Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > CRISE NA MÍDIA IMPRESSA

A hora e a vez do New York Times

Por Arnaldo Dines, de Nova York em 06/02/2007 na edição 419

Os arrancos e tropeços enfrentados recentemente pela mídia impressa internacional chegam a lembrar enredo de novela. Quando parece que o pior já passou, e que o drama finalmente será resolvido, surge em cena um elemento novo destinado a prolongar o sofrimento dos pobres personagens.


No caso, a protagonista do momento é a The New York Times Company. Como coadjuvante principal aparece a empresa E. W. Scripps, dona de uma cadeia de jornais de médio porte e de canais de televisão por cabo. Por último, como figurantes, estão as empresas Abitibi Consolidated e Bowater Inc., a primeira do Canadá e a segunda dos Estados Unidos, ambas especializadas na fabricação de papel de jornal.


E o grande episódio dramático em horário nobre foi o anúncio na quarta-feira (31/1) de uma depreciação de 814 milhões de dólares no valor declarado no balanço patrimonial da The New York Times Company. A culpa por tamanha calamidade recai sobre dois de seus jornais, The Boston Globe e The Telegram & Gazette, nas cidades de Boston e Worcester, respectivamente, na região de New England. E calamidade é a palavra certa: o Boston Globe foi comprado por 1.100 bilhão de dólares em 1993 e o Telegram & Gazette por 296 milhões, em 2000 – portanto, o prejuízo agora assumido é de quase 60%, sem contar as perdas sobre juros no valor do investimento.


Exemplo em destaque


Mas se os autores da novela esperavam uma reação igualmente dramática da audiência em solidariedade com as desventuras da protagonista, devem ter se decepcionado profundamente. No dia do anúncio, as ações da empresa ficaram relativamente estáveis na Bolsa de Valores de Nova York, com um aumento de menos de 1%, similar aos aumentos registrados nos índices Dow Jones e Nasdaq no mesmo dia.


A explicação é que essa depreciação já estava embutida no preço das ações. Mais precisamente, em junho de 2002 as ações da companhia alcançaram 52 dólares. Em contrapartida, foram cotadas no dia anterior ao anúncio (30/1), em 22,90 dólares. Ou seja, o mercado não é bobo e já havia pré-ajustado o total em quase 60% para baixo, o que implica no vexame geral o próprio jornalão da empresa, o New York Times.


Por trás do dramalhão piegas desta novela, a realidade é que, apesar dos números grandes, tudo não passa de uma grande manobra contábil. Por um lado, a empresa mostra um prejuízo no balanço e evita o pagamento de impostos sobre seus (parcos) lucros reais; e, por outro, cumpre com regulamentações contábeis impostas pela Securities and Exchange Commission, o órgão controlador dos mercados nos Estados Unidos, equivalente à brasileira Comissão de Valores Mobiliários (CVM).


Há porém uma terceira explicação – plenamente plausível, mas por enquanto apenas hipotética – de que a New York Times Company estaria preparando o terreno para a venda do Boston Globe por um preço avaliado como realístico pelo mercado. Um precedente foi o da McClatchy Company, que comprou o jornal The Star Tribune, no estado de Minnesota, por 1,2 bilhão de dólares em 1998 e o vendeu no ano passado por 530 milhões de dólares, para investidores privados.


O interessante é que este exemplo aparece com destaque na matéria do próprio New York Times sobre a depreciação do seu patrimônio, seja como preparação de terreno para a possível venda ou por simples defesa do time da casa.


Boatos desmentidos


A mais recente tramóia neste roteiro enrolado envolve a família Ochs-Sulzberger, herdeiros da New York Times Company, que anunciou na sexta-feira (2/2) a retirada dos fundos familiares avaliados em 640 milhões de dólares do banco Morgan Stanley. A razão? Em retaliação contra a atuação do banco na mobilização de acionistas minoritários em oposição ao controle da família sobre a New York Times Company.


A Morgan Stanley detém 7,6% das ações da empresa, enquanto a família Ochs-Sulzberger possui 20%. Mas a família mantém o poder por meio de 80% das ações com direito a voto no conselho diretor. O difícil mesmo nesta disputa é diferenciar o vilão da vítima.


Mas como toda novela precisa de mais de uma trama, chega a vez da entrada em cena da E. W. Scripps. Tudo começou com um boato de que a empresa estaria vendendo sua divisão de jornais, para se concentrar em seus canais de TV por cabo de culinária, decoração e turismo, e em websites de comparação de preços para consumidores. Suas ações subiram 4% no dia. O motivo da festança era a simples possibilidade de o balanço comercial da empresa se livrar de carregar o peso de 20 jornais de boa qualidade mas baixa lucratividade, entre os quais o Rocky Mountain News no estado do Colorado e The Cincinnati Post, de Ohio.


Feliz ou infelizmente, dependendo do ponto de vista, a festa acabou cedo e de repente, como se um vizinho tivesse chamado a polícia para acabar com o barulho. O ‘chato’ em questão foi a direção da empresa, que emitiu um comunicado desmentindo veementemente a boataria da venda dos jornais. A ressaca dos investidores – ou melhor, dos especuladores – desta vez não surpreendeu ninguém: as ações da companhia despencaram 8%.


Roteiro cômico


Por último, chega a vez dos figurantes, esquecidos no fundo da cena, mas sem os quais a novela não funcionaria. E as pobrezinhas são as empresas Abitibi Consolidated e Bowater Inc., que ao anunciarem, em 29/1, o seu feliz matrimônio, criaram um dos maiores produtores de papel de jornal na América do Norte, com um valor ‘em comunhão de bens’ de aproximadamente 8 bilhões de dólares.


Que este não é um casamento por amor, todo mundo sabe: trata-se de uma união de conveniência, ou de sobrevivência. O objetivo é reduzir os custos para as duas partes após anos de prejuízos, resultado de uma redução substancial no consumo de papel de jornal. E a principal causa desta redução é de conhecimento público: a menor tiragem dos grandes diários em função da migração de leitores para a internet. Outros culpados são a redução no tamanho de jornais (o último foi o Wall Street Journal), assim como um menor número de cadernos classificados, mais uma vez por culpa da competição da internet.


Com todos esses fatos expostos, a novela chega a perder o suspense pois o final infeliz parece inevitável até para quem não segue diariamente a trama. Mas cabe lembrar que, em novela, tudo é possível. E o que aconteceu parece até ironia do destino.


Na noite anterior ao anúncio do prejuízo do New York Times, a Associação de Jornais da América (Newspaper Association of America) anunciou com grande fanfarra, durante sua convenção anual em Las Vegas, o lançamento de uma campanha nacional para promover o jornal como futura multiplataforma de informação. A campanha, avaliada em 75 milhões de dólares, colocará anúncios em mais de 800 jornais americanos com slogans como ‘A internet é a melhor coisa que poderia acontecer para os jornais’ e ‘A mais importante matéria no jornal de amanhã poderá ser sobre o próprio jornal’.


Se o assunto não fosse tão sério, pareceria até que os autores da novela resolveram injetar um pouco de comédia no roteiro, para tentar melhorar os índices de audiência.

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