Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

MONITOR DA IMPRENSA > EDIÇÃO DOS SOBREVIVENTES

Após atentado, ‘Charlie Hebdo’ traz Maomé na capa

Por lgarcia em 14/01/2015 na edição 833

Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Sam Schechner (com contribuição de Inti Landauro)[“Charlie Hebdo Cover Features Muhammad on Post-Attack Issue”, The Wall Street Journal, 13/1/15], Alexandra Topping [“Charlie Hebdo’s new edition ‘made with joy as well as pain’”, The Guardian, 13/1/15] e de Anne Penketh (Paris) e Matthew Weaver (Londres) [“Charlie Hebdo: first cover since terror attack depicts prophet Muhammad”, The Guardian, 13/1/15]

Na primeira edição após o ataque terrorista à redação da Charlie Hebdo em Paris, em 7/1, o semanário satírico trouxe em sua capa o profeta Maomé. Foi justamente a publicação de charges fazendo piada com o profeta que motivou o atentado, que deixou 12 mortos. O Islã condena a representação de Maomé, considerada uma ofensa.

Na edição desta semana, mais enxuta do que as edições regulares da revista, o profeta aparece chorando, segurando um cartaz onde está escrito “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie), frase que virou símbolo das manifestações de apoio à liberdade de expressão e em homenagem às vítimas do ataque. Acima do desenho foi escrito “Tudo será perdoado”. A capa foi criada pelo cartunista Rénald “Luz” Luzier, que escapou do atentado porque, justo naquele dia, perdeu a hora e chegou atrasado à redação. O cartunista chorou durante a bastante concorrida coletiva de imprensa na qual apresentou seu desenho.

De acordo com Luzier, a escolha da capa foi consenso entre os cartunistas do semanário. Logo após a tragédia, todos os cartunistas e jornalistas debateram sobre o que incluir na edição que viria a seguir. Eles pensaram em fazer caricaturas de seus amigos mortos, mas a ideia foi rapidamente rejeitada em favor de manter uma edição “normal”.

Luzier disse não temer as consequências da cobertura. “Temos confiança na inteligência das pessoas e temos confiança no humor. As pessoas que fizeram o ataque não têm senso de humor”, concluiu.

A Charlie Hebdo prometeu imprimir até três milhões de cópias da edição pós-atentado – 50 vezes a circulação normal –, que ficará nas bancas por duas semanas, excepcionalmente. No entanto, a equipe faz questão de frisar que não se trata de uma edição especial.

Ajuda de outros veículos

Nas horas após ao ataque, a ideia de fazer uma edição para a semana seguinte pareceu impossível. O editor-chefe da Charlie, Stéphane “Charb” Charbonnier, estava morto, bem como alguns dos principais cartunistas, colaboradores e subeditores da publicação. No entanto, os sobreviventes optaram por reagir imediatamente, principalmente porque receberam muito apoio e uma série de doações financeiras.

Dois dias depois, a equipe montou acampamento na sede do jornal Libération, mesmo lugar onde havia se refugiado em 2011 depois que os escritórios da Charlie Hebdo foram bombardeados – após a publicação de caricaturas do profeta Maomé. A portaria do prédio onde fica a redação do Libération está sendo vigiada em tempo integral pela polícia francesa.

Muitos veículos e empresas apoiaram a equipe remanescente da Charlie Hebdo. O Le Monde ofereceu computadores, e o La Poste, serviço postal de propriedade do governo francês, prometeu à revista um ano de entrega gratuita. Versões digitais da revista estarão disponíveis em espanhol, árabe, francês e inglês. O diário turco Cumhuriyet e o italiano Il Fatto Quotidiano publicarão a edição impressa em suas páginas.

Distribuidores também estão abrindo mão de suas taxas sobre a distribuição do primeiro milhão de cópias da edição pós-atentado a fim de permitir que os valores arrecadados vão para a revista e as famílias das vítimas.

A emissora estatal France Télévisions transmitiu um concerto de três horas e meia em apoio à Charlie Hebdo no canal France 2.

Apoio comovente e hipócrita

O ataque transformou a Charlie Hebdo em um símbolo da liberdade de expressão. No domingo (11/1), milhões de pessoas foram às ruas na França entoando o nome da revista, inclusive diversos chefes de Estado. Entre os presentes estavam representantes da Turquia, Egito e Rússia, curiosamente países muito criticados por restringir a liberdade de expressão.

Laurent Léger, um repórter da revista que sobreviveu ao tiroteio, disse que as manifestações são extremamente comoventes, mas também um tanto hipócritas. “De repente estamos sendo apoiados pelo mundo inteiro. Só que durante anos estivemos completamente sozinhos”, criticou. Léger também ironizou a presença de alguns governantes na marcha. “Todos esses ditadores em uma passeata pela liberdade… Nós naturalmente vamos continuar a zombaria. Vamos ver se isso os deixa furiosos”, provocou.

Já Gerard Biard, novo editor-chefe da Charlie Hebdo, acrescentou que a publicação sentia-se “um pouco sozinha” nos últimos anos e fez um apelo apaixonado para que todos que usaram a frase “Je suis Charlie” continuem a defender a laicidade do Estado.

Zineb El Rhazoui, colunista sobrevivente que trabalhou na nova edição, disse que a chamada de capa mostra o perdão aos terroristas que assassinaram seus colegas, indicando que não havia ódio contra os atiradores, os irmãos Chérif e Saïd Kouachi. “Sabemos que a luta não é contra eles como pessoas, a luta é contra uma ideologia”, disse ela em entrevista a um programa de rádio da BBC.

Repercussão pelo mundo

A capa pós-atentado da Charlie Hebdo foi recebida com polêmica pela imprensa francesa e internacional. Jornais europeus, incluindo o Libération, o Le Monde e o alemão Frankfurter Allgemeine, publicaram a imagem online. A BBC também a mostrou brevemente durante uma edição do noticiário noturno. Nos Estados Unidos, Washington Post, USA Today, Los Angeles Times, Wall Street Journal, Daily Beast e CBS News publicaram a capa, mas o New York Times, não. Na Austrália, a ABC mostrou o desenho, porém com um aviso aos telespectadores. O britânico The Guardian também publicou a caricatura com um alerta de que o desenho poderia ofender a alguns leitores.

Omer el-Hamdoon, presidente da Associação Muçulmana da Grã-Bretanha, criticou a capa da Hebdo e disse que o evento não se difere muito da polêmica causada pelo jornal dinamarquês JyllandsPosten, que em meados de 2006 publicou caricaturas de Maomé, provocando violentos protestos em diversos países.

O príncipe Hassan bin Talal, da Jordânia, disse que o desenho serviu apenas para acrescentar mais sal na ferida.

Boris Johnson, prefeito de Londres, afirmou à BBC que a Charlie Hebdo não teve escolha senão imprimir a capa. “Você pode até discordar com o que eles fazem, pode sentir-se ofendido com o que fazer, mas deve defender o direito de publicarem”, concluiu.

O ex-primeiro-ministro francês François Fillon classificou a capa como “magnífica” e disse que a imagem levou a mensagem de compaixão ensinada por todas as regiões. “Sempre defendi a Charlie Hebdo. Não pode haver qualquer debate sobre a liberdade de expressão, nunca”, completou.

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