Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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A “droga dos concurseiros” e o “doping intelectual”

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 26/08/2015 na edição 865

Uma linha tênue separa a assessoria medicinal do protagonismo medicamentoso. Infelizmente, estamos assistindo ao consumo desenfreado de Ritalina, nome comercial do metilfenidato, indicado para tratar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Batizado de “droga dos concurseiros”, o uso indiscriminado de Ritalina vem se afastando do caráter técnico de tratamento patológico para espalhar o mal do doping intelectual. RitalinaO Distrito Federal é campeão nacional de prescrição do remédio. O Correio Braziliense, na edição de domingo (01/06/2014), oferece destaque especial ao assunto.

Em matéria feita por Carolina Samorano e publicada na Revista do Correio, a jornalista destaca uma grave distorção em torno da Ritalina: “A medicalização do tratamento, porém, segue num ritmo que supera o número de diagnósticos.” Triste saber que a substância metilfenidato vem sendo promovida como a droga solucionadora para o nosso déficit de desempenho, uma vez que ela vendo sendo indicada para resolver problemas de inquietação, baixo rendimento escolar, dificuldade de concentração e impulsividade.

Na reportagem do Correio, assustam os números que cercam o consumo avassalador da Ritalina. Em 2013, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foram vendidas 2,6 milhões de caixas do medicamento. A Secretaria de Saúde de São Paulo, em 2012, informou que o Brasil já ocupava o segundo lugar no ranking dos maiores consumidores de metilfenidato do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Uma caixa com 20 comprimidos de 10 mg. sai por cerca de R$ 20, via farmácia regular, com apresentação da receita. O mercado clandestino chega a oferecer a mesma quantidade da droga na faixa de R$ 80, “sem receita e 100% seguro”.

A repórter do Correio descreve o público-alvo da referida substância química: “Quem compra, em geral, são trabalhadores que querem ficar acordados durante longas jornadas ou render mais em seus expedientes, estudantes preocupados com seus rendimentos no vestibular e na faculdade e concurseiros em busca de foco e ânimo nos estudos – todos sem diagnóstico de TDAH. Não à toa, a Ritalina leva apelidos como ‘droga da inteligência’ e ‘droga dos concurseiros’.” A rede de incentivo ao uso da medicação conta não só com o apelo propagandístico dos pontos de comercialização como também com o aval conivente de “educadores”, informa Samorano: “Em Brasília, um profissional requisitado na preparação para concursos garante que existem professores que, ao perceberem alunos dispersos nas aulas, distribuem aos desatenciosos uma relação das farmácias da cidade onde se pode comprar o medicamento sem receita médica.”

Insônia, depressão e problemas cardiovasculares encabeçam a lista de efeitos colaterais quanto ao uso da Ritalina. Especialistas chamam também a atenção para o “efeito placebo” da droga. É o que adverte Mário Louzã, coordenador do grupo de TDAH em adultos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da USP. Ele também destaca “a questão ética”, ao afirmar que o uso de Ritalina deve ser encarado como um caso de doping intelectual: “É o mesmo caso do atleta que vai para as Olimpíadas e toma alguma coisa que melhora o seu rendimento em relação aos seus pares. Vai além da questão médica.”

Doses regulares de felicidade química

Considerando o legado da literatura universal, a ficção científica já problematizava este tipo de patologização da vida, sendo esta exemplificada pelo caso do metilfenidato. Basta comparar essa realidade com a Sociedade do Futuro, ressaltada por Aldous Huxley (1894-1963) no seu romance Admirável mundo novo, de 1931. Alerta o escritor inglês para o preço que a humanidade paga pelo conforto e prazer do consumo, qual seja: a crescente desumanização e a perda da individualidade. Isto acarreta frustração e vazio. Pois, uma das formas em que o ser humano seria manipulado e consolado nessa sociedade do futuro se refere ao incentivo estatal da fuga da realidade por meio do acesso em massa ao entretenimento, sexo livre e drogas pelo povo. Assim, no mundo de ficção de Huxley, o Estado forneceria ou permitiria, veladamente, o uso do Soma.

O Soma é uma droga sintética, produzida nos laboratórios com a mais alta tecnologia, para garantir os efeitos alucinógenos, tranquilizantes ou estimulantes, necessários para manter o povo “feliz” e produtivo. Seria um lenitivo, um consolo e se a pessoa ingerisse doses mais fortes, o máximo que ocorreria seria a pessoa dormir por dois ou três dias, sonhando com um outro mundo mais completo e humano. Após este sono de êxtase, o indivíduo estaria pronto para voltar à realidade do trabalho predeterminado e limitado. Mais uma vez, podemos salientar que a concretização do Soma se encontra em drogas como a Ritalina. Convém, portanto, advertir que o homem, numa sociedade realmente livre, não precisa de drogas para se completar. Pois o maior êxtase é aquele proporcionado pelo prazer do processo criativo e realizador guardado em cada um de nós.

Huxley construiu uma “fábula” futurista, relatando uma sociedade completamente organizada sob um sistema científico de castas, na qual não haveria vontade livre, abolida pelo condicionamento; a servidão seria aceitável devido às doses regulares de felicidade química e ortodoxias. As ideologias seriam ministradas em cursos durante o sono. Como se percebe, a profecia de Huxley se mostra como “o real mais que real”. É só acompanhar o doping intelectual promovido atualmente pela Ritalina.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

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