Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > TVs PÚBLICAS

A missão de mostrar o dia-a-dia do Congresso

Por Zean Bravo em 15/03/2011 na edição 633

Poderia ser um reality show. Quatro câmeras transmitem ao vivo toda e qualquer movimentação – inclusive alguma eventual falta de decoro – captada dentro de uma sala redonda onde a cor azul predomina. Mas ninguém ali disputa um prêmio de R$ 1,5 milhão, nem (aparentemente) está atrás de fama instantânea. Os cinegrafistas não se escondem atrás de espelhos e devem, obrigatoriamente, trajar ternos e gravatas. Já para espiar a íntegra dos acontecimentos, tampouco é preciso assinar um canal pay-per-view. Primeira emissora legislativa de alcance nacional, a TV Senado dedica boa parte de sua grade diária à exibição das sessões no plenário da Casa. E mostra votações e discussões capazes de mexer com a vida do cidadão brasileiro.

Sediada no Congresso Nacional, em Brasília, a TV Senado dá voz a seus parlamentares, normalmente ávidos por qualquer espaço que seja nas grandes emissoras. O canal, que completa 15 anos em maio, exibe 24 horas diárias de programação: no cardápio, atrações sobre História, ecologia, música – um dos destaques é Conversa de músico, gravado no Palácio do Itamaraty – e documentários.

‘Somos a TV que mais faz ao vivo no Brasil. Ao todo, transmitimos de dez a 12 horas diárias’, frisa a diretora da TV Senado, Leila Daher, ciente de que muitos telespectadores apenas passeiam pelo canal quando zapeiam. ‘O nome da TV Senado virou Bombril. Muita gente ainda nos confunde com a TV Câmara ou a TV Justiça.’

Não existe censura

Dá para compreender o nó na cabeça do público. Quem sintoniza na TV Câmara, no ar desde 1998, também depara com sessões plenárias. Apesar de mudarem os personagens e o cenário – os atores ali são os deputados na sala verde da Câmara –, a dinâmica é parecida com a do canal dos senadores. E o restante da programação também é educativa e interessada em desvendar a política para o eleitor. ‘Se não fossem as transmissões da TV Câmara, por exemplo, ninguém teria visto a `dança da pizza´ da Ângela Guadagnin (a então deputada do PT em São Paulo dançou no plenário após o anúncio da absolvição do deputado João Magno (PT-MG), acusado de corrupção, em 2006)’, recorda o diretor do canal, Getsemane Silva.

Ele diz que as sessões dão o tom da grade e não são interrompidas por nada.

‘Inserimos informações e legendas e abrimos janelas no vídeo para mostrar outras imagens. Fizemos isso quando o Tiririca (deputado federal pelo PR-SP) veio visitar a Câmara, antes de tomar posse’, explica Silva.

Ex-funcionária de uma afiliada da TV Globo em Belém, a jornalista Cláudia Brasil não acha que sua ação na TV Câmara é limitada pelo fato de a emissora ser pública. Muito pelo contrário: ‘Somos fonte primária de informação. Para quem gosta de política, não há lugar melhor.’ Não existe censura nas transmissões, garantem os responsáveis pelos canais.

Ano legislativo

‘Nossa função é mostrar o que os senadores fazem e discutem. Isso é muito claro. Tivemos três CPIs ao mesmo tempo em 2005 e exibimos todas as sessões, sem cortes’, destaca o diretor adjunto da TV Senado, Aluízio Oliveira. ‘Se sair um bofetão no plenário, nossas câmeras vão mostrar. Elas funcionam como o olho do cidadão lá dentro.’

Volta e meia, as cenas captadas são cedidas pelas TVs Senado e Câmara e vão parar no noticiário dos canais privados. É comum vermos, por exemplo, imagens do Congresso no Jornal Nacional, da Globo, com o selo dos canais públicos. ‘Acabamos com o furo nas sessões de plenário e comissões do Senado’, comenta Oliveira, com passagens pela Globo, Band e a extinta Manchete.

Secretário de Comunicação Social do Senado, Fernando César Mesquita diz que há um cuidado para não promover a imagem pessoal de nenhum político em especial: ‘Procuramos dar voz aos senadores de todos os estados. Para mim, a grande mídia não faz a cobertura merecida do Congresso.’

Com sinal aberto em UHF em Brasília, os canais cobrem o território nacional através de operadoras de TV por assinatura e de antenas parabólicas. Os estúdios estão todos próximos. A sede da TV Câmara fica no prédio do Congresso, do lado oposto ao da TV Senado. Já a TV Justiça funciona no edifício do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em um dos dias em que a Revista da TV acompanhou o trabalho da TV Senado, o canal uniu forças com a TV Câmara para transmitir a abertura do ano legislativo, no início de fevereiro, com a presença da presidente Dilma Rousseff.

Movimentação do plenário

Onze câmeras mapeavam todo o Congresso, começando pela subida da rampa. Repórteres das duas emissoras se posicionavam no caminho para entrevistar políticos. Muitos usavam uma espécie de ‘cola’ onde se via os rostos, nomes e partidos de todos os senadores e deputados. Posicionado no estúdio da TV Senado, o jornalista Beto Almeida ancorava o evento. Funcionário da emissora desde o seu início, ele está para o canal assim como William Bonner está para a TV Globo. ‘Houve uma grande modificação na cobertura política nos últimos anos. Eu noto um interesse crescente do público pelo canal, sobretudo em épocas de escândalos e CPIs’, observa Almeida, satisfeito com a visibilidade conquistada por seu trabalho. ‘Viajo pelo Brasil e sou reconhecido.’

O jornalista apresenta programas como Senadores e senadoras, mas assume muitas funções, assim como outros funcionários do canal. Aluízio Oliveira, diretor adjunto da emissora, por exemplo, apresentou ao vivo a posse dos senadores.

Dos 300 funcionários da TV Senado, um terço é concursado. O pessoal terceirizado trabalha como operador de áudio, diretor de arte e cinegrafista. A verba, da União, é curta. O orçamento em 2010 fechou em cerca de R$ 38 milhões e deve ser o mesmo este ano. A TV Câmara (252 funcionários, dos quais um quinto é concursado) dispõe de R$ 40 milhões e a Justiça (150 profissionais), de R$ 16 milhões. Caçula entre as três, esta última foi criada em 2002 e tem como carro-chefe a movimentação do plenário do Supremo Tribunal Federal.

Reclamações e comentários

Em um estúdio gelado da TV Justiça – que utiliza mão-de-obra da Fundação Padre Anchieta de São Paulo, com a qual tem contrato até junho –, o jornalista Carlos Eduardo Cunha divide a bancada com a advogada Karina Zucoloto. Eles ancoram a transmissão da Suprema Corte, ao vivo.

‘A minha preocupação, ao traduzir certos termos jurídicos, é grande. Preciso ser didática para agradar ao cidadão comum, mas também tenho que pensar no público técnico’, explica Karina, reconhecida na rua por sua participação no canal. ‘Outro dia um garçom veio falar comigo. Somos vistos por uma audiência variada.’

Coordenador-geral da TV Justiça, Denilson Morales explica que não há medição de audiência, assim como na TV Câmara e na TV Senado. Todas calculam seu alcance através do contato com o público. A última pesquisa da TV Senado foi realizada no primeiro semestre de 2010 a partir dos e-mails recebidos naquele período. O resultado indicou que 71% dos telespectadores são homens, 54% possuem nível superior completo, 53% têm mais de 40 anos e 40% moram na região Sudeste. ‘O público se manifesta muito por e-mail. Recebemos de tudo: desde reclamação sobre os senadores até comentários sobre apresentadores’, acrescenta Leila Daher, da TV Senado.

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