Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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MONITOR DA IMPRENSA >

Asimov e os vídeos da morte

Por Sheila Sacks em 21/11/2006 na edição 408

Há quase cinco anos, um vídeo de pouco mais de três minutos chocou o mundo. Suas imagens mostravam o correspondente americano Daniel Pearl, do Wall Street Journal, sendo decapitado. A internet e a TV foram os veículos usados pelos terroristas para difundir a mensagem da barbárie. O jornalista, de 38 anos, estava no Paquistão fazendo uma reportagem quando foi seqüestrado e, antes de ser executado, o obrigaram a falar de suas raízes judaicas, que motivaram a sentença. No vídeo, as mãos que seguravam a cabeça decepada de Pearl eram do paquistanês Khalid Sheik Mohammed (conhecido como KSM), o arquiteto dos ataques de 11 de setembro de 2001 e responsável pela produção e distribuição do vídeo. Capturado e preso, em 2003, KSM era o homem-forte da al-Qaeda que liderava as ações terroristas no Paquistão e no Kuwait, e partiu dele a ordem de matar o jornalista.

Em maio de 2004, dois anos depois do assassinato de Pearl, outro vídeo de igual teor era exibido pela internet. As imagens mostravam o técnico de comunicações Nicholas Berg, de 26 anos, sendo obrigado a dizer os nomes de seus parentes – dos pais Michael e Susan e dos irmãos David e Sarah – antes de ser degolado. Americano de origem judaica, Berg estava trabalhando em Bagdá quando foi raptado. As pistas sobre sua execução levaram ao terrorista nascido na Jordânia Abu Musab al-Zarqawi, comandante das ações da al-Qaeda no Iraque, morto em junho deste ano.

Os grandes e o pequeno

A estratégia de uso de gravações em vídeo para difundir ameaças, execuções e ações de terror tem sido empregada, há mais de 10 anos, pelo saudita Osama bin Laden, 49 anos, o chefe supremo da organização terrorista al-Qaeda. Desde 1995 ele tem enviado dezenas de mensagens gravadas – transmitidas preferencialmente pela internet e a TV árabe al-Jazira – convocando os árabes a atacarem as forças americanas e os seus aliados, elogiando os bombardeios a alvos ocidentais e incentivando homens-bomba a promoverem mais atentados. O modo de agir do terrorista mais procurado do mundo tem sido comparado, por alguns especialistas, ao desenvolvido por um personagem muito conhecido dos leitores de ficção científica. Trata-se do matemático Hari Seldon, da trilogia conhecida como A fundação, escrita por Isaac Asimov.

Concebida entre os anos de 1940 e 1950, a série de contos de Asimov – que depois se transformou na obra que é considerada um marco na literatura de científica – tem como cenário um futuro distante (12000), habitado por Seldon, que cria uma ciência chamada psicohistória, capaz de prever comportamentos coletivos e, a partir daí, a queda do próprio Império Galáctico. Ele então despacha uma expedição para um lugar remoto onde estabelece um núcleo – A Fundação – do que seria o novo centro de poder. Face à força militar do império, Seldon também grava mensagens de vídeo para serem transmitidas aos seguidores nos momentos críticos, mesmo depois de sua morte.

Num trecho do livro, o matemático explica a estratégia de luta da Fundação: ‘Tivemos de desenvolver técnicas e métodos novos que o Império não pode imitar (…). Com todos os seus escudos nucleares, gigantes o bastante para proteger uma nave, uma cidade ou um planeta inteiro, nunca haviam sido capazes de criar algo que pudesse proteger a um único indivíduo (…). Toda a guerra é uma batalha entre esses dois sistemas, entre o Império e a Fundação, entre os grandes e o pequeno’.

Modelo de estudo

Coincidentemente, o termo al-Qaeda significa ‘a base’, em árabe, que tem conotação semelhante à palavra fundação na obra de Asimov. O sociólogo franco-iraniano Farhad Khosrokhavar, diretor da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, em Paris, autor de vários trabalhos sobre o terrorismo-suicida, dá sua interpretação do significado do nome da organização: ‘Al-Qaeda significa a base de dados que foi posta num sistema de informática com os nomes dos que lutariam contra os soviéticos, no Afeganistão’. Para o sociólogo a motivação política dos atos terroristas da al-Qaeda é bem maior do que a dimensão religiosa que muitos acreditam existir.

Bin Laden conhece muito bem os EUA, jogou lá na Bolsa de Valores e, durante muitos anos, colaborou com a CIA (Central Intelligence Agency). O número dois, Al-Zawairi, era cirurgião, e não um muçulmano tradicional. Também os que atacaram o World Trade Center, em Nova York, 15 deles, de um total de 19, eram da Arábia Saudita e da alta classe média. E os que são convocados para o trabalho subalterno, estes são freqüentemente ocidentais, que viveram e muitas vezes nasceram no Ocidente, como na França, na Inglaterra ou mesmo nos EUA. Não são árabes no sentido de terem nascido em país árabe. A sua educação foi no Ocidente.

Um pesquisador que tem estudado as semelhanças entre a al-Qaeda e A Fundação é o físico espanhol Juan José Miralles Canals, professor da Universidade de Castilla-La Mancha, em Toledo. Ele escreveu extenso artigo publicado na revista de informática Mundo Linux, intitulado ‘Internet, redes complexas, guerras de quarta geração e al-Qaeda’. De acordo com o professor, o 11 de Setembro formalizou o início da Quarta Guerra Mundial. ‘A identificação da al-Qaeda com A Fundação oferece um modelo de estudo sobre um projeto de poder para a conquista do planeta, a partir de um núcleo inicialmente muito débil frente a uma força mais poderosa’, registra Miralles.

Em surdina

Para o físico, alguns paralelismos entre as duas organizações são bem aparentes: 1) A ação é global; 2) O objetivo é a conquista do poder mundial; 3) A base física da organização fica em lugar remoto; 4) A religião funciona como instrumento para alcançar os objetivos; 5) A cada crise surge um vídeo com mensagens; 6) A internet é usada como uma rede condutora para alterar a percepção da realidade, manipular a inteligência, incutir medo e provocar desastres. Sobre este último item, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos já informou que foram encontrados computadores no Afeganistão – provavelmente relacionados com a al-Qaeda – com informações sobre interruptores digitais utilizados para o controle de energia elétrica, água, transporte e telecomunicações.

Segundo o diretor do Centro de Pesquisa de Informação da França (CF2R), Eric Dénéce, ‘hoje é mais difícil de se penetrar nas estruturas da al-Qaeda do que no aparato soviético, à época da Cortina de Ferro’. Especialista em Ciência Política e autor do livro al-Qaeda: a nova rede de terror, Dénéce revela que bin Laden formou a organização de maneira reticular, imitando os princípios da internet, o que lhe dá condições para melhor resistir aos ataques exteriores. ‘A al-Qaeda não tem estrutura hierárquica, dispõe de menos elementos financeiros do que imaginamos e limita-se à comunicação de pessoas que estão sozinhas em determinado momento. Os terroristas e os hackers (ciberpiratas) são recrutados pela internet para explodir alvos e provocar estragos nos sistemas’. Em sua opinião, não há nada mais difícil do que lutar contra uma organização com um modelo deste tipo.

É o que a genialidade de Isaac Asimov (1920-1992) já previa, há mais de 50 anos. Ph.D em Bioquímica, Asimov nasceu na Rússia, de família judaica, e chegou aos Estados Unidos aos 3 anos. Aos 11 já escrevia e aos 15 ingressou na faculdade. Foi professor na Universidade de Boston e redigiu em torno de 500 obras sobre diversos temas. Mas foi na ficção científica que ele conquistou a celebridade, inúmeros prêmios e milhões de leitores em todo o mundo. E no caso específico de A fundação, Asimov se superou ao criar, de fato, duas fundações: uma visível, que utilizava as ciências da física e atacava abertamente o império, e a outra, oculta e misteriosa, que trabalhava em surdina para exercer o domínio sobre as mentes de toda a galáxia.

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Jornalista, Rio de Janeiro

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