Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > CHINA

A liberdade sempre prevalecerá

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 09/01/2006 na edição 363

A China, com seu crescimento e suas conquistas surpreendentes, tornou-se o país da moda; todavia guarda em seu bojo mazelas do totalitarismo. Nos últimos dois anos escrevi alguns artigos sobre a China [ver remissões abaixo], sempre enfocando a censura feroz que faz parte de seu dia-a-dia.

Todavia, nos últimos dias de dezembro, algo de novo e inédito aconteceu: uma greve, movimento totalmente proibido na República Popular e, como se não bastasse, essa greve foi feita por 400 jornalistas indo contra o controle do governo sobre a mídia.

Tudo começou no dia 30, quando foi noticiada a demissão por motivos disciplinares do redator-chefe e dois repórteres do tablóide Notícias de Pequim, pois haviam desagradado às autoridades. Esse quotidiano tornou-se em pouco tempo famoso por seus furos sobre a corrupção e assuntos políticos ‘quentes’. O chefe de redação, Yang Bin, e dois correspondentes foram substituídos por jornalistas mais ‘confiáveis’. Em solidariedade aos colegas, o vice-diretor, Li Duoy, pediu demissão e a redação inteira cruzou os braços. O presidente da casa editora, que tem a maior parcela do jornal, tentou ‘acertar’ as coisas, convocou uma assembléia para pôr fim aos protestos, mas os jornalistas logo desertaram.

Duas tendências

Esse fato trouxe à luz uma tensão que estava incubada há algum tempo: alguns jornais chineses começaram a publicar uma informação mais livre, desafiando a censura e tentando alargar os confins tolerados pelo governo, mas o regime guiado pelo presidente Hu Jintao reagiu com a repreensão. Sobre essa greve logo caiu o manto da censura. Foi inicialmente noticiada aos chineses pelo blog independente Na Ti; entretanto, depois de poucas horas, foi logo tirado do ar. Salas de chat e sites da internet, onde havia começado um debate sobre o assunto, foram bloqueados. Todavia não foi possível esconder a verdade dos leitores do tablóide; o jornal não deixou de circular, mas o fez somente com 32 páginas, quando normalmente tem 80. No espaço dos jornalistas em greve entraram notícias repassadas pela agência oficial Xinhuan.

O Departamento de Propaganda não podia mais tolerar Yang Bin, pois este insistia em noticiar temas politicamente explosivos como os choques em Dingzhiou (‘Quando a globalização vence a censura‘), e além do mais recusava-se a abolir de suas páginas editoriais e comentários julgados excessivamente liberais.

A imprensa vive na China duas tendências contraditórias: de um lado, o desenvolvimento da economia de mercado, do outro o monopólio do governo na mão do partido comunista. Há algum tempo, o governo encaminhou uma liberação econômica na mídia, consentindo na privatização de jornais e a concorrência, objetivando conquistar leitores. Essa evolução desencadeou uma inevitável procura de liberdade por parte dos jornalistas e editores, escolhendo argumentos que lhes permitisse maior tiragem. Ao mesmo tempo, o governo quer manter a última palavra nas informações, quer o direito de censurá-las, até de forma prévia. Um caso tristemente célebre foi o do jornalista Shi Tao (preso depois que seu e-mail foi entregue pelo Yahoo! à polícia), que informara sobre uma circular oficial impondo a todas as redações silêncio sobre as ocorrências (1989) na Praça Tienanmen.

Fato significativo

A greve vem mostrando alguns resultados, todavia o mais surpreendente foi o editorial de Ano Novo do hebdomadário Notícias da China, de propriedade do governo:

Para o ano de 2006 auguramos que muitos mineradores não se vejam mais constrangidos a morrer sob a terra e que suas famílias não fiquem tão angustiadas quando eles saem para o trabalho. Auguramos que cada condenação à morte seja reexaminada com rigor, por juízes mais hábeis, podendo-se dessa forma excluir qualquer dúvida possível sobre a culpa do condenado. Auguramos que cada trabalhador migrado do campo receba na cidade um justo salário por seu duro trabalho. Auguramos que o direito sobre a terra seja dado aos agricultores. Auguramos que todas as crianças tenham os nove anos de escola obrigatória gratuita, impedindo que sejam obrigadas a abandonar a instrução por falta de recursos da família. Auguramos que nenhum doente seja obrigado a deixar o hospital por não ter dinheiro com que pagar o tratamento. Auguramos que os esmoleiros não sejam expulsos arbitrariamente só porque prejudicam a imagem das cidades. Auguramos que quando o ambiente venha sofrer uma grave poluição, ou que surja uma epidemia, os cidadãos possam obter informações adequadas e tempestivas. Sobretudo, auguramos que em nossa sociedade cada ser humano, sem distinções, tenha seus direitos constitucionais respeitados.

É significativo o fato de que este editorial de votos pelo Ano Novo tenha sido publicado quando outro jornal, Notícias de Pequim, fez greve de protesto contra a demissão dos seus melhores jornalistas. O mais de um bilhão de chineses, para sobreviver, precisam que o país se desenvolva, e a história vem provando que o desenvolvimento sem liberdade é uma quimera.

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