Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > COMPORTAMENTO

Quando as redes sociais atrapalham a educação sexual

10/03/2015 na edição 841
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Amber Madison [“When Social-Media Companies Censor Sex Education”, The Atlantic, 4/3/15]

Quando uma campanha de prevenção à gravidez entre adolescentes foi lançada pela Bedsider – uma rede de apoio ao controle da natalidade – nos EUA, há três anos, o objetivo era difundir a imagem da “adolescente bacana”, aquela ciente de sua saúde sexual, e assim divulgar informações valiosas sobre métodos contraceptivos.

Em vez disso, a organização quase teve sua conta bloqueada pelo Twitter. Embora o perfil da Bedsider fosse notório na rede social, reunindo mais 50 mil seguidores, ela foi proibida de promover seus tuítes. O motivo? Teria violado a política de publicidade do Twitter.

Políticas de uso

De fato, o Twitter proíbe a promoção de conteúdo adulto ou de produtos/serviços sexuais. Muito embora não censure campanhas de conscientização sobre DSTs e contraceptivos, exige que o conteúdo das postagens não contenha teor sexual nem links voltados para sites com conteúdo sexual.

Sendo assim, quando um tuíte patrocinado levou a um artigo sobre preservativos na homepage da Bedsider, a conta recebeu uma notificação oficial. A culpa não era do conteúdo do tuíte em si, mas do fato de o link nele contido levar a um site com “conteúdo sexual”.

Esta não foi a primeira derrapada do Twitter, que também já proibiu anúncios da Lucky Bloke, um varejista de preservativos que havia iniciado uma campanha para ensinar às pessoas a vestir os preservativos de forma correta. Em resposta, Melissa White, CEO da empresa, iniciou uma petição e uma campanha com a hashtag #Tweet4Condoms, a qual foi apoiada por milhares de pessoas e empresas. O Twitter, no entanto, enviou uma única resposta a Melissa, contendo um texto que detalhava suas políticas de uso.

Desserviço

Em artigo no site da revista americana The Atlantic, a terapeuta e colunista sexual Amber Madison critica a limitação à qual a Bedsider ficará exposta sempre que precisar falar sobre sexo seguro. Lawrence Swiader, diretor da Bedsider, reiterou que a posição da organização não é das mais confortáveis. “Temos de ser capazes de falar sobre sexo de uma forma honesta: algo que é divertido, engraçado, sensual, estranho”, disse ele. “Como podemos competir com todas as mensagens não tão saudáveis sobre sexo se tivermos de nos comunicar como médicos e mostrar imagens obsoletas de pessoas que parecem estar comprando seguro de carro?”.

Amber lembra que a foto da socialite Kim Kardashian com nádegas expostas – aquela destinada exatamente a “derrubar a Internet” – circulou livremente nas redes sociais (inclusive no Twitter) e que fazer com que organizações de saúde sexual entrem no páreo por atenção com slogans mais adequados a livros do ensino médio é desleal. Ela acredita que saúde sexual, como qualquer outro produto ou serviço, é algo que tem de ser vendido. Amber enxerga a política “antissexual” do Twitter como um dos muitos obstáculos a dificultar a vida da comunidade ligada à saúde sexual.

Mas o Twitter não é um caso isolado. A Bedsider também teve seus percalços com o Facebook, ao publicar um anúncio sobre saúde íntima cuja premissa era “Você fica tão sexy quando está bem”. O mesmo foi rejeitado por “violar as diretrizes de publicidade do Facebook, usando de linguagem profana, vulgar, ameaçadora ou geradora de intenso feedback negativo”.

E o YouTube, por exemplo, já removeu de sua plataforma quatro vídeos educativos sobre saúde feminina produzidos pela YTH (sigla em inglês que une juventude, tecnologia e saúde), organização centrada na promoção da saúde reprodutiva de jovens através da tecnologia. Embora à época até mesmo um advogado tenha sido contratado para entrar com um recurso pela publicação dos vídeos, a verdade é que o YouTube só cedeu porque alguém de seu departamento de políticas era ex-colega de faculdade do advogado da YTH – e assim a negociação fluiu.

Textos vagos

O grande problema é que algumas políticas de sites são tão vagas a respeito de conteúdo sexual que, muitas vezes, é complicado para as organizações cumprirem suas diretrizes.

Mas mesmo as políticas no melhor estilo “preto no branco” podem abrir margem para interpretações deturpadas. Quando uma empresa começou a vender kits para aulas de educação sexual utilizando o Google Checkout, acabou banida e foi informada de que o Google não permitia a venda de brinquedos sexuais. Confusa, a organização questionou em qual âmbito o kit era considerado um brinquedo sexual, e descobriu que o representante do Google estava se referindo ao pênis de madeira utilizado para se demonstrar como se colocar um preservativo. Embora a organização tivesse argumentado amplamente que o objeto era totalmente inadequado para penetração e que por isto não era um brinquedo sexual, o Google não cedeu.

Julgamentos ambiguos

Amy lembra em seu artigo que existe um segundo problema quando se trata de sexo e mídias sociais: a inconsistência nos julgamentos. Ao passo que a Bedsider não pode linkar seus tuítes ao seu site, a revista Playboy não tem problema algum em sua conta, muito embora publique fotos com nudez parcial e textos altamente sugestivos nada voltados para a saúde.

“Twitter, Facebook… todas estas plataformas com essas políticas rígidas… é como se não soubessem que seus sites estão absolutamente inundados de conteúdo sexual”, criticou Deb Levine, fundadora da YTH.

Susan Gilbert, co-diretora da National Coalition for Sexual Health (“Coalizão Nacional para a Saúde Sexual), concorda e acha curioso, pois o conteúdo sexual está literalmente em todos os lugares, desde anúncios sugestivos a séries de TV. “E mesmo assim temos acesso limitado a informações críveis sobre saúde sexual e ao diálogo aberto que pode nos ajudar a nos manter saudáveis nesse sentido”, disse ela.

Amy frisa que as políticas rígidas das mídias sociais não seriam um problema caso adolescentes (e adultos) não utilizassem a tecnologia como uma de suas principais fontes de informação sobre saúde sexual. A verdade é que 89% dos adolescentes americanos alegam aprender sobre saúde sexual na internet. E foi exatamente por isso que os centros para controle e prevenção de doenças se voltaram para as mídias sociais a fim de aumentar a consciência a respeito de doenças sexualmente transmissíveis.

Deb Levine diz que seu único desejo é que as pessoas nos altos cargos do Twitter, Facebook, YouTube, Pinterest, Yahoo, e todas as outras plataformas, reúnam-se com membros de organizações voltadas para a saúde sexual e trabalhem para alterar estas políticas. Ela diz que ficaria encantada caso houvesse abertura para tal.

Por que então não criar uma política mais flexível? Muitas empresas temem ofender seus usuários – e com isto enfrentar uma série de processos, reclamações e abandono de contas. A saúde financeira continua sendo prioridade.

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