Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > COLÔMBIA

Amedrontada, imprensa se rende à autocensura

25/05/2006 na edição 382

Jenny Manrique, 25 anos, trabalhava como repórter para o jornal colombiano Vanguardia Liberal, na cidade de Bucaramanga. Após noticiar que grupos paramilitares haviam roubado doações para desabrigados pelas enchentes, Jenny passou a receber ameaças anônimas em seu telefone celular. Quando as ameaças passaram a ser dirigidas ao telefone da casa de seus pais, em Bogotá, a jovem repórter deixou o país. Com a ajuda do Comitê para a Proteção dos Jornalistas e da Fundação para a Liberdade de Imprensa, ela vive desde março em Lima, no Peru, ganhando menos da metade do que recebia antes de deixar o jornal em licença não-remunerada. Ainda que pense em voltar à Colômbia, Jenny não sabe se irá continuar sua carreira jornalística.


O caso de Jenny é extremo, mas não único. Foi-se o tempo em que profissionais de imprensa na Colômbia ousavam dar tudo de si por um bom furo jornalístico. Hoje, eles cuidam pela segurança de sua família e muito dificilmente contam publicamente tudo o que descobrem em suas apurações. ‘Você sabe com quem pode mexer e com quem não pode’, afirma Jorge Quintero, correspondente na cidade de Florencia para o El Tiempo, maior jornal do país.


Trabalho arriscado


O temor de Quintero é compartilhado por seus colegas de profissão, principalmente pelos que atuam em províncias menores, onde a presença governamental é fraca. Desta forma, expor narcotraficantes, rebeldes de esquerda ou milícias direitistas é risco grande de assassinato.


Na última década, 28 jornalistas foram mortos na Colômbia – índice que deu ao país a nada agradável classificação de segundo lugar mais perigoso para o trabalho jornalístico, perdendo apenas para o Iraque, segundo dados do CPJ. A maioria dos crimes cometidos contra profissionais de imprensa colombianos nunca foi solucionada.


Reféns do silêncio


Nos últimos dois anos, entretanto, apenas um jornalista foi assassinado no país, declínio que o presidente Álvaro Uribe atribuiu ao sucesso de suas rígidas políticas de segurança. Diversos jornalistas defendem outra teoria: para eles, há menos mortes porque nunca houve tanto silêncio.


Para preservar suas vidas e garantir a segurança de suas famílias, jornalistas preferem a autocensura. Uma pesquisa realizada pelo CPJ em 2005 encontrou mais de 30 profissionais de rádio, televisão ou veículos impressos que admitiram ter deixado passar notícias importantes.


A editora Marisol Gomez Giraldo, do El Tiempo, conta que muitos de seus correspondentes costumam rejeitar certas pautas por medo de represália. Quando finalmente encaram um assunto sensível, tendem a reportar metade do que sabem e se recusam a assinar a matéria. Ao mesmo tempo, há regiões do país que são virtualmente fora dos limites do jornal. Na província de Arauca, por exemplo, não há correspondente do El Tiempo há mais de dois anos. O resultado disso é que os jornalistas dependem, cada vez mais, de informações muitas vezes imprecisas dos militares colombianos, apresentando ao público apenas um lado da guerrilha.


Perigo oficial


Para piorar a situação, muitas vezes o perigo e o clima de medo são provocados pelas próprias autoridades. Na semana passada, quatro jornalistas foram detidos pela polícia sob acusação de estimular um protesto popular contra um pacto de livre comércio com os EUA. Mesmo libertados pouco tempo depois, pelo menos dois dos profissionais disseram ter sido espancados pelos policiais e tiveram suas câmeras confiscadas.


Durante uma entrevista de rádio em junho de 2005, o próprio Uribe acusou o jornalista Hollman Morris de colaborar com a guerrilha quando filmava um documentário da BBC no sul da Colômbia. O presidente posteriormente se desculpou pelos comentários, mas Morris afirma que o ataque verbal fez com que ele se tornasse um ‘homem marcado’.


Sob ameaças, o jornalista recebeu, junto com sua família, proteção da polícia secreta do governo. ‘Mas de que adianta se um dia eles oferecem proteção e no outro eles cospem na minha cara?’, desabafa. ‘Toda a segurança privada no mundo não substitui um comprometimento político verdadeiro com a proteção da liberdade de imprensa e expressão’. Informações de Joshua Goodman [Associated Press, 24/5/06].

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