Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > EM BUSCA DE MOHAMMED EMWAZI

A mídia e a síndrome do ‘pobre menino rico’

10/03/2015 na edição 841
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Jasper Jackson [“Mohammed Emwazi: hasty media assumptions damage debate”, The Guardian, 4/3/15], da Press Association [“BBC defends Mohammed Emwazi coverage”, The Guardian, 5/3/15] e de Roy Greenslade [“Is it wrong to publish this photograph of Mohammed Emwazi?”, The Guardian, 3/3/15]

A revelação da identidade do terrorista conhecido como “John Jihadi”, o assassino com sotaque britânico que aparece nos vídeos do Estado Islâmico degolando suas vítimas, provocou uma série de análises e avaliações por parte da imprensa. Foi o Washington Post quem declarou ter identificado “John Jihadi” como Mohammed Emwazi, um londrino de 26 anos. Curiosamente, a situação econômica e origem social de Emwazi chamou mais atenção do que o furo em si.

Ao passo que o Washington Post o caracterizou como um jovem “rico”, o New York Post o descreveu como um “jovem com curso superior, mimado, que adorava roupas extravagantes e cresceu na classe média de Londres”. O britânico Daily Telegraph também o descreveu como sendo de classe média, porém morador de um “belo e abastado bairro de Londres”.

A Reuters e a Fox News sugeriram que ele vinha de uma família relativamente rica, enquanto a CNN utilizou a reportagem para criticar a sugestão do governo de Barack Obama de que a privação econômica poderia dar origem ao extremismo.

O site Pando escreveu um artigo inteiro em torno da dúvida: “por que um garoto rico sairia de casa para cometer barbáries?”.

Análises equivocadas

Em artigo para o diário britânico The Guardian, o jornalista Jasper Jackson apontou que tal tipo de análise se revela um completo fracasso na tentativa de compreender as motivações de terroristas. “Na corrida para obter o máximo de informações sobre Emwazi, os jornais, como sempre, ficam sob o risco de mais enganar do que informar os leitores”, criticou. Jackson narra que ele mesmo cresceu muito perto das regiões onde Emwazi viveu, e mais ou menos na mesma época, pois é apenas três anos mais velho do que o jovem extremista do ISIS.

Ele relata que Londres é uma colcha de retalhos é que é perfeitamente possível haver extrema riqueza ao lado de conjuntos habitacionais carentes e ruas pobres. Jackson conta que frequentou a North Westminster Community School, onde também estudaram quatro dos jovens apontados como companheiros de Emwazi no grupo radical, incluindo Mohammed Sakr, que foi morto durante um ataque de drones na Somália em 2012.

O jornalista alerta que saber onde Emwazi cresceu ou estudou não vai revelar com certeza se ele estava em desvantagem social, e que uma breve conferida nos preços das casas da região oferece ainda menos motivos para concluir que ele era “bem de vida”.

OWashington Post justificou sua cobertura alegando que se baseou em relatos de amigos e pessoas próximas a Emwazi para descrevê-lo como um jovem rico. No entanto, lembrou Jackson, outros veículos parecem ter preenchido as lacunas fazendo uso do Google Maps, de anúncios de captadores imobiliários e do filme Um lugar chamado Notting Hill. Ele diz que isto é compreensível visto que parte do conhecimento sobre Londres se perde quando a reportagem é publicada em território americano. E diz que a correria em busca da notícia bombástica causa esse tipo de confusão; quando a história vazou, o próprio Washington Post teve de interromper a apuração e publicá-la rapidamente para não perder o furo. Com isso, não teve tempo de descobrir, por exemplo, que o pai ausente de Emwazi era motorista de táxi.

A BBC precisou se explicar depois que alguns telespectadores acusaram-na de “glamourizar” a causa de Emwazi. Um porta-voz da rede declarou que o fato era mundialmente significativo e que a identificação das origens do terrorista “era uma luz importante sobre a história”.

O professor de jornalismo Roy Greenslade, colunista do Guardian, disse que chegou a receber um recado de um amigo parisiense pedindo que o jornal parasse de transformar Emwazi numa estrela e de frisar que ele era um garoto “descolado”, pois não gostaria de ver jovens muçulmanos se identificando com o perfil de um “monstro”. Diante do apelo, Greenslade levantou uma questão que vale para todos os que acompanham o caso: as pessoas realmente acreditam que a publicação de fotos de um assassino do ISIS vai transformá-lo em algum tipo de modelo para a sociedade?

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