Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

MONITOR DA IMPRENSA > TV CULTURA

A mágica real é cortar custo

Por Ivone Santana em 19/09/2011 na edição 660
Reproduzido do Valor Econômico, 12/9/2011; título original “Na Terra do Rá Tim Bum, a mágica real é cortar custo”, intertítulos do OI

A turminha do Castelo Rá Tim-Bum e do Cocoricó vai ter que juntar forças com jornalistas, produtores de documentários, apresentadores e artistas para dar um novo impulso à TV Cultura e preparar a emissora para enfrentar a era digital. A popularização da TV por assinatura, o espaço cada vez mais crescente da TV conectada à internet e a onda mais recente dos provedores de vídeo online têm se mostrado rivais importantes para uma emissora pública aberta, como a Cultura. Tudo isso, aliado a uma programação considerada por muitos como fraca e repetitiva, levou o mercado a acreditar que a emissora pública estava condenada ao fechamento. Falava-se até em “desmanche” da emissora.

Desde 2004, com a TV a cabo implantando sua infraestrutura nas principais cidades, a audiência da TV Cultura começou a cair. O Ibope médio da emissora vinha se mantendo em 1,8 e 1,9 há cinco anos. Mas, por pressão da competição da TV paga e internet, caiu para 1,5. Os líderes de audiência, Jornal da Cultura e Roda Viva, chegam a 2 ou até 3 pontos.

Neste cenário, a Fundação Padre Anchieta promoveu uma reestruturação no grupo. Contratou para diretor-presidente, em junho do ano passado, o economista João Sayad, que tem no currículo diversos cargos políticos desde 1983, como secretarias do governo do estado de São Paulo e o Ministério do Planejamento. Ao assumir a missão de sanear o grupo, Sayad arregaçou as mangas.

Corte de 728 funcionários

Com a proposta para reduzir custos, a saída foi não renovar os contratos para prestação de serviços de televisão a órgãos públicos, que se encerrariam em fevereiro. A TV Assembleia foi a primeira a sair. A TV Justiça, do Supremo Tribunal Federal, pediu prorrogação dos serviços, que segue até outubro porque não conseguiu outro fornecedor a tempo.

A reestruturação envolveu a eliminação de 728 colaboradores, ou 34,7% do quadro, que foram demitidos, transferidos para outros operadores ou não tiveram seus contratos como pessoa jurídica renovados. Do total de 2.096 funcionários, restam 1.368 e, até dezembro, o número cairá mais ainda, à medida que os equipamentos são modernizados, segundo Sayad. O foco ficará na TV Cultura e nas emissoras de rádio AM/FM. Sayad reclama da exigência de processo seletivo para determinados cargos, como roteiristas e apresentadores, e diz que a instituição fez um embargo contra isso e planeja recorrer até o Supremo Tribunal Federal, se for o caso.

Os cortes atingiram também a direção da emissora, que ficou com menos níveis hierárquicos. O número de diretorias passou de sete para duas, e de gerências, de 27 para 17. Sayad estimou em R$ 20 milhões em custos para as demissões e outros gastos envolvidos, como ações trabalhistas. Mas, afirma que com a reestruturação é possível garantir uma economia equivalente a R$ 30 milhões por ano. A folha de pagamentos, incluindo prestadores de serviços, deverá cair 10,8%, de R$ 147 milhões em 2009 para R$ 131 milhões em 2011.

Canais de programação para TV a cabo

Sob o guarda-chuva da Fundação Padre Anchieta estão TV Cultura, TV Rá Tim Bum [média de 5 milhões de assinantes por ano], rádio Cultura FM, rádio Cultura Brasil, canal digital MultiCultura e Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). O orçamento do ano passado para o grupo foi de R$ 210 milhões (incluindo dotação do governo do estado de São Paulo de R$ 75 milhões de custeio, R$ 10 milhões de investimentos e cerca de R$ 60 milhões de outras receitas). Orçamento idêntico foi destinado para 2011.

Era previsto um déficit de R$ 43 milhões no ano. Entretanto, segundo a fundação, houve superávit de R$ 2,8 milhões devido à adoção de sistemas para acompanhamento de desempenho, além de revisões orçamentárias e instalação de um comitê de caixa. Para sobreviver na era digital, um projeto de modernização inclui investimentos financiados pelo governo. Atualmente, 70% da programação é captada em alta definição (HD), o que requer transmissores também em HD. Para isso, são necessários recursos de R$ 30 milhões para migrar os equipamentos até 2016. Sayad espera que a verba seja dotada do Tesouro para o próximo orçamento.

Entre os planos de renovação está a evolução da Cultura para ir além de exibidora. O objetivo é criar um forte perfil como produtora de conteúdo. “Podemos abrir canais de propagação para o cabo e produzir conteúdo para TV aberta. Achamos que temos de nos tornar uma espécie de Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], o que no mundo da televisão significa ser coprodutora e apoiar a produção independente, como fez a TV americana.”

Sayad planeja abrir canais de programação para TV a cabo ou via satélite. O objetivo é oferecer jornalismo, música brasileira do acervo da rádio e da TV, conteúdo educativo e aulas de idiomas. Para as crianças, a fundação já tem o canal Rá Tim Bum. “Quero estar presente no cabo, no Now [pacote sob demanda da Net], na Netfix, na TV Sony, na TV LG. Estou em contato com as distribuidoras”, diz o executivo. Para isso, quem vai puxar o grupo é a turminha que anima o público infantil.

***

Cota de programação nacional favorece emissora

Embora polêmico, o projeto de lei complementar 116 (PLC), que cria novas regras para TV a cabo, entre outros pontos, pode trazer benefícios para a TV Cultura. Aprovado recentemente no Senado, o projeto estabelece cotas diárias de produção nacional para serem transmitidas pelos canais pagos. É nesse ponto que a TV Cultura poderá ganhar, espera o diretor-presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad. Pela lei atual, as emissoras abertas são obrigatoriamente carregadas pelas operadoras de TV por assinatura. A Cultura já tem um extenso acervo nacional e se prepara para avançar mais ainda, tornando-se fornecedora dos canais pagos.

Nos últimos anos, uma grade de programação antiga e recheada de reprises tirou aos poucos o interesse do telespectador pela TV Cultura. O problema decorria da falta de recursos, diz Sayad. Agora, com promessa de mais dinheiro em caixa e a atenção concentrada na emissora, a fundação começou a renovar o conteúdo e começa a se preparar para lutar por audiência. Comprou pacotes da BBC e quer aumentar a produção local. Com dois terços de sua programação destinada ao público infantil, a emissora precisava se revigorar para enfrentar os gigantes multinacionais que competem no segmento. “A grade passa a ser administrada com cuidado, com briga por horário e conteúdo”, diz o executivo.

“Não sou um usurpador”

O horário destinado ao público jovem ganhou documentários da BBC e programas como Radiola, que mostra tendências e nomes do cenário artístico musical; Retrô, cujo acervo de imagens superior a 110 mil horas de material gravado relembra cenas do cotidiano; Vitrine, que exibe reportagens sobre os bastidores dos meios de comunicação e entrevistas com personalidades ligadas ao segmento; e Metrópolis, sobre arte e cultura no mundo.

O público noturno conta com o Jornal da Cultura, comandado pela âncora Maria Cristina Poli, além do programa de entrevistas Roda Viva. A emissora prepara uma renovação da programação jovem, a ser lançada em abril de 2012, com uma grade mais “estável”. Ao longo deste semestre deverão ocorrer alterações menores na programação.

Sayad se diz confiante na retomada da emissora rumo ao crescimento e critica os rumores que apontavam para o desmantelamento da emissora, no ano passado. “Todo administrador é visto como um usurpador. Sou um administrador temporário [gestão até maio de 2013], não um usurpador. Daqui não saiu nem um tostão para o governo”, afirma, garantindo que, ao contrário, houve aporte de recursos adicionais.

***

[Ivone Santana é jornalista]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem