Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

A Disneylândia pós-moderna

Por Luís Eustáquio Soares em 27/09/2011 na edição 661

Chamo de começos do período pós-moderno o deslocamento geopolítico do centro da governança do imperialismo, da Inglaterra para os Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, ponto de bifurcação entre um modelo de capitalismo baseado no protestantismo ascético (responsável, segundo Max Weber, pelo surgimento do capitalismo nos século 16 e 17) e no hedonismo acumulativo, marca de nossa atual época.

Em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo (1905), Max Weber defendeu a tese de que o capitalismo desenvolveu-se em países protestantes porque a negação do mundo, traço comum das religiões semíticas de salvação, expressa(va)-se, no protestantismo, através de um ascetismo de base acumulativa, pois ser rico era (é) considerado graça divina, de modo que o sacrifício pessoal, o trabalho disciplinado, a vocação técnica, a burocracia impessoal e a recusa das paixões mundanas devem estar a serviço da acumulação sem fim da riqueza, como prova cabal da proteção divina, que é infinita, assim como é infinita a acumulação de riquezas materiais, duplo movimento que assim pode ser traduzido: acumulação sem fim de riquezas é o mesmo que infinita acumulação de amor divino.

Antes, portanto, do atual período, o pós-moderno, o capitalismo desenvolveu-se através da acumulação “sem fim” de riquezas materiais e financeiras, produzidas por meio do sacrifício e do abandono do mundo, aos quais todos deveriam estar igualmente sujeitos, burgueses, trabalhadores, homens, mulheres, crianças, heterossexuais, homoeróticos, brancos, negros, índios, amarelos mestiços, motivo pelo qual igualmente todos deveriam ser educados pela culpa, pelo ressentimento, pelo castigo, como metodologia pedagógica de base consciente e inconsciente, cujo objetivo era o de instigar o desejo de sacrificar-se e anular-se através do trabalho acumulativo, embora, diga-se de passagem, o trabalhador comum acumulasse não para si, mas para o legítimo representante do amor divino: o burguês.

A luta emancipatória da modernidade

Como a pedagogia moderna fundou-se na ética religiosa da culpa, do ressentimento, do castigo imposto e da autopunição incorporada, a luta pela emancipação – por liberdades expressivas, por justiças – foi marcada, por consequência, pelo desejo de liberação expressiva dos corpos: o corpo da mulher deveria lutar para emancipar-se da culpa e castigo patriarcais; o corpo do negro deveria emancipar-se da culpa de não ser branco, e assim o corpo das sexualidades não heterossexuais; o corpo do operário, por sua vez, deveria liberar-se do castigo burguês – a exploração do trabalho –, através da  consciência de classe, que ao fim e ao cabo deveria ser expressa na luta coletiva por meio do fim da alienação, que nada mais é que uma forma de não se sentir culpado pelos pecados que o patrão atribuía e atribui ao trabalhador consciente: o pecado de não aceitar o sacrifício de ser explorado, sem incorporar qualquer vestígio de culpa e ressentimento.

Liberar o direito de expressividade dos corpos, portanto, era a palavra de ordem inconsciente de todas as lutas por justiça, no decorrer do capitalismo moderno, marcado pelo ascetismo acumulativo, protestante, autopunitivo, no qual a primeira pessoa do singular, eu, deveria ser evitada a todo custo, principalmente quando a sintaxe que propusesse fosse assim expressa: eu gozo, eu vivo, eu me expresso criticamente, criativamente, lascivamente, sem culpa, sem ressentimento, livremente.

A virada para o capitalismo pós-moderno, embora já estivesse sendo gestada desde muito antes, explodiu definitivamente a partir da Segunda Guerra Mundial, quando então os Estados Unidos se apresentaram ao mundo como o centro universal da emancipação dos corpos, o reino da liberdade expressiva, incorporando, para si, como estratégia de dominação, a luta emancipatória da modernidade, cuja acumulação ascética colocava na berlinda as demandas corporais, que estavam impedidas de viver as potencialidades de suas expressões físicas, intelectuais, criativas, uma vez que a palavra de ordem do ascetismo moderno era: é proibido viver mundanamente.

A palavra-chave é publicidade

A partir, pois, da Segunda Guerra, os Estados Unidos ocuparam o centro do imperialismo, substituindo a Inglaterra, não apenas fazendo guerras mais eficazes que os ingleses, mas também mimetizando as demandas de emancipação ocorridas no interior da modernidade ascética, como uma espécie estratégica de valor agregado, sob o ponto de vista político, econômico e cultural. Essa estratégia americana contribuiu significativamente para destronar a Inglaterra do centro do imperialismo porque o mundo todo passou a identificar a Inglaterra como poder repressivo e ao mesmo tempo caiu na armadilha de acreditar que os Estados Unidos eram o país que realizava a promessa moderna de liberdade, de igualdade, de liberação política, sexual e econômica.

Com isso, os Estados Unidos poderiam fazer o que faz qualquer candidato a figurar como  centro do imperialismo: realizar guerras de ocupação e de espoliação, sem, no entanto,  ser diretamente identificado como invasor, espoliador, colonizador.

Mimetizar, por outro lado, as demandas de emancipação dos corpos econômicos, étnicos, sexuais, linguísticos, comportamentais, da modernidade ascética, não significa que efetivamente os Estados Unidos realizaram, como país, como povo, essas demandas, mas que simplesmente as fantasiaram através do recurso da publicidade, que funcionou da seguinte maneira: por meio da estetização de uma classe média americana, supostamente emancipada, tanto sob o ponto de vista econômico, como sexual e étnico.

Tal classe média americana seria o colorido rosto publicitário que os Estados Unidos espalhariam pelo mundo, através do imperialismo cultural, com o objetivo de se apresentarem como país exemplar. A palavra-chave, portanto, para o capitalismo pós-moderno, hedonista, acumulativo, é esta: publicidade. Os Estados Unidos se tornaram o centro do imperialismo pós-moderno através da publicidade, como reino da liberdade; como se fossem, eis a alma do negócio, a região do planeta que realizou e realiza as demandas históricas das lutas emancipatórias da primeira modernidade, de base ascética, acumulativa, repressiva, culpada, ressentida, sacrificial.

Autopropaganda teatral da dor

A pós-modernidade constitui, assim, a autopromoção performática do novo centro imperialista, EUA, após a Segunda Guerra Mundial, momento em que o Tio Sam destrona definitivamente a Inglaterra e a si mesmo se apresenta como o multicolorido efeito publicitário de um modelo civilizatório hedonista, porque teria encarnado o prazer utópico da realização da democracia, entendida como promessa de uma sociedade em que os corpos de suas diferenças étnicas, sexuais, comportamentais e econômicas vivem a abertura expressiva de suas potencialidades, sem repressão, sem culpa, sem ressentimento, com liberdade, eroticamente.

Como centro do capitalismo de mais-valia hedonista, os Estados Unidos se tornaram literalmente um país mercadoria: a mercadoria da nação democrática – a Disneylândia da liberdade de expressão – onde todos os sonhos são possíveis. Mais que ser, portanto, uma abreviatura, a sigla USA é a marca publicitária de uma empresa; um holding, melhor dito, por efetivamente constituir-se como uma nação performaticamente inventada com o objetivo de administrar um grupo de empresas multinacionais americanas.

Eis aí, pois, a esperteza máxima do capitalismo pós-moderno: para evitar que as demandas emancipatórias da modernidade, de base ascética, sacrificial, encarnem-se na história, através de uma sociedade pós-capitalista, a solução foi a seguinte: a produção em série de artefatos ou bugigangas de emancipação econômica, de gênero, étnica, comportamental, através da criação de um país, EUA, ele mesmo a mercadoria-mor ou o holding de um mundo que só pode ser livre por meio da miniaturização performática, hedonista e narcísica de si mesmo, como diversidade de mercadorias autônomas e isoladas em seu próprio cultivo hedonista e narcísico, individual, infantil, classe mediano.

Essa autoconsciência de ser uma mercadoria da emancipação das mais diversas formas de opressão transforma os Estados Unidos em um país performático, propagandístico de si mesmo. É por isso que é possível dizer que a cerimônia ou ritual dos dez anos da destruição das Torres Gêmeas, transmitido, via-satélite, para todo o mundo, é autopropaganda teatral de algo que é matéria-prima, em tempos de guerra: a dor.

A modernidade ascética e repressora

Tudo vira mercadoria e publicidade, no epicentro do capitalismo pós-moderno, inclusive a dor  derivada de uma tragédia, como a ocorrida em consequência do atentado às Torres Gêmeas, ele mesmo, não se sabe, é ou pode ser mais uma dentre outras tragédias performáticas; uma mais-valia hedonista de terrorismos possíveis, criados, como a um filme, para justificar interferências em outros países, invasões, sequestros e mortes.

Sentimentos, desejos, expectativas, esperanças, medos, alegria: tudo se torna performática publicidade made in USA. Tudo é usado e editado, para produzir efeitos publicitários. Existe, sob esse ponto de vista, uma autoconfiança performática, nos mais diversos perfis humanos desse modelo hedonista americano, os quais não raro produzem, em conjunto, a sensação de que tudo é filme, que estamos diante de um imenso  roteiro: o roteiro performático da realização fílmica da terra prometida do capitalismo pós-moderno, baseado na encenação hedonista dos mais legítimos desejos e aspirações modernos: o desejo de ser livre, de não ser oprimido, de expressar-se sem medo de represálias; de ser criativo, de não ligar para as convenções, driblá-las com malabarismo, alegria e despojamento.

Como é um modelo que vive de encenar e se apropriar das legítimas lutas emancipatórias de negros, mulheres, índios, latinos, homossexuais, dos oprimidos, enfim, pela e através da modernidade capitalista de base ascética, a encenação ou o efeito performático ocorre tomando para si esses perfis não eurocêntricos e patriarcais e transformando-os em atores e atrizes da publicidade dos EUA como mercadoria da democracia hedonista pós-moderna.

A indústria cultural, no contexto pós-moderno, é antes de tudo uma máquina publicitária da democracia americana e vende a mercadoria de que os EUA são a realização hedonista das demandas emancipatórias experimentadas no interior da modernidade ascética e repressora: música, cinema, teatro, literatura, tudo, com raríssimas exceções, tende a fazer-se como máquina de propaganda da mercadoria dos Estados Unidos como reino (a palavra não é neutra) da liberdade.

Um país pronto a quebrar convenções sérias

Consideremos, a propósito, o cinema hollywoodiano. Há filmes para todos os gostos, mas, os mais comuns, os de grande público, são marcados por uma evidente vocação publicitária imperialista e, por isso mesmo, são moedas correntes tanto nas TVs pagas quanto nas abertas. Vendo-os é possível detectar um princípio de ambiguidade comum à maioria deles, tal que são, sem contradição alguma, ao mesmo tempo filmes, como esperamos que sejam, e também  chamadas publicitárias cujo objetivo é fabricar a imagem de que as mulheres americanas são determinadas, emancipadas, corajosas, criativas; e assim também os negros americanos, plásticos, despojados, alegres, espertos; assim como os homossexuais, que são livres e sempre encontram um ambiente favorável, entre os heterossexuais, para expressarem suas diferenças, sem preconceitos toscos, patriarcais, ainda que a obsessiva defesa da soberania da mercadoria USA esteja geralmente a cargo dos heterossexuais, embora, como fantasia da emancipação dos oprimidos pela modernidade ascética, não é improvável a confecção de filmes com heroicos homossexuais masculinos ou femininos, salvando a pátria precisamente, eis a ironia, dos oprimidos em carne e osso da modernidade: os latinos, os asiáticos, os africanos.

Consideremos, a propósito, os filmes de massa que tenham atores negros americanos como protagonistas. No decorrer da modernidade ascética, como contraparte libertária à extrema violência relacionada à escravidão, a comunidade negra respondeu não com a lamúria, a desistência, mas com despojamento, jogo de cintura, criatividade e sagacidade para driblar e romper convenções eurocêntricas, escravocratas e racistas.

Essa herança libertária negra, com todos os seus traços improvisados, jazzísticos, foi apropriada pelo cinema americano de vocação imperialista tendo em vista igualmente um jogo no qual, e através do qual, atores negros despojados, alegres e plásticos não apenas inscrevem o mito hedonista de que os Estados Unidos são de fato o país em que as demandas emancipatórias negras, do período da modernidade ascética, finalmente foram efetivadas, mas também que, por extensão, os Estados Unidos mesmos, como potência hegemônica, são igualmente um país alegre, despojado, plástico, sempre pronto a quebrar convenções sérias, hierárquicas, autoritárias, como os seus atores negros.

Os “adoráveis” adolescentes

Filmes protagonizados por atores como Martin Lawrence, Eddie Marfhy, Morgan Freeman e Will Smith mostram muito bem o que estou argumentando, pois, não obstante as suas especificidades, são no geral narrativas em que seus protagonistas combatem – com alegria, coragem,  plasticidade e desapego às regras e aos costumes convencionas – os inimigos internos e externos dos Estados Unidos.

O ator americano Eddie Marfhy, por exemplo, protagoniza filmes nos quais sua personalidade adapta-se cinicamente às circunstâncias culturais de comunidades e povos diversos, não americanos. Se precisar, dependendo da situação em que se vê envolvido, para superar uma dificuldade qualquer, ele incorpora um tipo gay, ou machão, ou ditador, ou feminino, ou uma infinidade de outros, conseguindo, assim enganar gregos e troianos, a fim de obter o objetivo desejado: salvar a pátria da liberdade, tão plástica e não convencional como Eddie Marfhy.

Assim como o gênero epopeico, em sua época de ouro, narrava as peripécias de um herói que conseguia, com destreza, perspicácia e inteligência, superar todas as adversidades e ao mesmo tempo narrava também o heroísmo de todo um povo, uma vez que o herói representava o povo, a epopeia do capitalismo pós-moderno americano, de vocação hedonista, apresenta, nos seus filmes de massa, protagonistas despojados, corajosos, fortes e não convencionais porque tais personagens são literalmente uma publicidade da mercadoria EUA, país que é, subentende-se, tão alegre, plástico, metamórfico, não convencional, como os personagens protagonizados por Eddie Marfhy ou Martin Lawrence, atores que vivenciam personagens que nunca respeitam leis, convenções e contratos pré-estabelecidos, nos filmes que protagonizam, pois o país de que são exemplares cidadãos também não respeita.

O seriado americano Glee ( alegria), transmitido pela TV Globo aos sábados (não por acaso mais ou menos no horário do almoço, para que os distraídos o engulam, enquanto comem), mais que uma série que apresenta adolescentes polivalentes, porque cantam, dançam, tocam, encenam, é simplesmente uma publicidade da mercadoria EUA; publicidade que pretende nos vender a imagem de que os EUA, como seus “adoráveis” adolescentes, são igualmente criativos, dançantes, talentosos, musicais e antes de tudo esforçados, motivos pelos quais o sucesso deles, como criativos adolescentes do centro do imperialismo pós-moderno, está plenamente justificado.

A ficção de um mundo em que tudo é possível

A totalidade dos filmes americanos que passa, sob esse ponto de vista, na Sessão da Tarde, da TV Globo, é publicidade americana pura, como país que realiza e encarna as reprimidas demandas de liberdades expressivas da modernidade ascética. O mesmo argumento é justificável para os filmes americanos dos outros horários estratégicos globais, em todos os dias da semana, assim como os filmes americanos de outros canais televisivos, abertos e fechados. No geral são, nada mais e nada menos, que pretextos publicitários em forma de narrativas fílmicas, com o estratégico propósito de nos incutir a palavra de ordem de que a emancipação que conta é a americana, como país.

É por isso que é possível dizer que a pós-modernidade de base hedonista, acumulativa, é uma mentira de cabo a rabo, pois a si mesma se apresenta como aquilo que ela efetivamente não é: a concreção democrática das demandas emancipatórias da modernidade ascética, sacrificial. A mentira é regra geral na pós-modernidade, a mentira da liberação sexual, a mentira da diversidade étnica, de gênero, econômica, comportamental, estilística; a mentira de que vivemos numa época secular e democrática; a mentira midiática que alimenta o conjunto das mentiras pós-modernas, vendendo-as como mercadorias daquilo que elas nunca são ou serão: coletividades emancipadas, dotadas de verdadeiras liberdades expressivas, em orquestração polifônica de igualitárias vozes negras, femininas, homoeróticas, criativas, assumidamente mundanas.

Se o sistema midiático que temos é um oligopólio nacional e planetário é porque foi apanhado  pela pós-modernidade, entendida como mentira de um mundo que finge ser o que efetivamente não é: livre, diverso e justo.

O sistema midiático mundial, portanto, constitui a própria mentira confeitada por meias verdades e por pequenas verdades a serviço de grandes mentiras e que, porque sabe que tudo é mentira, transformou-se em performance publicitária, de sorte que tudo é publicidade no sistema midiático, publicidade daquilo que não é possível ser verdade: publicidade jornalística, que narra noticiosas mentiras sobre o mundo em que vivemos; publicidade fílmica, que é igualmente mentira da ficção que evitamos e não podemos difundir, a ficção de um mundo em que tudo é possível, uma vez que a  pior verdade, a mais fascista e inverossímil é a que prevalece, por todos os lados: a verdade de um mundo em que alguns poucos vivem, performaticamente felizes, sob os cadáveres dos povos.

***

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Espírito Santo]

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