Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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MONITOR DA IMPRENSA > EBOLA NA ÁFRICA   

Os desafios dos jornalistas na cobertura da epidemia

21/10/2014 na edição 821
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Peter Nkanga [“In Ebola-stricken countries, authorities and journalists should work together”, Comitê para a Proteção dos Jornalistas, 17/10/2014]

O governo da Libéria tem reprimido a imprensa desde a divulgação dos primeiros casos do recente surto de ebola, em março de 2014, de acordo com informações do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). As autoridades querem controlar o modo como o surto é mostrado.

No dia 30 de setembro de 2014, o governo anunciou que iria assumir a emissão de credenciais para jornalistas locais e internacionais que quisessem cobrir a doença no país. O Sindicato da Imprensa da Libéria acusou o governo de ir contra um memorando assinado no início da década de 1990, entre o sindicato e do governo, no qual o sindicato era encarregado do credenciamento de jornalistas individuais, enquanto o governo, através do Ministério da Informação, era responsável pela concessão a empresas de comunicação. O governo, porém, alegou que o memorando não é apoiado por qualquer lei ordinária.

Em 2 de outubro, o governo anunciou novas restrições à imprensa, impedindo que profissionais de saúde dessem declarações a profissionais de mídia e exigindo que todos os jornalistas locais e estrangeiros obtivessem uma aprovação oficial por escrito antes de entrevistar pacientes, ou mesmo de gravar, filmar ou fotografar as instalações de saúde. Jornalistas que não estivesse com a citada permissão poderiam ser presos ou processados.

As autoridades sanitaristas argumentaram que tais restrições se faziam necessárias para proteger a privacidade de pacientes e profissionais de saúde.

Estado de emergência

Ellen Johnson Sirleaf, presidente da Libéria, chegou a enviar uma carta ao Parlamento solicitando mais poderes para restringir aglomerações públicas e a autoridade para se apropriar de propriedades “sem qualquer tipo de pagamento ou processo judicial”. Citando a necessidade de reforçar a luta contra o ebola, a presidente também requereu a suspensão de vários artigos na Constituição liberiana, incluindo a liberdade de expressão e de imprensa, além de direitos trabalhistas e religiosos. Temendo que o Estado acabasse por se transformar num regime totalitário, os parlamentaristas recusaram os pedidos.

O pedido de Ellen veio no encalço de um estado de emergência imposto em 6 de agosto de 2014 a fim de conter a propagação do ebola. De acordo com a OMS, até o momento a Libéria tem a maior quantidade de vítimas fatais, com 2.458 óbitos.

Jornalistas sob risco

Com o ebola tomando as manchetes no mundo todo, as agências de notícias internacionais obviamente têm enviado diversos jornalistas para cobrir os casos na África Ocidental, todavia, isso acaba colocando os profissionais sob risco constante. Ashoka Mukpo, jornalista americano que trabalha como freelancer na emissora NBC News, contraiu a doença em outubro de 2014, e está entre os pelo menos cinco americanos transferidos para os EUA para tratamento.

Além disso, três jornalistas liberianos morreram devido ao ebola: Cassius Saye, cinegrafista da Real TV; Alexander Koko Anderson, colaborador da Liberia Women Democracy Radio; e Yaya Kromah, jornalista freelancer. No entanto, as circunstâncias nas quais os três contraíram a doença são incertas.

Em Serra Leoa, dois jornalistas também morreram vítimas do ebola. Victor Kassim, que trabalhava na emissora católica Radio Maria, morreu em setembro de 2014, assim como sua mulher – que era enfermeira – e seu filho. Mohamed Mwalim Sheriff, jornalista da Eastern Radio, morreu em junho. De acordo com relatos, Sheriff – que havia entrevistado um clérigo muçulmano que cuidara de um paciente – pode ter contraído o vírus durante o enterro deste mesmo paciente.

Informação para conter o pânico

Em meio ao caos provocado pela doença, o rádio tem sido a principal fonte de informação nas comunidades atingidas pelo surto, e os veículos de comunicação têm dedicado horas de sua transmissão para esclarecer ao público sobre o vírus. Muitos jornais também ofereceram espaço gratuitamente para a veiculação de comunicados de saúde.

O governo de Serra Leoa felicitou os jornalistas e reconheceu a contribuição positiva da imprensa para erradicar o ebola, dando continuidade à bem-sucedida parceria. É um contraste gritante, considerando que inicialmente o mesmo governo acusou os jornalistas de espalhar boatos sobre o ebola – antes de a doença sair do controle –, fato que levou à demissão do ministro da Saúde, Miatta Kargbo.

A Associação de Jornalistas da Serra Leoa, com o apoio do governo, agências da ONU e dos EUA, tem treinado jornalistas sobre como reportar responsavelmente sobre o vírus. Mensagens iniciais erroneamente divulgadas, que diziam que o ebola não tinha cura, foram reformuladas para esclarecer que era possível sobreviver buscando ajuda aos sinais dos primeiros sintomas. Tais informes auxiliaram a reduzir as desconfianças do público sobre as intenções do governo de colocar os contaminados em quarentena para que definhassem até a morte.

Entretanto, tais cuidados não impediram que mortes bizarras acontecessem.

Na Guiné, o CPJ relatou as mortes do jornalista Facely Camara, de Liberte FM, e de Molou Cherif e Sidiki Sidibe, funcionários da Rádio Rurale de N’zérékoré, além de cinco outros indivíduos em setembro. Eles foram linchados por uma multidão quando cobriam uma campanha de conscientização de saúde pública nas aldeias. Segundo a BBC, os funcionários de saúde eram acusados, em algumas destas comunidades, de espalhar o ebola. Três semanas depois da morte dos profissionais de mídia, soldados do exército local impediram que uma equipe de jornalistas e advogados obtivesse permissão oficial para investigar os assassinatos. Todos os equipamentos foram apreendidos e, quando devolvidos, estavam sem as imagens e gravações.

Em 13 de outubro de 2014, as autoridades deportaram três jornalistas esportivos e dois funcionários do Ministério dos Esportes de Serra Leoa, os quais estavam na Guiné para cobrir as partidas internacionais de futebol entre os dois países.

Também foram deportados o correspondente da BBC, Mohamed Fajah Barrie, e os jornalistas da Radio Mercury Frank Magnus Ernest Cole e Mohamed Kelfala Sesay, pois a Associação de Futebol de Serra Leoa não tinha incluído seus nomes na lista oficial de delegações que haviam se declarado livres do ebola.

Diferenças de cuidado

Há uma nítida diferença nas medidas de proteção adotadas entre os jornalistas locais e internacionais que cobrem o ebola na África Ocidental. As precauções tomadas pelos meios de comunicação internacionais incluem o fornecimento de sprays desinfetantes, luvas, botas, macacão de plástico e kits anticontaminação. A BBC relatou ter um especialista em biocontaminação trabalhando ao lado de seus jornalistas em Serra Leoa, como parte de sua gestão de risco.

Os jornalistas locais e de veículos com menos recursos, porém, não recebem os mesmos cuidados. Muitas vezes a profilaxia se resume a lavar as mãos com cloro.

O CPJ tem conselhos sobre a cobertura de epidemias em seu Manual de Segurança para Jornalistas, que está disponível online em vários idiomas.

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