Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MONITOR DA IMPRENSA > CONFLITO DE INTERESSES

Relação entre médicos e indústria farmacêutica pode afetar jornalismo

27/01/2015 na edição 835
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Paul D. Thacker [“Database may uncover conflicts of interest for TV doctors”, Columbia Journalism Review, 23/1/15]

O quanto a relação entre médicos e a indústria farmacêutica pode prejudicar o jornalismo? Imensamente, na opinião do jornalista Paul D. Thacker, que abordou o assunto em artigopara a Columbia Journalist Review. Thacker é um especialista em questões de integridade científica e foi a fundo na investigação dos repasses de verbas de laboratórios e fabricantes de equipamentos médicos a profissionais de saúde nos Estados Unidos.

A questão começou quando, em setembro de 2014, o governo federal americano lançou um site com um banco de dados publicamente pesquisável, a fim de detalhar como as empresas farmacêuticas e fornecedoras de equipamentos médicos remuneravam profissionais da área de saúde por pesquisas, consultorias, palestras e participações em eventos.

O objetivo da medida legal era simplesmente evitar conflitos de interesses; num exemplo prático, qualquer um poderia verificar se seu médico havia receitado determinado medicamento por confiar em seus princípios ativos ou se seria apenas uma influência devido a gratificações do laboratório. O grande problema é que o lançamento da página revelou relações muito mais sórdidas, nas quais médicos tinham até almoços e jantares bancados por gigantes da indústria farmacêutica.

O assunto, obviamente, tornou-se um prato cheio para jornalistas americanos, que se puseram a vasculhar os dados publicados e realizaram uma infinidade de reportagens sobre médicos e seus acordos lucrativos.

Respingos no jornalismo

Em seu artigo, Thacker suscitou uma questão que vai muito além do interesse jornalístico em divulgar esquemas de corrupção no sistema de saúde americano. Ele diz que o referido site pode acabar revelando conflitos de interesse no próprio jornalismo.

Sendo mais específico, ele observou que muitos dos médicos presentes no polêmico banco de dados oferecem consultoria regular em canais de TV como Fox News, ABC News e CBS News. Dentre eles, estariam rostos conhecidos pelos telespectadores norte-americanos: Jonathan LaPook, professor de medicina na Universidade de Nova York e correspondente do programa CBS Evening News; Jennifer Ashton, correspondente da ABC News e habitué no programa Good Morning America; e Keith Ablow, da Fox News.

Questionado, Jonathan La Pook respondeu que sua política é de não aceitar qualquer tipo de gratificação, seja como jornalista ou como médico. Ele disse que os almoços aos quais compareceu foram organizados pelo departamento do hospital onde atua. A CBS News, por sua vez, não divulgou sua política interna e disse apenas que considera o caso encerrado.

Jennifer Ashton declarou que, às vezes, recebe honorários para discursar em eventos, mas que sempre se recusou a endossar produtos.

Embora Keith Ablow não tenha se pronunciado, em 2011 ele causou polêmica ao falar sobre a influência da indústria na prática da medicina. À época, ele se desligou da Associação Psiquiátrica Americana (APA), questionando a credibilidade ética da mesma. Ablow chegou a dizer abertamente que a APA cedia às investidas das empresas farmacêuticas e que este era o grande problema do sistema de saúde americano.

Venda de influência

Thacker frisou que médicos que realizam consultorias na TV não devem de forma alguma influenciar o público com base em gratificações de laboratórios. “O código de ética da Sociedade de Jornalistas Profissionais afirma que profissionais de imprensa devem recusar ‘presentes, favores, honorários, viagens gratuitas e tratamento especial, e evitar atividades política e outras atividades externas que possam comprometer a integridade ou imparcialidade, ou que possam prejudicar a credibilidade’”, citou.

Ele reiterou, no entanto, que esta sempre foi uma prática comum e que sempre funcionou como um modo de comprar influência de médicos badalados na TV. Resta saber se, agora, ela vai resistir ao escrutínio do público.

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