Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > A IGNORÂNCIA É UMA BENÇÃO?

Escritor experimenta um mês sem notícias

16/03/2015 na edição 842
Tradução: Pedro Nabuco, edição de Leticia Nunes. Informações de Jesse Armstrong [“Media blackout: would I be happier if I didn't read the news?”, The Guardian, 14/3/15]

O escritor britânico Jesse Armstrong se define como um “viciado” em notícias. Pela manhã, ele lê o Guardian, no decorrer do dia escuta a rádio e, durante o trabalho, enquanto escreve um parágrafo, não consegue ficar alguns minutos sem dar uma checada nos sites da BBC e do Guardian e no Twitter. Exatamente por ser um consumidor assíduo de veículos jornalísticos, ele decidiu enfrentar um desafio: ficar um mês sem ler nenhuma notícia.

“E se passarem uma nova lei e você acabar sendo preso por não saber? E se o mundo for acabar em dois dias? E se a terceira guerra mundial começar?”, perguntou sua filha quando soube do experimento. Assim, algumas regras foram impostas. Caso uma lei que criminalizasse ações que ele habitualmente realizasse, uma terceira guerra mundial começasse ou um cometa fosse colidir com a terra, a família iria se reunir e decidir se o informava ou não.

Antes de começar, Armstrong retirou os sites de notícias que costumava frequentar da opção “favoritos”. Decidiu também que deixaria de entrar no Twitter e iria parar de acompanhar esporte, já que aquilo também era notícia. “Esporte é notícia para pessoas que não conseguem enfrentar as notícias mas querem notícias na torneira”, define.

A última notícia que o escritor leu foi sobre o assassinato do piloto jordaniano Muath al-Kasaesbeh pelo grupo terrorista Estado Islâmico. “Eu sinto um alívio imediato que eu não terei que ler o jornal pela manhã”, conta Armstrong.

Sem as notícias para checar durante o intervalo do trabalho, o escritor afirma ter se sentido perdido nos primeiros dias. “Eu descubro que o que eu mais faço, na maioria dos dias, não é trabalhar, mas me manter atualizado dos eventos ao redor do mundo. É ao mesmo tempo um trabalho e um hobbie. Talvez, se eu contar as horas, é o meu principal trabalho e hobbie”.

“Começo a me sentir mais feliz”

No decorrer do desafio, Armstrong continuou a pensar nas notícias que tinha deixado de lado e não sabia como andavam, desde temas como política e economia até o resultado de partidas de futebol. De acordo com o escritor, o medo e a curiosidade sobre o que ele estava perdendo rondavam a sua mente.

Porém, aos poucos, a falta de notícias começou a fazer com que ele se sentisse mais leve. “Aos poucos, eu começo a me sentir mais feliz. Eu não estou mais levando todas essas questões. Numa manhã de trabalho, eu vejo os meus e-mails e, quando termino, eu não tenho nenhuma notícia para checar”.

De acordo com Armstrong, o que ele mais sentiu falta foram os jornais do final de semana, quando as edições são maiores. O Twitter foi o que menos lhe fez falta. Eram durante as suas viagens de metrô que ocorriam algumas das dificuldades do desafio: evitar ler os jornais que são distribuídos de graça nas estações. O fato das manchetes desses jornais estarem cada vez mais enigmáticas, de acordo com ele, ajudava-o a não ficar curioso e tentar entender as notícias.

Você é o que você lê

Um dos momentos mais difíceis do desafio foi durante uma reunião, quando alguém comentou algo sobre o escândalo do HSBC. Foi nesse momento que Armstrong sentiu que algo grande estava acontecendo e ele estava ficando de fora. “Naquela noite eu pergunto a minha família. Eu me preocupo, pela primeira vez na vida, que uma notícia de interesse nacional tenha um impacto direto pessoalmente em mim, e é durante o único mês que eu parei de ler jornal. O HSBC está falindo e eu estou prestes a perder a nossa casa. Mas não: eles não me dão nenhum detalhe, mas essa não é uma história de um colapso eminente, eles me dizem”.

No final do mês, após o fim do desafio, Armstrong volta, lentamente, a consumir notícias. Primeiro assistindo a um jogo de futebol, depois ao programa de mesa redonda que discute o jogo de futebol, e só então aos eventos que perdeu. O escândalo do HSBC, as garotas inglesas que fugiram para a Síria, o assassinato do opositor de Putin na Rússia, a Ucrânia. Durante uma manhã ele coloca em dia o mês em que ficou desconectado do mundo das notícias.

No fim de seu experimento, o escritor chega a uma conclusão: “O que você lê e assiste é apenas um reflexo do que você está interessado e o que você é. E disso é difícil se escapar”.

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