ou descrição verbal) nas reportagens sobre crimes ocorridos na cidade de Nova York. Ao todo, 80% dos suspeitos de roubo eram afro-americanos; bem como 73% dos suspeitos de assalto e 68% dos suspeitos de homicídio.

Ao comparar tais números com as estatísticas da polícia de Nova York, no entanto, o resultado foi outro: os afro-americanos apareciam apenas em 55% dos casos de suspeita de roubo; em 49% dos casos de assalto e em 54% dos casos de homicídio.

É importante frisar que a Media Matters comparou dados de quatro anos de prisões realizadas pela polícia de Nova York a apenas três meses de cobertura da imprensa, o que amplia ainda mais este abismo.

Em outro estudo realizado por grupos de radiodifusão de Chicago, uma equipe descobriu que réus negros eram mais propensos a serem mostrados nas reportagens através de fotos do registro da prisão do que por fotografias pessoais comuns. E suspeitos negros são duas vezes mais propensos a serem exibidos no ato da prisão em comparação a suspeitos da cor branca.

Culpa presumida até que se prove o contrário

Muitos concordam que os EUA têm uma longa história de representações midiáticas negativas de afro-americanos. Quando a jovem negra Renisha McBride foi baleada e morta em novembro de 2013 num bairro residencial majoritariamente branco de Detroit, enquanto pedia ajuda após um acidente com seu carro, a imprensa concentrou-se mais nas dúvidas sobre a sanidade de Renisha na ocasião, especulando se ela poderia estar bêbada ou sob efeito de maconha.

Outro caso emblemático foi o de Amadou Diallo, imigrante africano morto pela polícia em 1999 diante do prédio onde residia. Diallo enfiou a mão no bolso para pegar sua carteira e levou nada menos do que 19 tiros.

Em 5 de agosto de 2014, a polícia matou a tiros um negro de 22 anos de idade, John Crawford, numa loja da rede varejista Walmart em Oregon, pois ele estava segurando um rifle… vendido na seção de brinquedos do local.

Robin Kelley, professor de história na Universidade da Califórnia, diz que nada disso é novidade. Desde casos antigos, como o de Diallo, aos recentes, como o de Brown, a imagem dos homens negros continua negativamente estigmatizada. “Tais estereótipos persistem mesmo décadas depois do movimento pelos direitos civis porque muitos americanos acreditam que vivemos numa sociedade pós-racial”, afirma. “O branco tem sua inocência presumida e o negro tem a culpa presumida, necessitando sempre provar o contrário. Estudos da fundação Malcolm X dizem que a cada 28 horas um homem negro morre com as mãos para cima, em plena rendição. Isso não é pouca coisa”, conclui.

Rashad Robinson, diretor executivo do Color of Change, grupo destinado a reforçar a voz política dos negros americanos, diz que imprensa tem a responsabilidade de se aprofundar na questão dos estereótipos e também de desmascará-los. “Ela [a imprensa] determina o tratamento que os negros recebem nos tribunais e por parte da polícia. A imprensa tem a obrigação de pintar um retrato fiel da sociedade”, critica.

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