Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > JORNALISMO & POLÍTICA

A complexa relação entre Obama e a imprensa americana

10/03/2015 na edição 841
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Susan Milligan [“The president and the press”, Columbia Journalism Review, 6/3/15]

Considerado hipersensível a respeito da própria imagem, o governo do presidente dos EUA, Barack Obama, não tem exatamente o melhor dos relacionamentos com a imprensa. A agência Associated Press já chegou a pedir esforços para ampliar a cobertura independente na Casa Branca e já protestou contra a proibição rotineira de fotógrafos em eventos oficiais do presidente.

Obama, por sua vez, não poupa críticas à imprensa quando tem oportunidade, acusando-a de espalhar negatividade e de “se concentrar demais em falsos escândalos em vez de focar no progresso do país”.

Além disso, o governo do democrata já foi considerado um dos menos amigáveis para com a imprensa, e também foi acusado de distribuir furos para jornalistas escolhidos a dedo.

O líder mais distante da imprensa em meio século

Em artigo para a Columbia Journalism Review, a jornalista Susan Milligan faz uma análise do tão conturbado relacionamento entre o governo Obama e a imprensa. Susan é entendida no assunto: baseada em Washington DC, foi responsável pela cobertura da Casa Branca para o New York Daily News na década de 90, e, entre 2009 e 2010, para o Boston Globe.

Em geral, ela alimenta as já usuais queixas e diz que sente um abismo entre a imprensa e o chefe de Estado. Susan diz que normalmente as respostas de Obama em conferências são longas, o que por sua vez deixa pouquíssimo tempo para que jornalistas com acesso já limitado ao presidente façam mais perguntas. Ela também reclama que a Casa Branca quase nunca veicula notícias de fato, uma vez que faz uso de ferramentas que lhe permitem lançar e gerenciar notícias seguindo a própria agenda e condições. Reforçando as críticas gerais, Susan crê que a relação entre o presidente e a imprensa é a mais distante dos últimos 50 anos.

A autora cita outros presidentes que tiveram uma relação muito mais cordial com os jornalistas. John Kennedy, por exemplo, realizava conferências frequentes com a imprensa. Jimmy Carter jogava softball com jornalistas. Bill Clinton chegou a participar de um jantar não-oficial com jornalistas afro-americanos na casa do então correspondente da Casa Branca, William Douglas.

A imprensa, por sua vez, fica como um refém, sempre a mercê das exigências modernas para criar uma reportagem digna de um clique ou de uma citação que possa figurar no Twitter. Com isso, a grande tendência dos jornalistas acaba sendo fazer perguntas mais para se conseguir um deslize ou uma declaração bombástica, e nunca para abordar questões de responsabilidade de longo prazo. De acordo com Susan, o mote hoje é fazer perguntas não para obter informações, mas para obter uma reação. E ela diz que tal estratégia raramente é bem-sucedida.

Acesso limitado

Um estudo pago por um fundo criado em memória à ex-correspondente da Casa Branca Helen Thomas fez uma análise de todos os contatos que Obama teve com a imprensa em 2014, bem como uma avaliação de briefings diários, além de ter entrevistado mais de uma dúzia de correspondentes, entre atuais e antigos, e secretários de imprensa da Casa Branca. O resultado do estudo revelou uma Casa Branca determinada a esconder seu funcionamento da imprensa e consequentemente do público, deixando claro que a mídia responsável pela cobertura da rotina do Executivo tem recebido pouco acesso a como são tomadas as decisões presidenciais.

De acordo com Mark Knoller, veterano correspondente da Casa Branca pela CBS News, em 2014 Obama teve 44 encontros com a imprensa, incluindo cinco coletivas formais e 20 coletivas de imprensa conjuntas com líderes estrangeiros; o restante se resumiu a entrevistas com perguntas e respostas curtas após pronunciamentos. Knoller não incluiu nos registros as entrevistas individuais com repórteres locais e nacionais. Das conferências de imprensa formais, poucas renderam notícia (uma exceção foi a declaração de Obama de que a Sony não deveria ter cancelado o lançamento do filme A Entrevista).

George Condon, correspondente da Casa Branca pelo National Journal que atualmente trabalha num livro sobre a Associação de Correspondentes da Casa Branca, diz que Obama se atém fielmente a uma lista de repórteres que são convidados para suas coletivas. O resultado disto é que ninguém se arrisca a fazer perguntas mais elaboradas ou mesmo incômodas.

Mesmo momentos espontâneos são ensaiados. Conta-se que, durante uma viagem ao exterior em 2014, o presidente foi ao fundo do avião para fazer uma declaração em off aos jornalistas presentes. Brincando, ele teria dito que sua política externa era “não fazer nenhuma merda”. Repórteres ficaram honrados com a confiança, porém a mesma frase foi repetida mais tarde por funcionários do governo a jornalistas do Los Angeles Times, do Chicago Tribune e do New York Times.

Peter Baker, correspondente da Casa Branca para oNew York Times, queixa-se, por exemplo, de saber muito pouco a respeito do presidente, muito embora o tenha coberto durante boa parte de seu mandato.

Quando a tecnologia é um obstáculo

Susan lembra que a frustração da imprensa com o presidente pode ser muito maior porque os tempos mudaram. Hoje, com a escalada da tecnologia, das redes sociais e de uma capacidade cada vez mais sofisticada de identificar e atingir determinados nichos de audiência, é decepcionante ver um presidente tão distante. Os presidentes anteriores sempre marcavam reuniões ou concediam exclusivas para anunciar novas políticas ou fazer pronunciamentos. Embora a Casa Branca seja a primeira administração a manter uma operação de vídeo para relatar sua rotina, isto não necessariamente significa que exista mais acesso ao que acontece lá dentro. A queixa de Susan é que a administração Obama escolhe demais o que divulga, e com isso acaba ignorando a imprensa.

Outra queixa diz respeito à relação da equipe do presidente com as mídias sociais. Quando Obama anunciou a proteção da Baía de Bristol, no Alasca, a fim de controlar a exploração local de petróleo, ele optou por se pronunciar diretamente ao público, divulgando um vídeo na página da Casa Branca no Facebook – isso significa que os jornalistas responsáveis pela cobertura da Casa Branca perderam o furo. O gesto foi visto com simpatia pelos eleitores; no entanto, não muito bem recebido pela imprensa. Esta postura não apenas tira o poder de jornalistas de levantarem questionamentos diretos ao presidente (fato que aconteceria em uma coletiva de imprensa), como limita a cobertura ao simples acompanhamento de redes sociais. Mais importante do que seguir os passos do presidente – fisicamente falando – é segui-lo no Twitter.

Ann Compton, ex-correspondente da ABC que se aposentou após cobrir a Casa Branca durante quatro décadas, não se empolga nem um pouco com este novo formato. “Não é saudável. Não é informativo para o povo americano. Nossa atenção fica voltada a 140 caracteres”, declarou ela. “Agora analisamos nosso presidente através de frases de efeito, de palavrinhas e pequenas frases que cabem num tuíte”.

A TV como espetáculo

A televisão, que por muito tempo influenciou o comportamento social e estratégico da Casa Branca, também acabou por acrescentar um componente teatral não só às coletivas de imprensa presidenciais no horários nobre, mas também aos briefings diários. Segundo Ann Compton, é comum que cinco ou seis redes de TV façam praticamente a mesma pergunta, uma depois da outra, às vezes simplesmente para que seu repórter possa aparecer na edição fazendo aquela pergunta considerada polêmica. Nada mais do que um espetáculo.

Diz-se que Mike McCurry, ex-secretário de imprensa de Bill Clinton, ofereceu um mea culpa por ter sido o primeiro a permitir a cobertura televisiva integral e ao vivo dos briefings de imprensa, visto que as sessões ganharam um caráter de entretenimento durante o escândalo com a ex-estagiária Monica Lewinsky. Na época, o caso levou a audiência das emissoras de TV a cabo americanas às alturas. McCurry acredita que, a partir daí, a TV a cabo ficou viciada em colocar briefings no ar e tudo se transformou num espetáculo teatral, o que por sua vez fez com que jornalistas sérios parassem de comparecer.

Presidente escorregadio

Os pools de imprensa também estão cada vez mais raros. (O pool se difere de uma coletiva de imprensa por não necessariamente acomodar todos os jornalistas interessados na cobertura da vida do presidente, que costumam ser muitos. Como é impossível oferecer credenciais a tanta gente, os poucos profissionais participantes escrevem suas reportagens ou gravam o evento e depois disponibilizam o material aos colegas de outros veículos.)

Durante administrações anteriores, os pools costumavam acontecer várias vezes por semana. Agora são raros e, quando acontecem, os repórteres não obtêm respostas dignas de notícia, muito embora não por falta de tentativa. Uma revisão dos pools de 2014 revelam um Obama escorregadio, que em geral foge de perguntas e promete anúncios posteriores ou que demonstra um aborrecimento jocoso com a persistência da imprensa.

Embora o presidente respeite a imprensa e compreenda o importante papel que ela desempenha, pelo menos do ponto de vista institucional, ele simplesmente não parece entender ou concordar com a maneira como os repórteres trabalham.

A ironia disso tudo é que os jornalistas oficiais da Casa Branca não se cansam de dizer que a imprensa atual é a mais livre do mundo, que estamos numa era da informação onde há acesso a tudo e que os americanos vivem em uma nação onde uma imprensa agressiva e irrestrita é considerada essencial para a democracia.

A pergunta que fica é: se a distância entre o presidente e a imprensa está se tornando tão institucionalizada, por que se preocupar tentando eliminá-la?

Correspondentes dizem que, embora haja uma frustração por tentar ultrapassar tais limites, há um valor real em ter a oportunidade de ver o presidente em ação, seja em uma entrevista, em uma coletiva formal ou em uma reunião com um líder estrangeiro. E o que parece ser um contato superficial com o presidente pode ajudar a imprensa a avaliar seu estado de espírito.

Christi Parsons, colunista do Los Angeles Times e presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca, diz que a simples onipresença do corpo de imprensa evita que a Casa Branca esconda segredos importantes, tais como o estado de saúde do presidente. Ela reconhece que o acesso é limitado, mas que “não se pode subestimar a importância de uma imprensa vigorosa e independente capaz de fornecer esta visão em tempo integral”.

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