Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > THE NEW YORK TIMES

A eterna polêmica das fontes anônimas

02/02/2010 na edição 575

O livro Game Change, que conta os bastidores da campanha presidencial americana de 2008, estreou no topo da lista dos livros de não-ficção do New York Times. Na publicação, não faltam comentários sobre traições no casamento e na política; não há, no entanto, fontes identificadas. O livro foi escrito na maior parte em tom romanceado, com a reconstrução de cenas e diálogos muitas vezes não testemunhados pelos autores. O uso excessivo de fontes anônimas acabou criando um dilema para o New York Times na hora de resenhar o livro, revela o ombudsman Clark Hoyt em sua coluna de domingo [31/1/10]: como lidar com este tipo de material quando não há confirmação de sua veracidade? Game Change conta, entre outras coisas, detalhes da relação do político John Edwards e sua mulher, Elizabeth – que acaba de anunciar o divórcio dias depois de o marido reconhecer publicamente a paternidade de uma menina que teve em uma relação extraconjugal. São narradas brigas do casal e feitos comentários críticos ao temperamento de Elizabeth – que em público faria papel de vítima enquanto seria uma megera nos bastidores. O candidato republicano John McCain também aparece como impaciente e grosseiro em brigas com sua mulher, Cindy, que sempre acaba em lágrimas nestes episódios.

Os autores, John Heilemann e Mark Halperin, dois jornalistas políticos, optaram por um estilo muito usado pelo veterano repórter Bob Woodward – sim, aquele do caso Watergate. Mas, enquanto o livro State of Denial, terceiro volume da análise de Woodward sobre os esforços de guerra do governo de George W. Bush, continha 29 páginas de notas sobre fontes, Heilemann e Halperin informam apenas que conduziram mais de 300 entrevistas com mais de 200 pessoas e que tentaram falar com todos os personagens mencionados no livro. Alguns declinaram; ainda assim, os autores não mencionam nomes – dizem ter prometido confidencialidade a todas as fontes. A ideia é de que os leitores devem confiar nos relatos. Mas se tratando dos bastidores de uma campanha política, isso é possível?

Esta questão levou o NYTimes a abordar o livro com muita cautela. A resenha publicada no jornal não reproduziu as partes consideradas mais ‘quentes’; segundo a chefe de redação Jill Abramson, ela simplesmente informava sobre o que ele tratava. Mas cabe aos editores decidir se há algo que rende um artigo separado e se é preciso fazer uma apuração própria. O NYTimes optou por não fazer isto, dando foco apenas a um episódio envolvendo declarações do líder da maioria democrata no Senado americano, Harry Reid, sobre a cor da pele e o sotaque do então candidato presidencial Barack Obama. Com a publicação do livro, Reid pediu desculpas ao presidente pelo infeliz comentário, o que acabou dando ao livro certa aura de credibilidade; o silêncio de outras figuras importantes da política americana teve o mesmo efeito. Mas, para Jill, nada disso deve servir para definir a veracidade das informações.

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