Domingo, 30 de Abril de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº941

MONITOR DA IMPRENSA > IMPERIALISMO COSMOLÓGICO

A oligarquia midiática planetária

Por Luís Eustáquio Soares em 12/09/2011 na edição 659

O imperialismo é a dimensão laica e pragmática do capital concentrado, em expansão contínua, sob a forma conjunta do monopólio e do oligopólio, no que diz respeito ao modelo de apropriação econômica da riqueza comumente produzida; e sob o domínio oligárquico planetário, no que tange ao perfil de classe que detém, administra e usurpa o trabalho coletivo dos povos e suas riquezas.

O imperialismo é pragmático porque faz o que tem que ser feito, para conseguir seus objetivos: é indiferente, seja em relação aos inomináveis e bárbaros sofrimentos e guerras que realiza; seja no que diz respeito a ideias, ideologias, argumentos, comportamentos, conhecimentos, tecnologias, instituições e perfis humanos que usa, sem cessar, para se expandir, ocupar, dominar, humilhar, roubar, matar.

Para o imperialismo, os regimes políticos – democracias formais, ditaduras reais –, as faculdades intrínsecas dos seres, as crenças, a cultura, o perfil étnico, a sexualidade, os conhecimentos, o perfil ideológico, comportamental e o desenvolvimento técnico-científico dos diferentes povos e comunidades do planeta não têm importância alguma, por eles mesmos, pois, pragmaticamente, o que conta é o jogo combinatório que é possível realizar entre as diferenças, no sistema-mundo, a fim de concentrar riquezas e expandir mais e mais, submetendo a tudo e a todos.

O cenário do imperialismo contemporâneo

Em si mesmo, para o imperialismo, pouco importa se você é homossexual, guerrilheiro, comunista, fascista, revolucionário, branco, direitista, operário, patrão, analfabeto, poeta, negro, índio, amarelo, azul, cor-de-rosa, verde, vermelho, jovem, velho, adulto, criança, travesti, pois tudo, como um quebra-cabeça, é estratégico objetivo do imperialismo, cujo movimento expansionista é ao mesmo tempo físico e subjetivo, uma vez que toma, submete, explora e manieta não apenas territórios, riquezas materiais e corpos, mas também mentes, comportamentos, desejos, expectativas, técnicas, riquezas simbólicas, ódios, crenças, linguagens.

Pensar o imperialismo sob o ponto de vista apenas de sua expansão territorial é uma flagrante redução teórica – de consequências nefastas –, uma vez que sua invasão territorial é simultaneamente simbólica e física. O imperialismo se expande ao mesmo tempo como sistema físico e semiótico, razão pela qual submete os bens materiais e imateriais, ao tempo em que os combina como recurso para expandir o seu próprio centro: a mais-valia concentrada em monopólios e oligopólios, sob o controle pragmático e laico de oligarquias ou plutocracias.

A expansão imperialista é, portanto, tecida e entretecida por múltiplas coordenadas: populacionais, espaciais, temporais, subjetivas, cognitivas, estéticas, ideológicas, comportamentais, estilísticas, plásticas, sociais, culturais, eróticas, comunicacionais, individuais, grupais, cosmológicas.

E aqui finalmente chego ao principal argumento que tecerei, neste artigo: o planeta todo, concebido como um campo de observação/colonização/informação, é o cenário do imperialismo contemporâneo.

O grande irmão cosmológico

Quando, sob esse ponto de vista, em 12 de abril de 1961, o astronauta russo Iuri Gagarin, a bordo da nave Vostok I, disse a conhecida frase “a terra é azul”, não apenas a humanidade, como nunca, foi tomada pela necessidade urgente da consciência vital de que o planeta, ele mesmo, vive – é azul – e, vivo, abriga vidas em interação ininterrupta, mas também foi acionada, contra o planeta vivo, a bomba relógio do mau agouro imperialista, cujo inconsciente bélico nos avisava que doravante sua expansão genocida teria como ininterrupto objetivo o planeta todo, igualmente visto e concebido como interdependente, razão pela qual a dominação deveria ocorrer através da interação de fatores vivos do campo de batalha – o qual, agora, inevitavelmente, em tempo real, seria o planeta todo.

Iniciava aí a verdadeira guerra fria, silenciosa e ininterrupta, cujos protagonistas não eram simplesmente americanos e russos, capitalistas e comunistas, mas antes de tudo o imperialismo mesmo, como o grande irmão a auscultar, vigiar, mirar o planeta todo, através da disseminação de satélites que diferentes oligarquias – de diferentes países – iriam lançar e fazer gravitar sobre o espaço extraterrestre, a fim de nos flagrar e tomar, como um flash, nos diversos momentos em que nos interagimos, como desejos individuais e coletivos; cidades, países, culturas, climas, povos; riquezas reais e potenciais; materiais e imateriais.

Quatorze anos depois do prodígio cosmológico russo, em 1975 Michel Foucault publicava Vigiar e Punir e nos alertava sobre a estrutura panóptica do poder, o qual, a partir de uma torre central, vigiava, sem ser vigiado, todo o entorno. Foucault não imaginou – embora tivesse intuído – que o verdadeiro juízo de Deus panóptico, com sua onipresença e onipotência soberanas, não ocorreria apenas tendo em vista o formato panóptico da arquitetura de escolas, fábricas, hospícios e quarteis, mas antes de tudo tendo em vista, via-satélite, o planeta todo, como o entorno de antenas e câmaras extraterrestres, a nos auscultar, manietar, vigiar e punir, cosmologicamente.

Em diálogo com panóptico de Foucault, o escritor inglês, George Orwell, com seu 1984, teria acertado na pinta, como narrador de ficção científica, se tivesse dado o seguinte títuloa seu mais famoso romance: “1961, marco zero do grande irmão cosmológico”.

O panoptismo de base cosmológica

Sei que é pedir demais, tanto a Foucault quanto a George Orwell, terem, respectivamente, teorizado e ficcionalizado a forma de dominação contemporânea do imperialismo, dotada de um panoptismo cosmológico, como cosmológico é o grande irmão imperialista da atualidade. Embora não tenham tido o imperialismo em si como referência, ambos, Foucault e Orwell, devem ser respeitados pelo instigante esboço que apresentaram da besta que emergia, a partir de 1961: a besta do imperialismo extraterrestre, cultivada e gestada a partir da terra mesma, pelo Pentágono, o Departamento de Estado, a CIA, a Agência Espacial americana, mas também por oligarquias de países diversos: China, Rússia, Alemanha, Japão, França, Itália, Israel, dentre outras.

Não obstante o valor científico das tecnologias espaciais, com seus processamentos e geração de imagens, sensoriamento remoto e satélites e sistemas ambientais, seja para prevenir desastres, seja para a agricultura, seja para o sem fim de outros inestimáveis usos, para o bem da humanidade, satélites como CryoSat-2, cujo objetivo é o de medir a altura e a espessura das geleiras continentais, assim como Goce, que objetiva mapear as correntes marítimas, podem ter,simultaneamente, usos imprevistos, secretos, de mapeamento de informações climáticas que podem ser, por exemplo, utilizadas contra países e povos.

Por sua vez, o aparelho concebido pelo Departamento de Estado americano, o Sistema de Posicionamento Global (GPS), bem mais que captar, via-satélite, sinais de receptores, como automóveis, localizando com precisão onde se encontram, podem e certamente são utilizados para vigiar, punir, explorar, matar.

De qualquer forma, mas que criar um sem fim de argumentos conspiratórios, o objetivo deste artigo é salientar que o imperialismo contemporâneo é cosmológico, motivo pelo qual tanto a resistência quanto a alternativa devem ser também cosmológicas, porque no mínimo correm o sério risco de se transformarem em receptores, como peças de um jogo, do pragmatismo, via-satélite, do imperialismo cosmológico, global.

Acontecimentos recentes como as chamadas revoltas árabes, a invasão imperialista da Líbia e mesmo a destruição das Torres Gêmeas, de Nova York, não podem ser analisados localmente, por mais legítimos que sejam os pleitos, por mais “honestos” que sejam os rebeldes. Tal como opanóptico de Foucault, todos os acontecimentos contemporâneos – como lutas, demandas por justiças, revoltas, guerras de guerrilhas ou entre grupos étnicos, atentados terroristas – são analisados, explorados e projetados antes, durante e depois deles mesmos, na relação deles com outros acontecimentos, outras possibilidades, outros interesses, pelopanoptismo de base cosmológica da atualidade.

A batalha está de antemão perdida

Mais do que nunca, se quisermos sobreviver e superar o capitalismo – e, portanto, a rapina imperialista – temos que assumir o ponto de vista cosmológico para analisar, apoiar, deixar de apoiar e antes de tudo atuar, como militantes, como rebeldes, revolucionários, no planeta vivo, azul, potenciando demandas de justiça, de liberdade, de alegria, a partir da interação delas, através delas, sob o prisma cosmológico comum de que somos igualmente habitantes deste planeta e que o inimigo panóptico nos divide desde de dentro, por baixo e antes de tudo pelo alto, via-satélite, através de tecnologias de alta definição, sob todos os pontos de vista: alta definição para fotografar nossos pontos fracos, nossos desejos; alta definição para nos dividir, alta definição para manipular nossas crenças, sectarismos; alta definição para nos separar em línguas, países, comunidades, tribos, etnias, sexualidades, ideologias, regimes políticos; alta definição para manietar nossas revoltas, empurrando-as contra inimigos de fachada, sem importância, para a emancipação da humanidade, mas que, eventualmente, num dado momento, em flash, do presente, podem ser obstáculos estratégicos para o imperialismo cosmológico, como ocorreu com o líder líbio Kadafi – sem dúvida um obstáculo real para o imperialismo cosmológico, não obstante as concessões que fez, as quais constituem, bem entendido, mais que traição, seu erro crasso, estratégico, responsável pela sua derrocada, porque, tal como nós, não atuou, como faz o imperialismo, cosmologicamente, mas a partir de interesses locais, particulares, narcísicos.

Não existe, por sua vez, a mínima possibilidade de assumirmos o ponto de vista cosmológico, se não tomarmos, democratizarmos, as tecnologias de comunicação, que captam, como GPS, nossas demandas e as manipulam globalmente, sem piedade, sem sentimentalismo, mas com um indiferente pragmatismo, não importando quem somos, para alcançar seus objetivos de curto, médio e longo alcances, através de pequenas, médias e altas definições estratégicas, cosmológicas, imperialistas.

O imperialismo é o monopólio do capital, bélico-estratégico, de alta-definição e está a serviço dos oligopólios e das oligarquias. Pragmaticamente, o principal braço oligopólio do imperialismo é o sistema de comunicação cosmológico, via satélite. É através do oligopólio midiático planetário que o imperialismo mantém a coesão, ainda que precária, entre os interesses oligárquicos das diversas elites econômicas do planeta, independente do regime político de seus respectivos países.

Fundamentalmente, portanto, a principal arma cosmológica do imperialismo é o oligopólio midiático, razão pela qual, se cultivamos a democracia de fato; se somos contra os ditadores, a tarefa primordial, a mais urgente e estratégica, para superar a rapina imperialista – logo, para destronar os verdadeiros ditadores da atualidade – é a democratização planetária do sistema de comunicação cosmológico.

Sem a democratização do oligopólio midiático, através da extinção dos ditadores estilo Murdoch, existentes em todos os países do planeta, como oligarcas ou grandes irmãos do imperialismo cosmológico, a batalha está de antemão perdida, de modo que as revoluções serão sempre as das cores da alta resolução de nossas misérias, ilusões, vaidades, miopias, impotências.

***

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Espírito Santo]

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