Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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MONITOR DA IMPRENSA >

Atrocidades de Saddam omitidas do público

Por Edição de Leticia Nunes (com Dennis Barbosa) em 22/06/2004 na edição 282

‘O vídeo dura apenas quatro minutos – mostra algumas cenas de tortura dos tempos em que matadores de Saddam Hussein comandavam a prisão de Abu Ghraib. Eu não agüentei assistir, então saí da sala até que terminasse.’

O depoimento é da jornalista Deborah Orin, chefe da sucursal de Washington do jornal New York Post. Refere-se a um vídeo apresentado à imprensa pelo American Enterprise Institute onde são mostradas cenas de decapitação, dedos cortados um a um e línguas arrancadas por lâminas, enquanto as vítimas gritam de dor e os soldados de Saddam louvam seu líder.

Deborah não conseguiu ficar até o fim da apresentação. Segundo ela, alguns dos jornalistas que permaneceram na sala arrependeram-se, tamanha a violência explícita quer mostra o vídeo, que o AEI afirma ter conseguido pelo Pentágono.

Pouco interesse

Em matéria publicads em 16/6, a jornalista levanta questões sobre o vídeo. ‘Estas imagens horríveis’, diz ela, ‘não apareceram nos noticiário americanos’. De fato, o interesse por ele é tão pequeno que apenas cinco repórteres compareceram à exibição oferecida pelo AEI. Destes poucos, quase nenhum escreveu sobre o que viu.

‘Não é surpresa, já que nenhum noticiário divulgaria os vídeos das decapitações de Nick Berg, no Iraque, e de Daniel Pearl, no Afeganistão; ou as imagens dos empreiteiros americanos sendo estraçalhados por membros da al Qaeda em Fallujah. Mas todas as emissoras de TV mostraram infinitamente as fotos da humilhação de prisioneiros iraquianos nas mãos de soldados americanos em Abu Ghraib. Por quê?’

Segundo Michael Ledeen, do AEI, isso acontece porque a maioria dos jornalistas quer que Bush perca. Há dezenas de vídeos das atrocidades cometidas pelos seguidores de Saddam Hussein, mas o que o mundo repetidamente vê são as fotos de soldados dos EUA utilizando cachorros para assustar prisioneiros. Já as imagens de prisioneiros do regime de Saddam sendo comidos vivos por dobermans, descritas pelo ex-comissário de polícia de Nova York, Bernard Kerik, nunca serão levadas à público.

Segundo Deborah, o ex-oficial do Pentágono Richard Perle diz que tornou-se ‘politicamente incorreto’ mostrar os horrores do regime de Saddam, dada a violência das cenas. Em parte, ele culpa a mídia por isso.

Problemas e estratégias

Mas a jornalista salienta que, por serem tão horríveis, algumas das cenas das torturas de Saddam – assim como as que aparecem nos vídeos da al-Qaeda – são realmente insuportáveis de assistir. ‘Se eu não consegui vê-las, não estou recomendando que os outros as vejam’, afirma ela. ‘Mesmo assim, esta é uma questão que levanta um problema complexo na guerra contra o terror.’

Para explicar o problema, ela parte do princípio de que, como as fotos dos prisioneiros dos soldados americanos em Abu Ghraib são menos ofensivas do que as imagens dos abusos cometidos pelo exército de Saddam, e a imprensa escolhe mostrar os primeiros.

Lutar contra o terrorismo é complicado, já que é preciso articular estratégias e táticas especiais para lidar com grupos de pessoas capazes de, principalmente, jogar sujo. Para Deborah, o governo dos EUA ainda não conseguiu encontrar a estratégia ideal para lidar com o problema. A imprensa também não.

‘Os jornalistas devem enfrentar o fato de que, neste momento, se nós mostrarmos apenas os horrores que os americanos cometem e ignorarmos as atrocidades cometidas por outros estaremos servindo de ferramentas de propaganda para o inimigo’, conclui.

Ela diz que os vídeos de Saddam Hussein podem ser muito difíceis de ser vistos, mas é difícil de entender o baixo interesse da mídia por ângulos diferentes da guerra contra o terror.

A história de sete homens iraquianos que tiveram suas mãos cortadas durante o regime do ditador e foram para os EUA, onde ganharam ‘novas próteses nos braços e uma nova esperança na América’, segundo Deborah, não chama a atenção da imprensa. ‘Eles são eloquentes, estão disponíveis e gratos pela liberação do Iraque pelos EUA. Ninguém falaria melhor sobre as torturas de Saddam. Mesmo assim, até ontem (15/6), o New York Times havia escrito 177 matérias sobre Abu Ghraib – 40 delas com chamada em primeira página. Nenhuma sobre os sete iraquianos’.

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