Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > AFEGANISTÃO

A `outra guerra´, na visão de um repórter americano

10/04/2006 na edição 376

Quando o repórter do Washington Post Griff Witte foi para o Afeganistão em novembro do ano passado, com o objetivo de trabalhar no país por três meses, ele já havia adquirido um conhecimento substancial do local e de sua história. Como pesquisador de Steve Coll, ex-diretor de redação do Post e vencedor do Pulitzer com o livro Ghost Wars, Witte já havia viajado diversas vezes para o Afeganistão em 2002.


Uma lição que ele aprendeu rapidamente em suas primeiras viagens: o significado cultural de pêlos e barba. ‘Alguém veio para o meu tradutor certa vez e disse: ‘Esta pessoa que está com você é uma mulher bonita’. O tradutor me disse que o homem não havia feito um comentário maldoso; ele realmente pensou que eu era uma mulher’, relembra o repórter. ‘Quando comecei a deixar minha barba crescer, isto nunca mais aconteceu’. Coll elogiou o trabalho de Witte, afirmando que ele foi ‘um colaborador ideal e essencial para o projeto’.


Experiência diferente


No entanto, na volta ao Afeganistão para ser correspondente do Post, em novembro, Witte notou que a situação de perigo crescente havia mudado significantemente o cenário para os jornalistas, que passaram a ter que se preocupar não com sua aparência, mas com sua segurança. Embora ele tenha viajado para diversas regiões do país, devido à violência insurgente, além dos ataques às forças dos EUA e às da coalizão, a maior parte de seu trabalho foi feita em Cabul.


Witte ficou surpreso com a rede moderna de telefonia celular, mas como poucas pessoas podem pagar pelo telefone, para entrevistar os afegãos ele tinha que sair às ruas. Jornalistas não são alvos da violência da mesma maneira como ocorre no Iraque, ‘mas obviamente os insurgentes estão procurando por alvos ocidentais, e se eles puderam pegar qualquer ocidental, irão fazê-lo’, nota ele.


Um outro sinal de possível progresso observado por Witte: os membros desorganizados das milícias ‘que, durante as entrevistas que eu fazia com seus líderes, costumavam passar o tempo nervosamente mexendo na trava de segurança de suas Kalashnikovs [um tipo de fuzil], agora estão viciados em jogos de celular’, relata.


Perigo maior


Os atentados com homens-bomba aumentaram consideravelmente no país. Mais preocupante ainda é a incerteza de suas origens. ‘Eles estariam copiando os ataques no Iraque ou há uma coordenação entre os insurgentes do Iraque e os do Afeganistão?’, questiona o repórter.


Embora Witte nunca tenha usado sua roupa e capacete militares, ele reduziu o tempo que permanece na rua. ‘Eu senti que não podia ficar em público por muito tempo como costumava fazer. No Afeganistão, é fácil reunir uma multidão. Você começa a falar com uma pessoa e termina com 30 ao seu redor; não te ameaçando, mas apenas curiosos querendo saber o que você está perguntando’, relata.


Ignorado pela televisão


No entanto, o fator que causa mais surpresa ao repórter é a pouca cobertura de mídia sobre o Afeganistão. ‘Não há presença de equipes de televisão em nenhum lugar, e há poucas matérias visuais. Temos 19 mil soldados lá, muitos dos terroristas mais perigosos do mundo estão lá ou na fronteira com o país, e o Afeganistão é responsável por fornecer 80% da heroína consumida mundialmente. Como descobrimos no 11/9, é importante saber o que se passa nas cidades afegãs’, opina. ‘O problema não é falta de coragem entre os correspondentes, mas falta de recurso e, algumas vezes, falta de liderança entre os editores, que admitem que estão sob pressões econômicas excepcionais ultimamente’, completa Coll.


Enquanto a guerra no Afeganistão tende a não atrair a atenção da mídia televisiva, ela foi tema de matérias de capa em jornais nos EUA em março, quando o presidente George W. Bush visitou o país por cinco horas – marcando a primeira visita de um presidente americano ao Afeganistão desde Eisenhower. ‘A administração americana gostaria de divulgar a guerra no Afeganistão como uma história de sucesso, mas isto ainda não é possível’, observa Witte.


Mesmo assim, o repórter acredita que há sinais de esperança de que o governo afegão esteja expandindo sua autoridade para além de Cabul, e que seu Exército esteja começando a agir mais profissionalmente. Ainda há corrupção na polícia, que age de acordo com interesses nacionais e regionais, diz ele. ‘Na província de Uruzgan, as pessoas afirmaram que a polícia constitui uma ameaça maior que o Talibã’, conta.


Witte retornou do Afeganistão em março e teria ficado mais tempo se sua mulher, Emily Bliss, tivesse conseguido ir para o país. A escritora e professora universitária não foi por motivos de segurança. Informações de Bárbara Bedway [Editor & Publisher, 3/4/06].

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