Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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MONITOR DA IMPRENSA >

As fontes e seus problemas

18/08/2009 na edição 551

Na semana passada, o New York Times teve de lidar com problemas ligados a fontes jornalísticas – as anônimas e as identificadas. O ombudsman Clark Hoyt tratou do tema em sua coluna de domingo [16/8/09].

Em um dos casos, o jornal citou ‘pessoas próximas à família de Michael Jackson’ que disseram que advogados da mãe do cantor, Katherine Jackson, ‘consideravam acusar os dois advogados que administram a herança dele, John Branca e John McClain, de tirar vantagem dos vícios de Jackson, que comprometiam sua capacidade de decisão’. A acusação anônima violou a regra do diário que não permite a publicação de ataques pessoais feitos por fontes não identificadas. A reportagem levantou suspeita de má conduta sem esclarecer o que significava ‘tirar vantagem’ e sem apresentar nenhuma prova concreta.

Quando o artigo foi divulgado no site do NYTimes, não houve resposta dos advogados administradores da herança. Posteriormente, James Bates, porta-voz de Branca, foi citado alegando que não havia evidências de que eles haviam tirado vantagem do cantor. Dois dias depois, uma nota do editor foi publicada, explicando que o artigo deveria ter mencionado que o repórter procurou ouvir os administradores, mas um porta-voz não quis dar entrevista. Bates procurou o ombudsman para refutar a nota, alegando que ele e Branca só souberam da acusação quando ela foi publicada. Ele informou que a declaração que lhe foi atribuída provavelmente foi tomada de um telefonema que ele fez ao repórter para alegar que a acusação era falsa e difamatória e deveria, portanto, ser removida.

O repórter Solomon Moore, Bates e Branca têm lembranças discordantes dos eventos. Segundo Moore, a primeira vez que falou com Branca sobre a acusação foi em uma audiência. Mais tarde, antes da publicação da matéria, o repórter teria questionado Bates e o advogado por telefone. Nenhum dos dois quis falar. Branca diz que isso não ocorreu e afirma que, se tivesse sido questionado, teria sido ‘claro, definitivo e enfático’.

Moore e sua editora, Barbara Graustark, viram a informação de fontes anônimas como uma estratégia legal de Katherine Jackson. Mas, posteriormente, Barbara reconheceu que, se as fontes não podiam ser nomeadas e não forneceram provas, a acusação não deveria ter sido publicada, independente dos administradores da herança tendo sido procurados para comentar o caso. Depois da reclamação de Bates, uma segunda nota do editor foi publicada, desta vez declarando que a acusação anônima não deveria ter sido publicada, sem ou com comentários.

O ombudsman recebe diversas reclamações sobre fontes anônimas no diário e percebe que algumas vezes seu uso ocorre de forma casual, em confronto com os padrões de qualidade do jornal. Editores garantem que estão em constante vigilância e o episódio da semana passada mostra que isto é vital, pois um lapso pode significar um grande problema.

Pouca diversidade

O outro caso da semana refere-se a um artigo de capa que argumentava que a tecnologia está alterando completamente a rotina das famílias americanas, e que isso cria tensões em muitos lares. Como ocorre em muitas matérias, esta começou usando uma família específica como exemplo – Karl e Dorsey Gude e seus dois filhos adolescentes.

A história dos personagens na reportagem era fascinante, mas o repórter, Brad Stone, não os encontrou por acaso. Embora não se falassem há 10 anos, Stone e Karl trabalharam juntos na revista Newsweek. Uma outra fonte, identificada como ‘Gabrielle Glaser, de Montclair’, é uma jornalista freelancer que já teve seu trabalho publicado 54 vezes pelo NYTimes, além de ser casada com Stephen Engelberg, ex-repórter e editor do jornalão. Outras três fontes também eram veteranas em veículos de comunicação. Naomi Baron, professora da Universidade Americana, foi citada sete vezes em outros artigos do diário e já escreveu um editorial. James Steyer foi citado 13 vezes e é co-fundador da Common Sense Media, uma organização não-governamental que lida com questões referentes a crianças e entretenimento. Liz Perle, identificada apenas como ‘uma mãe de São Francisco’, é editora-chefe da instituição.

Uma matéria que mostra tendências deve apresentar uma diversidade de fontes e especialistas que comprovem as afirmações do artigo – o que não ocorreu neste caso. Um blog desconhecido revelou as conexões entre as fontes, ‘desmascarando’ o NYTimes. Para Craig Whitney, editor de padrões do diário, ‘não se pode fazer uma matéria sobre uma tendência nacional com tão poucas evidências’.

Stone explicou-se ao ombudsman. Ele enviou diversas mensagens para pessoas que achou que teriam sugestões de personagens e, por meio delas, conseguiu 10 famílias para entrevistar – na matéria, apenas cinco famílias foram citadas; algumas das que não apareceram não tinham ligação com a mídia. Ele entrou em contato com Gude por meio do Facebook e encontrou Gabrielle através de um amigo em comum. O repórter contou a seu editor, David Gallagher, sua relação com Gude e o fato de Gabrielle já ter escrito para o NYTimes. Na ocasião, o editor não viu problema algum, mas, em retrospecto, admite que deveria ter escolhido outros personagens.

Gabrielle chegou a sugerir que seu nome não fosse mencionado e se ofereceu para procurar outros personagens. Mas Stone achou que a história da filha dela, de 14 anos, ter perdido o ônibus da escola por estar conversando no Facebook era muito boa para não ser publicada.

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