Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

MONITOR DA IMPRENSA > A POLÊMICA DA PÁGINA 3

‘The Sun’ recua em decisão de eliminar fotos de nudez

27/01/2015 na edição 835
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Justin Moyer [“No more naked women on Page 3 of the Sun, tabloid owned by Rupert Murdoch”, The Washington Post, 20/1/15], Vic Giles [“The bare facts about the origins of Page 3”, The Guardian, 21/1/15], Ben Quinn e Lisa O’Carroll [“The Sun brings back topless women”, The Guardian, 22/1/15], Marina Hyde [“No more t*ts in the Sun – a campaign we can all get

Os leitores que compraram a edição de 19/1 do tabloide britânico The Sun, de propriedade de Rupert Murdoch, tiveram uma surpresa. Após mais de quatro décadas, o jornal não publicou fotos de mulheres de topless em sua infame Página 3. A decisão, no entanto, não durou muito. Três dias depois, o jornal retornou com as fotos sensuais.

A notícia foi previamente anunciada por um tuíte discretode Dylan Sharpe, relações públicas do Sun, e inicialmente não revelou muito do que estava por vir: “Amanhã a página 3 do @TheSunNewspaper estará no mesmo lugar de sempre – entre a página 2 e a página 4”.

Provocação?

Não se sabe ainda o que o Sun pretende em relação à Página 3, nem por quê houve a suspensão temporária das fotos. Aparentemente tratou-se apenas de uma provocação às diversas campanhas arquitetadas para acabar com o editorial contendo fotos sensuais de mulheres, muito embora em 2013, durante uma troca de tuítes com o editor David Dinsmoreem, Murdoch já tivesse sinalizado que a Página 3 era “antiquada” e que estaria pensando em mudanças. (Antes disso, o Sun já havia optado por remover as fotos da Página 3 das edições de fim de semana.)

O retorno das fotos, após apenas três dias de intervalo, foi recebido com ironia por aqueles que se mostram contrários à decisão do tabloide de publicar esse tipo de material. Muitos dizem que o Sun deveria se adequar a um tempo em que se defende a proteção das mulheres submetidas a situações degradantes como humilhação sexual e estupro. “Num mundo que contempla a cultura do estupro conforme brotam alegações de crimes sexuais antigos que estão destruindo a carreira do [comediante americano] Bill Cosby, a Página 3 já não parece se encaixar mais”, comentou o jornalista Justin Moyer em artigo para o Washington Post.

Ousadia que deu certo

O velho estilo da Página 3 iniciou-se em 1970, quando o então editor Larry Lamb (morto em 2000) assumiu um risco. Num período em que Murdoch estava fora do país, ele simplesmente publicou fotos de topless de uma modelo alemã de 20 anos de idade. A circulação do tabloide aumentou de 1,5 milhão para 2,1 milhões de exemplares, de acordo com a BBC, tornando-se, assim, o jornal mais vendido da Grã-Bretanha. As vendas bem-sucedidas, no entanto, não pouparam o The Sun da polêmica. Durante muitos anos o jornal foi alvo de conservadores, feministas e políticos devido às fotos ousadas. Certa vez, Lamb escreveu o seguinte sobre a famigerada página: “Eu ajudei a tornar a Página 3 parte da linguagem. Mas, em muitas vertentes, agora eu desejo que não o tivesse feito”.

O ex-diretor de arte do Sun, Vic Giles, por sua vez, diz que a história foi um pouco diferente. Ele conta que um dia apresentou aos editores um desenho contendo nudez para figurar na Página 3. Segundo ele, Larry Lamb foi contra – alegou que eles perderiam leitores –, ao passo que Murdoch foi a favor e aprovou a impressão. Giles diz que a partir daí a circulação do jornal foi só aumentando… e o desfecho todos já conhecem.

Crítica do puritanismo

Em artigo para o Guardian, a jornalista Marina Hyde criticou o puritanismo usando de sarcasmo e disse que agora era hora de iniciar a campanha para o fim do uso do asterisco em palavras de cunho sexual, ironizando o próprio Sun, que sempre censura a palavra “tits” (“tetas”) em suas páginas, ainda que esta venha ao lado de uma foto contendo topless. “Você pode ver mamas no Sun, mas não pode ver a palavra ‘mamas’. A ironia fica obviamente ainda mais deliciosa quando a palavra aparece na Página 3, a poucos centímetros de distância de um seio de verdade”, escreveu ela.

O tabloide segue os preceitos das famosas “sete palavras que não podem ser ditas na TV americana”. Ficou curioso? São elas: shit (“merda”), piss (“mijo”, mas também pode encaixar-se num contexto como “Estou ‘puto’ da vida”); fuck (foda/foder); cunt (linguajar vulgar para vagina); cocksucker (algo como “chupador de pau”); motherfucker (filho da puta) e, por fim, a polêmica tits (tetas/peitos). O conceito nasceu a partir de um monólogo de 1972 de um comediante americano, George Carlin, que listou as referidas palavras. Carlin zombava porque todas elas eram ditas livremente na rua, no trabalho, na escola, mas nunca podiam ser ditas na TV a fim de “não chocar o distinto público norte-americano”.

Em artigo para a Vice, o diretor associado Harry Cheadle afirmou que parece haver algo um tanto desagradável e imaturo na “isca” jogada pelo Sun. “O tabloide estava reconhecendo que tal conteúdo havia se tornado controverso e que as pessoas agora haviam descoberto que ele era grosseiro, misógino ou simplesmente falho, e então mandaram um recado ao seu público: dane-se”. Para Cheadle, toda a discussão em torno da Página 3 é um exagero e, em pleno 2015 – quando se pode assistir a pornografia pelo celular –, é cômico alguém ainda se empolgar com nudez em uma folha de jornal.

A colunista Gaby Hinsliff , do Guardian, disse que discussão não tem a ver com o caráter ofensivo da exposição de seios, se o material é ofensivo ou de mau gosto, ou mesmo com a expressão de libertação da sexualidade feminina. Ela diz que, na verdade, isto é apenas o Sun informando que não vai acatar as ordens de ninguém que tentar lhe dizer o que fazer.

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