Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
Menu

MONITOR DA IMPRENSA >

Até Orwell ficaria surpreso

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 16/05/2006 na edição 381

Em 1948, George Orwell escreveu seu mais famoso romance, Nineteen Eighty-Four (1984), ficção enfocando o mundo de 1984. O poder estaria concentrado em três imensos superestados: Oceania, Eurásia e Estásia. A cidade principal da Oceania seria Londres, onde exercendo o vértice do poder político estaria o Grande Irmão (não confundir com os medíocres e de mau gosto reality shows televisivos). O Grande Irmão ‘orwelliano’ é onisciente e infalível, ninguém jamais lhe viu o rosto. Imediatamente abaixo dele está o Partido interno da minoria dominante e, no fim, a grande massa de súditos. Seus slogans políticos mais usados são: ‘A paz é a guerra’, ‘A liberdade é escravidão’, ‘A ignorância é a força’. Cada cidadão é espionado por todo o tempo de sua vida pelo Ministério da Verdade.

Passadas algumas décadas do período previsto por Orwell para ter início seu país ficcional, eis que ele começa a se apresentar. A capital não é Londres, mas Washington, o grande irmão tem rosto e atende pelo nome de George W. Bush. O Ministério da Verdade faz-se real com a NSA – National Security Agency (Agência de Segurança Nacional).

O herói de 1984, Winston Smith, materializa-se hoje na heroína Leslie Cauley, repórter de telecomunicações do importante diário USA Today. Fazendo exemplar jornalismo investigativo, ela conseguiu descobrir e denunciar a inimaginável invasão à privacidade nos Estados Unidos.

Perplexidade

A NSA, com a conivência das principais companhias telefônicas estadunidenses – Verizon, AT&T e BellSouth Corp. –, obteve o maior database (banco de dados) jamais recolhido no mundo. Numa invasão abusiva à privacidade individual, a partir do 11 de setembro, tabulou os telefonemas que a cada dia, por motivo de trabalho ou privado, cruzam-se nas cidades da América, de uma ponta a outra dos 50 estados. Uma fonte que ficou anônima garantiu que o objetivo da NSA era inserir em seus arquivos cada telefonema feito em território americano. O Senado quer entender o que está acontecendo: pediu que as companhias envolvidas expliquem por qual motivo entregaram os dados de dezenas de milhões de telefonemas de cidadãos à National Security Agency.

Após a denúncia de Leslie Cauley, o Congresso convenceu o presidente Bush a uma imediata e brevíssima declaração. Ele apareceu tenso diante das câmeras, defendendo-se com desculpas esfarrapadas, preocupantes para a liberdade individual: ‘No respeito da lei e para proteger o povo americano, autorizei a National Security Agency a interceptar as comunicações internacionais de gente com reais ligações com a al-Qaida e organizações terroristas coligadas. Esta é uma forma de dar caça à al-Qaida e seus simpatizantes.’

Como não podia deixar de ser, estas declarações deixaram perplexos os jornalistas presentes e insatisfeitos muitos senadores e deputados. Certamente deixaria surpreso, caso fosse vivo, até o escritor George Orwell.

******

Jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem