Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > ‘CHARLIE HEBDO’ & BAGA

Dois ataques brutais, duas coberturas desiguais

27/01/2015 na edição 835
Tradução e edição: Leticia Nunes. Com informações de Rachael Krishna [“London’s Nigerian Community Protested the Lack of Media Coverage Given to Boko Haram”, Vice UK, 26/1/15] e de Maeve Shearlaw [“Why did the world ignore Boko Haram's Baga attacks?”, The Guardian, 12/1/15]

A comunidade nigeriana que vive em Londres se reuniu no domingo [25/1] para chamar a atenção para as atrocidades cometidas pelo grupo terrorista Boko Haram na Nigéria e protestar contra a falta de cobertura jornalística sobre o tema. Diante da diferença do tratamento da mídia ocidental diante do massacre da cidade de Baga e do atentado ao semanário Charlie Hebdo, em Paris, foi lançada na internet uma campanha de conscientização com as hashtags #NigerianLivesMatter (vidas nigerianas importam) e #JeSuisBaga (Eu sou Baga, em referência à frase “Je Suis Charlie”, em apoio às vítimas do ataque parisiense).

O Boko Haram ganhou as manchetes mundiais em 2014 após o sequestro de quase 300 estudantes em Chibok, o que deu início ao uso da hashtag #BringBackOurGirls (Devolvam nossas meninas) nas redes sociais. O vilarejo de Baga já havia sofrido um ataque com cerca de 200 vítimas. Na primeira semana de janeiro de 2015, o grupo promoveu um novo ataque. Estima-se que o número de vítimas chegue a duas mil.

Talvez por conta da proximidade com o atentado na redação do Charlie Hebdo – e os subsequentes ataques e perseguições policiais em Paris nos dias seguintes –, o massacre em Baga recebeu pouca atenção da mídia. Com o passar do tempo, as críticas começaram a surgir na internet.

Centenas de pessoas se reuniram em Londres para protestar, muitas alertadas sobre a manifestação através das redes sociais. Bwalya Newton, uma das organizadoras do protesto, disse à reportagem da Vice UKque o objetivo não era fazer uma comparação com os ataques de Paris. “Nós estamos com as vítimas do atentado ao Charlie Hebdo”, lembrou ela, citando a coincidência de datas entre os dois acontecimentos. “As pessoas se concentraram em um evento, e varreram o outro para debaixo do tapete”. Em discurso, o ativista Andrew Murray foi mais direto: para ele, a diferença na cobertura é “racista”.

Cobertura difícil

Em artigo no diário britânico The Guardian publicado um dia após a passeata que reuniu dois milhões de pessoas em Paris pela liberdade de expressão e em homenagem às vítimas do atentado ao Charlie Hebdo, a jornalista Maeve Shearlaw questionou o que faz um massacre ter mais valor jornalístico do que outro.

Ela cita as dificuldades da cobertura sobre a Nigéria. “Reportar no norte da Nigéria é sabidamente difícil; jornalistas já foram ameaçados pelo Boko Haram e, ao contrário de Paris, as pessoas estão isoladas e lutam para ter acesso à internet e outros tipos de comunicação. Os ataques do Boko Haram destruíram ainda mais estas conexões, o que significa que não existe uma comunidade online que pode compartilhar notícias, fotos e vídeos à medida que os incidentes acontecem”.

Simon Allison , do site sul-africano Daily Maverick, reconhece as dificuldades na cobertura, mas alerta para a importância do ataque ao vilarejo nigeriano. “Ao tomar o controle sobre Baga, o Boko Haram passa a controlar o estado de Borno. Estes não são apenas terroristas: eles estão se tornando um estado de fato”. Segundo Allison, “há massacres e massacres”, e, apesar de estarmos no século 21, “vidas africanas ainda têm menos valor jornalístico – e, portanto, menos valor – do que vidas ocidentais”.

O jornalista, no entanto, não culpa apenas a mídia ocidental por este cenário. O massacre em Baga também teve pouca cobertura na África. Não se viu líderes africanos condenando o ataque, ou se estimulou um movimento de solidariedade às vítimas, o que, para ele, é um símbolo de como os africanos negligenciam suas próprias tragédias.

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