Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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MONITOR DA IMPRENSA >

Atentado contra jornalista amplia clima de guerra na imprensa

Por lgarcia em 30/04/2014 na edição 796

No dia 19/4, Hamid Mir, o apresentador de TV mais famoso do Paquistão, foi baleado à queima-roupa seis vezes quando seguia para um estúdio televisivo em Karachi. Mais do que um atentado contra um jornalista, o incidente representa um divisor de águas na imprensa paquistanesa, que praticamente deu início a uma guerra interna.

Mir, internado sob forte proteção policial, é funcionário da Geo News, a maior emissora de televisão do país. A emissora acusa o Inter-Services Intelligence (ISI), principal serviço de inteligência paquistanês, pelo ataque a seu funcionário.

O irmão de Hamid Mir, Amir Mir, que também é jornalista, reforçou as declarações contra o ISI num depoimento emocionado, transmitido pela Geo News durante horas. As acusações foram tão explícitas que a foto do diretor-geral do ISI, general Zaheer ul-Islam, chegou a ser exibida como imagem de fundo durante a transmissão.

Hamid Mir possui uma história ambígua com o ISI. Ele ganhou fama após entrevistar Osama bin Laden em 1998, e inicialmente foi visto como simpático à pauta pró-jihadista do Exército paquistanês e do ISI. No entanto, nos últimos anos o apresentador vinha defendendo a causa dos nacionalistas Baluch – irritando, assim, o Exército – e destacando os abusos dos direitos humanos durante as operações militares.

Acusações prematuras

Poucos duvidam que o ISI seja capaz de cometer o atentado. A célula da agência de espionagem tem em seu histórico casos de suborno, assédio, raptos, torturas e até mesmo a suspeita de assassinato de um jornalista. Em maio de 2011, o corpo do repórter investigativo Saleem Shahzad foi encontrado em um canal de Islamabad depois que ele foi sequestrado por supostos agentes do ISI. No entanto, até mesmo os mais ferrenhos críticos à agência de espionagem consideraram as acusações da Geo precipitadas e prematuras, principalmente num momento em que militantes islâmicos também estão mirando jornalistas.

Mesmo assim, emissoras rivais não perderam a oportunidade e levaram a controvérsia adiante, usando o atentado contra Hamid Mir para atacar o canal de TV e questionar as motivações do apresentador – uma emissora chegou a sugerir que o ataque tenha sido um golpe publicitário, afinal o ISI já vinha tentando formalmente tirar a concessão da Geo.

Resposta do ISI

A liderança do ISI reagiu com irritação à acusação de participação no atentado: tentou promover o desligamento da Geo e processou seus editores, alegando que as leis de imprensa do país foram violadas. Poucos dias depois, os telespectadores nas principais cidades do Paquistão descobriram que a Geo tinha desaparecido da posição habitual da grade da televisão a cabo. E no fim da semana passada apareceram cartazes no centro de Islamabad, capital do Paquistão, exaltando o ISI e exibindo fotos reluzentes do general ul-Islam, uma novidade em um país onde muitos cidadãos temem dizer a sigla “ISI” em voz alta.

Desde 2007, quando a cobertura televisiva teve um papel fundamental para atiçar os protestos de rua que levaram à queda do general Pervez Musharraf da presidência, a imprensa tornou-se um fator poderoso na sociedade paquistanesa. O noticiário ampliou o debate público e expôs abusos (embora ultimamente tenha enfrentado fortes críticas devido a reportagens de má qualidade e por oferecer uma plataforma para extremistas islâmicos).

Os militares, em particular, têm ficado inquietos com o escrutínio implacável dos meios de comunicação. Pouco tempo atrás, o recluso empresário e editor Mir Shakil ur-Rehman, que vive em Dubai e é dono do Jang Group, maior conglomerado de comunicação do Paquistão, acreditou que o ISI estivesse patrocinando uma nova estação de televisão, a Bol, a fim de diluir a influência comercial e política de sua empresa – que é dona, entre outros veículos, da Geo News. Os jornais do Jang Group chegaram a publicar reportagens hostis à Bol, o que levou grupos de comunicação concorrentes a rebater com histórias que pintavam a Geo como simpatizante da Índia, velha rival do Paquistão.

Mas há outros grupos que também miram jornalistas, em particular os talibãs paquistaneses e o Movimento Qaumi Muttadi (MQM), facção política dominante em Karachi, segundo a Anistia Internacional. Ambos já se infiltraram na própria Geo News. Em 2012, o grupo militante Lashkar-e-Jhangvi recrutou um repórter iniciante na emissora para ajudar a planejar o assassinato de um editor de notícias e de um proeminente apresentador de talk show, disse um ex-gerente da Geo com conhecimento direto sobre o caso. A trama foi frustrada quando o repórter confessou sua participação.

Um segundo funcionário da Geo foi identificado como militante após o ataque talibã em Mehran, base naval de Karachi, em junho de 2011. A emissora também acredita que informações privilegiadas tenham desempenhado um papel na morte de Wali Khan Babar, repórter da Geo assassinado pelo MQM em 2010.

Liberdade de imprensa em risco

É improvável que a controvérsia em torno do ataque a Mir seja solucionada. Nas últimas duas décadas, os tribunais do Paquistão condenaram apenas dois ataques fatais contra jornalistas: o de Wali Khan Babar e o caso notório de Daniel Pearl, repórter do Wall Street Journal morto em 2002 (este último, inclusive, transformado em filme).

Outros jornalistas, no entanto, temem que algo maior esteja em jogo: a duramente conquistada liberdade de imprensa no Paquistão. O furor em torno do ataque a Mir pode resultar não apenas no fechamento da Geo, mas também em maiores restrições a toda a imprensa local.

“A forma como isso tem se desenrolado é extremamente preocupante”, diz Zaffar Abbas, editor do jornal Dawn, um dos poucos veículos de comunicação que ficaram fora da disputa. “Nunca vi a imprensa se atacando assim. Se o bom senso não prevalecer, tudo o que ganhamos em liberdade de imprensa será perdido”.

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