Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MONITOR DA IMPRENSA > EBOLA NOS EUA

Imprensa acordou tarde para o problema

21/10/2014 na edição 821
Tradução: Pedro Nabuco, edição de Leticia Nunes. Informações de Paul Farhi [“If news media had covered Ebola sooner, could latest outbreak have been contained?”, The Washington Post, 17/10/2014]

Nos últimos dois meses, as notícias sobre o vírus ebola têm dominado a mídia americana. Jornais e emissoras de TV reportam todos os dias sobre o crescimento do número de infectados e as chances dos EUA serem atingidos pelo surto.

A epidemia, no entanto, cresceu e se tornou uma crise de saúde global sem receber muita atenção da mídia do país. No primeiro semestre de 2014, quando os primeiros casos começaram a surgir na África, jornalões como o New York Times e o Washington Post reportavam apenas esporadicamente as notícias sobre o ebola.

Em junho, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou que a epidemia estava piorando drasticamente na África Ocidental, o NYT publicou um editorial e a agência Associated Press escreveu uma matéria de 315 palavras sobre o tema. Porém, nenhuma rede de TV americana reportou sobre o assunto.

Três semanas depois, a organização Médicos Sem Fronteiras alertou em um comunicado que a epidemia estava fora de controle, e a OMS divulgou o aumento do número de vítimas para 467. Desta vez a cobertura foi maior. CNN, CBS e ABC dedicaram tempo para reportar sobre o ebola. Porém, novamente, no decorrer das semanas seguintes a história sumiu do noticiário. Quando o número de mortos superou mil pessoas, apenas o NYT e a rede de rádio pública NPR tinham enviado correspondentes para a África.

O pouco espaço dado pela mídia americana para a epidemia em seu início levantou algumas questões, agora que os EUA contam com alguns casos de ebola: se a cobertura tivesse sido diferente, com os jornais e os canais de TV dando amplo espaço para o surto africano, isso teria feito alguma diferença na luta contra o vírus? Teria a mídia tido capacidade de mobilizar a opinião pública e, principalmente, o governo, fazendo com que houvesse uma resposta imediata ao ebola logo no início quando, supostamente, era mais fácil conter a disseminação do ebola?

A mídia poderia fazer a diferença

De acordo com algumas pessoas envolvidas na luta contra o vírus, uma posição mais atuante da mídia poderia ter feito a diferença. “Nós sentíamos em maio, junho ou no início de julho que tínhamos uma oportunidade de parar a doença. Mas não conseguimos obter a atenção que necessitávamos”, lamenta Ken Isaacs, vice-presidente de programas e relações governamentais na ONG religiosa Samaritan Purse, que está envolvida nos esforços de combate ao ebola. “A mídia tem a capacidade de criar um interesse público através do que decide reportar, e a gravidade dessa doença não foi bem representada na cobertura feita por ela”, ressalta.

De acordo com o editor-executivo do NYT, Dean Baquet, existe um número limitado de pautas que o jornal consegue cobrir. “Nós não conseguimos fazer 100 histórias sobre o ebola quando existem 50 histórias mais importantes a cobrir. É claro que se soubéssemos que a história iria se desenvolver dessa forma, nós a cobriríamos antes”, justifica.

A.Trevor Thrall, diretor do programa de biodefesa da Universidade de George Mason, acredita que o pouco interesse das organizações de notícia americana sobre assuntos africanos influenciou na cobertura inicial do ebola. “Na maioria das vezes, a África é invisível para a mídia americana. Com algumas poucas exceções, a África aparece apenas quando acontece alguma coisa que afeta diretamente os americanos ou quando o governo americano toma alguma ação”.

A cobertura da mídia dos EUA sobre o ebola mudou drasticamente quando surgiram os primeiros casos de cidadãos americanos infectados com o vírus. No dia 27 de julho, quando foi noticiado que uma missionária e um médico americano haviam sido diagnosticados com a doença na Libéria, os veículos de comunicação “acordaram” para a gravidade da epidemia.

Imagens dos pacientes sendo transportados para hospitais dos EUA foram repetidas várias vezes em todos os canais. De acordo com o editor-chefe da área de saúde da ABC, Richard Besser, estes dois primeiros casos fizeram com que os americanos pudessem se relacionar com a história, tornando-a “mais relevante para as vidas das pessoas”.

Uma outra justificativa para a falta de maior interesse inicial da mídia americana foi a demora do governo de Barack Obama para se posicionar em relação ao ebola. Apenas em agosto, após os primeiros casos de infecção de cidadãos americanos, o governo tomou medidas mais drásticas. Em setembro, o presidente solicitou que tropas militares fossem enviadas para a África para ajudar na luta contra o ebola.

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